Sáb07112020

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

12 Set 2004

Agente Smith

Escrito por 

Existem, porém, dois “programas” fundamentais, que o ministro Dirceu vem tentando destruir: o “programa Palocci” e o “programa oposição” personificado no PSDB e no PFL. Se ele conseguir, o domínio do PT, hoje partido dominante, será o de partido único.

Matrix não foi apenas mais uma obra de ficção levada ao cinema, cheia de efeitos especiais e cenas de ação, conforme foi assimilado pela maioria que assistiu ao filme, mas uma espécie de compêndio cinematográfico para iniciados em conhecimentos filosóficos, doutrinários e esotéricos. Farto em simbolismos, o filme contém uma profunda crítica sobre a própria existência, induz a reflexão sobre sistemas totalitários e leva a meditar sobre o livre arbítrio colocado diante do controle total imposto pelo mega computador. Essa máquina prodigiosa, segundo os autores do enredo, mantém como um deus terrível os humanos a ele conectados, pois vive de sua energia, entretanto, sabedora dos limites do homem para suportar tal privação de liberdade, gera programas que, simulando a realidade, mantém as criaturas felizes em mundos virtuais e ilusórios.

Entre os personagens de Matrix aparece o agente Smith, programa criado para proteger o supersistema. Ele é enviado para destruir Neo, o salvador que livrará os homens da sujeição em que se encontram. Mas no terceiro e último filme Smith age como um vírus que se multiplica em um numeroso exército de Smiths idênticos, que contamina os demais programas e tende desse modo a destruir o poderoso computador que devia proteger. O agente usa óculos de aros e lentes escuras, como outros personagens do filme, mas nele esse acessório que combina com o terno preto confere um aspecto sinistro.

Dia destes, assistindo televisão, vi o ministro José Dirceu usando óculos semelhantes ao do agente Smith. Num relance surgiu em minha mente uma analogia entre a ficção de Matrix e o comando político sob o qual vivemos. Sem querer igualar o atual governo à dimensão que os autores do filme deram ao supercomputador, me lembrei que na matéria da revista Época, de 30 de agosto deste ano, intitulada “Uma empresa chamada PT”, esse partido é mostrado como uma poderosa máquina do poder, destinada a manter o maior tempo possível nos cargos de comando a atual classe dominante, o que naturalmente inclui o presidente da República.

Estruturada como moderna empresa capitalista esta prodigiosa e riquíssima estrutura, possui avançada tecnologia de comunicação que lhe permite interligar seus 5.352 diretórios e manter um cadastro informatizado e atualizado dos seus 666.852 filiados (observem os que se dedicam à leitura da Bíblia a sugestiva coincidência do número 666).

Além de Duda Mendonça, referido na matéria citada como “o publicitário mais bem pago do país”, outros especialistas em propaganda e pagos a peso de ouro, se encarregam de gerar ilusões ou programas sociais ilusórios que não funcionam na prática, mas que parecem ser de verdade e mantém a maioria dos brasileiros sem medo de serem infelizes. Isso e muito mais “formatam” os mágicos marqueteiros, como a atual onda ufanista que fez lembrar no programado desfile de 7 de Setembro traços de regimes autoritários e mesmo totalitários onde se exalta mais o líder do que a pátria.

Note-se ainda, que não são apenas militantes e filiados que estão conectados na máquina do poder. E aqui entra o ministro José Dirceu com seus óculos de agente Smith. Para proteger o “sistema”, ele vai anexando tudo e todos. Foi o superministro, por exemplo, quem comandou a ampliação da base governista na Câmara, que permite a aprovação das Medidas Provisórias emitidas pelo Executivo com enorme freqüência. Agora ele tenta convencer senadores a se mudarem para siglas aliadas, uma vez que no Senado está havendo alguma resistência ao domínio do Executivo. Desse modo, José Dirceu vai transformando a coordenação política de Aldo Rebelo num programa desativado, se é que esse já funcionou a contento alguma vez.

Governando como primeiro-ministro desde o início da ascensão do PT ao poder, José Dirceu tem o condão de por fim aos escândalos que assolam o governo com um simples pronunciamento. Basta que diga: o caso está terminado. Desse modo, ele engloba a Lei e a Justiça. Foi assim na crise gerada pelo seu principal assessor, Valdomiro Diniz, flagrado numa fita a pedir propina e contribuição de campanha ao bicheiro Carlinhos Cachoeira. Não se ouve mais falar do Waldomiro.

Existem, porém, dois “programas” fundamentais, que o ministro Dirceu vem tentando destruir: o “programa Palocci” e o “programa oposição” personificado no PSDB e no PFL. Se ele conseguir, o domínio do PT, hoje partido dominante, será o de partido único.  Resta observar se futuramente ainda restará algum livre arbítrio entre brasileiros, ou se estaremos por longo tempo “plugados” à formidável máquina em que o PT no poder se converteu.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 16:57
Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.