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13 Abr 2004

Política Econômica ou Tratamento Psiquiátrico

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Se o crescimento se mostrar pífio, o governo Lula passará pelo segundo grande “teste da realidade.

Entra governo, sai governo, e o nível da discussão permanece rasteiro. Há, para usar uma expressão freudiana, uma espécie de compulsão à repetição. As análises mostram forte propensão a ficar na superfície dos problemas como se o País não tivesse sérios desequilíbrios estruturais. Se a economia não deslancha, isso se deve ao fato de os desenvolvimentistas, encarnação do Santo Guerreiro, virem sendo nos últimos anos derrotados pelos monetaristas, os dragões da maldade. A despeito das nuanças ideológicas que subsistem entre tucanos desenvolvimentistas e petistas hiperdesenvolvimentistas, é impossível, depois de anos ouvindo a mesma ladainha, evitar a saturação. Os atuais desenvolvimentistas, dentro e fora do governo, esposam a opinião de que é preciso coragem, isto é, duras ações governamentais, para enfrentar a predação dos organismos financeiros nacionais e internacionais. Veríssimo, o cronista que acredita em pajé, fala de banqueiros contentes e o professor da Unicamp diz ao Gaspari que há uma armadilha de banqueiros. Quanto simplismo! Fórmulas fáceis fazem muito sucesso. Nada mais sedutor que reduzir tudo a um só culpado em vez de tentar lidar com a intrincada rede de causas e efeitos. Se nossos problemas estruturais se reduzissem ao vampirismo dos bancos, seria bem mais fácil superá-los.

Depois de ter inflacionado o mercado político com grandes promessas, Lula gerou grandes expectativas de crescimento acelerado, de diminuição considerável da taxa de desemprego e de aumento da renda do trabalhador. Como seu governo está longe de ter alcançado essas metas, as propostas de “guinadas redentoras” começam a ser feitas com crescente desenvoltura. Nos processos sociais complexos, determinadas condições podem se revelar necessárias, mas não suficientes, para se chegar ao que se deseja. O controle rigoroso da inflação, a austeridade fiscal, o câmbio flutuante não garantem que o crescimento sustentável ocorrerá. Só que, sem eles, o máximo que se conseguirá é o vôo da galinha. Será um crescimento ilusório, uma vez que não terá fôlego para se manter em cena por uma fração razoável de tempo.

O Brasil está infestado de progressistas falastrões que apregoam soluções fáceis para sérios desequilíbrios macroeconômicos e seculares mazelas sociais. Deseducam a opinião pública com seu populismo intelectual. Tem sempre um sofista apregoando que não há necessidade de duros ajustes para que tudo melhore. Pessoas mal (in)formadas se deixam engabelar por propostas vazias que não sentem pejo em apontar saídas que despontam como atraentes pelo primarismo. Os efeitos colaterais dos pseudo-remédios não aparecem na bula da “medicina alternativa” defendida pelo desenvolvimentismo de fancaria que fica à vontade para pedir “inflação para o crescimento”, que encara a obsessão com a estabilidade como uma das principais causas da atual estagnação. Há um certo infantilismo nas cruzadas pelo crescimento que acreditam que deixando de dar continuidade à política econômica herdada de FHC o país deslanchará. Há inclusive quem proponha sottovoce que calotes voltem a ser dados, que se promova o relaxamento fiscal para que o Estado capitaneie o esperado espetáculo do crescimento.

Os desenvolvimentistas que elegem os bancos como vilões pouco se perguntam se o País oferece – com sua carga tributária, entraves burocráticos, incertezas regulatórias, desrespeito aos contratos e ao direito de propriedade - um ambiente que estimula investimentos. O grande culpado para eles é a elevada taxa de juros coadjuvado pelo asfixiante aperto fiscal. Liberando o Estado para gastar (ainda) mais e constrangendo o Copom a baixar a taxa de juros se reverterá o quadro atual. Ora, se o Banco Central é acusado de conservadorismo, então tudo se resolve politizando sua atuação, instilando progressismo em suas decisões. É compreensível que certas correntes do PT, reféns de seu passado ideológico, abracem esse tipo de visão; o preocupante é constatar que se dissemina pelos outros partidos e pela opinião pública. Até porque a incapacidade de identificar os fatores que viabilizam o crescimento econômico é ela mesma um entrave ao desenvolvimento.

Todo o governo abriga disputas internas. Só que há casos, como o do PT no poder, em que as facções dissentem no atacado e no varejo. Debater propostas de governança, referentes ao tipo de encaminhamento administrativo que se deve dar aos problemas coletivos, é uma coisa. Outra bem diferente é a divergência entre facções que defendem excludentes projetos de sociedade. O ministério da agricultura e o da reforma agrária, para dar um exemplo, se dedicam a objetivos conflitantes. O fato de, no seio do governo, conviverem ministros pró-mercado (às turras) com empedernidos estatistas (socialistas), não seria grave se isso não representasse uma desgastante luta pelo poder.

A proposta de política macroeconômica que tem sido defendida como uma alternativa ao “neoliberalismo” não passa de um afrouxamento geral dos controles. Parece conselho de psiquiatra liberado dando conselho a suburbano reprimido: menos “neura” com a inflação, com o superávit fiscal, com a diminuição da relação dívida interna/PIB e tudo melhorará. Esta talvez seja a fórmula “sem medo de ser feliz”, mote de campanha do PT, que o governo ainda não ousou experimentar. A outra seria uma tentativa de resgate do socialismo como expressão da nostalgia do impossível.

O ano de 2004 será muito importante na definição de rumos para o País. Se o crescimento se mostrar pífio, o governo Lula passará pelo segundo grande “teste da realidade”. O primeiro ocorreu quando, contrariando as expectativas e previsões, Lula manteve a linha da política econômica que vigorou durante a era FHC. Como com as forças cruéis e impessoais do mundo não se brinca, o governo Lula passará, nos próximos meses, por um segundo “teste da realidade” caso o espetáculo do crescimento não entre em cartaz. Perseverará Lula com Palocci ou colocará em seu lugar um “desenvolvimentista” que não sofra de neuroses ortodoxas? Caso o ministério da fazenda venha a ser confiado a uma mente heterodoxa, é importante que Lula substitua o sanitarista pelo psiquiatra. Porque é de tratamento mental que o país precisará.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:33
Alberto Oliva

Filósofo, escritor e professor da UFRJ. Mestre em Comunicação e Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor-palestrante da EGN (Escola de Guerra Naval) e da ECEME (Escola de Comando e Estado-maior). Pesquisador 1-A do CNPq. É articulista do Jornal de Tarde desde 1993. Possui sigficativas publicações como "Liberdade e Conhecimento", "Ciência e Sociedade. Do Consenso à Revolução", "A Solidão da Cidadania", "Entre o Dogmatismo Arrogante e o Desespero Cético" e "Ciência e Ideologia".

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