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07 Set 2013

A GLOBO E A DITADURA: O QUE FOI DITO E O QUE FALTOU DIZER

Escrito por 

Quando o jornal O Globo publicou, no domingo, o seu mea-culpa sobre o apoio dado ao golpe militar de 1964, uma primeira leva de idiotas veio ao blog dizer algumas bobagens. Depois da edição do Jornal Nacional desta segunda, que levou ao ar trechos da abjuração, a corrente de estupidez se intensificou: “E aí? Você não vai fazer o mesmo? Não vai se arrepender também de ter apoiado a ditadura?”. A resposta é “não!”, e a razão é simples: eu nunca apoiei a ditadura; logo, não tenho do que me arrepender. Quando os militares chegaram ao poder, em 1964, eu tinha dois anos — faria três só em agosto daquele ano.

Doze anos depois, em 1976, quando se opor à ditadura requeria muito mais do que a coragem moral da abjuração — era necessário ter a coragem física do enfrentamento —, eu estava na oposição ao regime militar, o que me rendeu alguns dissabores, mal a barba havia me despontado no rosto. Talvez até pudesse pedir hoje uma graninha ao estado, mas, vejam só!, eu sabia os riscos que corria e não acho que os pobres brasileiros devam arcar com o custo das minhas escolhas. Não acredito que homens sejam propriedades do estado — ou que este, como ente, representando a todos, deva arcar com o peso das opções feitas por parcelas da sociedade ou por indivíduos. Há quem tenha outro entendimento. O meu é este: a história vivida como uma eterna reparação costuma servir aos fanáticos da hora.

Assim, não há nada do que possa me arrepender — nem mesmo, e já revelei isto aqui, da minha pregressa militância de esquerda. Socorre-me o conforto de saber que fui crítico severo de todos os governos que vivi, o que inclui — e os tontos dão mostras de ignorá-lo — o de FHC. Outros de minha geração, e de gerações anteriores, dão mostras de ser mais adaptáveis ao espírito do tempo. Ou, quem sabe, mais espertos. Emprestam a sua retórica jacobina ao que costumo chamar de “protesto a favor”. Estão sempre a esconjurar as forças do atraso e da reação, que, não por acaso, são aquelas que se opõem ao governo de turno.

Dia desses, um deles cobrava, em tom de indignação, que o governo Dilma desse ainda mais recursos, por intermédio da publicidade de estatais e da administração federal, aos áulicos. Explica-se: há no mercado um excesso de oferta de subjornalismo a favor. É muita gente disposta a elogiar e a defender o governo ao mesmo tempo. Esse excesso implica um barateamento da mercadoria. Entre esses, há ex-antipetistas e ex-antilulistas fanáticos. Quando o PT estava na oposição, os anões morais se entregavam a momices para demonstrar que repudiavam aquela esquerda atrasada. Hoje, põem as suas momices a serviço do partido e repudiam o que chamam “direita atrasada”. Pertencem, em suma, todos eles, a um partido que exerce uma incrível atração e tem um formidável poder de convencimento: o Partido do Poder. Experimento, como sabem, um desconforto adicional: não me sinto representando pelo PO: o Partido da Oposição. Mas vamos voltar ao curso do rio, de que me distanciei um pouco.

Há também os leitores de boa-fé que me perguntam o que penso a respeito do texto do/da Globo. Um leitor chamado Paulo de Tarso me faz uma pergunta interessante: “Se você estivesse no lugar deles [suponho que se refira ao comando das organizações], endossaria um editorial daquele?”. Difícil saber, Paulo, porque tenho dificuldades de lidar com esse “se”. Se a condição para dar uma resposta é “estar no lugar”, não tenho o que lhe dizer. Posso, sim, destacar algumas coisas que me parecem fora do lugar.

Desde logo é preciso deixar claro que há dois textos. O site Memória traz o mea-culpa propriamente dito, que faz uma breve reconstituição da história, evocando as circunstâncias que levaram o jornal O Globo — e se entende que, de fato, se trata de uma satisfação prestada pelas Organizações — a apoiar o regime militar. As palavras de Roberto Marinho, o patriarca, são evocadas de maneira ambígua. Trata-se da transcrição de um editorial de 7 de outro de 1984, lê-se:

“Temos permanecido fiéis aos seus objetivos [da revolução], embora conflitando em várias oportunidades com aqueles que pretenderam assumir a autoria do processo revolucionário, esquecendo-se de que os acontecimentos se iniciaram, como reconheceu o marechal Costa e Silva, ‘por exigência inelutável do povo brasileiro’. Sem povo, não haveria revolução, mas apenas um ‘pronunciamento’ ou ‘golpe’, com o qual não estaríamos solidários”.

Tais palavras encerram o parágrafo que lembra que Marinho elogiou o general Geisel por ter revogado o Ai-5, restabelecido o habeas corpus, resgatado a independência da magistratura e posto fim ao Decreto 477, base da intervenção do regime nas universidades. Dá-se ainda destaque ao fato de que o empresário e jornalista, o que é fato, protegeu alguns dos “seus comunistas”, abrigando nas suas empresas de comunicação profissionais perseguidos. Honra-se, assim, a figura daquele que, sei lá como dizer, parece ter aderido ao golpe por motivos que talvez considerasse nobres e saneadores — sem contar que ele via na intervenção militar uma “exigência inelutável do povo brasileiro”. O texto releva que muitos acreditavam — e não sem motivos, é certo — que João Goulart planejava um autogolpe.

Digo que a evocação é ambígua porque, em que pesem, então, os bons propósitos que motivaram o apoio, o texto não lhes dá abrigo e encerra: “À luz da História, contudo, não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto original. A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma.”

O outro

O outro texto, que incorpora esse da “Memória”, é o editorial do jornal. Vem acrescido de uma introdução. É nela que está o que mais me incomoda — e por motivos puramente jornalísticos, que nada têm com a ideologia. A rigor, ao expô-los, vocês poderão notar, farei uma defesa do jornalismo da Globo, que, lamento ter de escrevê-lo, eles próprios não parecem ter se sentido à vontade para fazer. E, por óbvio, não o faço em defesa do grupo, mas em defesa do jornalismo livre. Escreve o jornal nessa malfadada introdução.

Desde as manifestações de junho, um coro voltou às ruas: “A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura”. De fato, trata-se de uma verdade, e, também de fato, de uma verdade dura.

Já há muitos anos, em discussões internas, as Organizações Globo reconhecem que, à luz da História, esse apoio foi um erro.

Há alguns meses, quando o Memória estava sendo estruturado, decidiu-se que ele seria uma excelente oportunidade para tornar pública essa avaliação interna. E um texto com o reconhecimento desse erro foi escrito para ser publicado quando o site ficasse pronto.

Não lamentamos que essa publicação não tenha vindo antes da onda de manifestações, como teria sido possível. Porque as ruas nos deram ainda mais certeza de que a avaliação que se fazia internamente era correta e que o reconhecimento do erro, necessário.

Governos e instituições têm, de alguma forma, que responder ao clamor das ruas.

De nossa parte, é o que fazemos agora, reafirmando nosso incondicional e perene apego aos valores democráticos, ao reproduzir nesta página a íntegra do texto sobre o tema que está no Memória, a partir de hoje no ar:

Retomo

Se o mea-culpa contido no site “Memória” procura falar a linguagem maiúscula da reconstituição histórica, admitindo o erro (e não concordo com tudo o que vai lá, já digo por quê), essa introdução do jornal O Globo vai além da abjuração e passa a ser uma expiação. Nem todo altar serve à remissão dos pecados; nem toda penitência é digna; nem todo sacrifício de fato expia. Se as Organizações Globo não indagam, indago eu: quem são estes que estão gritando nas ruas, às portas da emissora ou de outros veículos de comunicação? É gente que defende o “controle social da mídia”? É gente que põe fogo em jornais e revistas? É gente que faz a defesa aberta da censura? E gente que quer subordinar a imprensa a instâncias partidárias? Então é gente que não presta!

Se “a verdade é dura, e a Globo apoiou a ditadura”, os que estão jogando estrume de cavalo às portas da emissora querem que país? Que a Globo ou qualquer outro decidam abjurar de crenças e valores que compuseram a sua história, vá lá, mas que a tanto sejam levados por convicções que realmente honram a democracia, que a elevem, que a tenham, de fato, como uma valor inegociável.

Mais adiante, encontra-se a frase mais infeliz do conjunto da obra: “Governos e instituições têm, de alguma forma, que responder a clamor das ruas”. É evidente que não posso concordar com essa frase, nem como um primado moral, nem como síntese do caso em espécie. Ou, por outra, serei obrigado a lembrar aqui, COMO DESTACOU ROBERTO MARINHO PAI, CUJA CRENÇA FOI ABJURADA, NÃO É?, QUE, EM 1964, HAVIA, SIM, CLAMOR NAS RUAS. E tanto as instituições como a imprensa responderam a ele. E aí?

Entendo que a imprensa, comprometida com os valores democráticos, tem, muitas vezes, de responder ao CLAMOR DAS RUAS com o apelo à ordem. Qual ordem? Ora, a ordem democrática. Ao se omitir a origem dos que, hoje, acusam a Globo de vínculos com a ditadura, comete-se uma falha especialmente grave no ambiente da imprensa: uma omissão. “Mas muda alguma coisa? E não apoiou mesmo?” Não altera o passado, mas é relevante para o futuro. Ou então me digam: os extremistas que vão para as ruas vociferar o fazem por causa do golpe de 1964 ou porque pretendem encabrestar a emissora e o jornalismo como um todo? O que eles querem? Uma Globo e uma imprensa mais independentes ou ainda mais afinadas com os valores do novo oficialismo?

Outro reparo

E faço, sim, um reparo importante no texto da abjuração. Acho que há uma confusão conceitual quando se diz que o apoio dado pela emissora ao golpe de 1964 é um “erro à luz da História”. Tendo a achar que “à luz da história”, não existem nem erros nem acertos, mas apenas fatos. Notórias reputações hoje tidas como “progressistas” (os únicos reacionários do Brasil, pelo visto, somos Olavo de Carvalho e eu…) apoiaram a deposição de Jõao Goulart, como Carlos Heitor Cony, Alberto Dines e Antonio Callado — que depois organizaria com Chico Buarque a Caravana a Cuba… Cito apenas alguns. Procurem nas bibliotecas um livrinho chamado “Idos de Março”. Está tudo lá.

Eu diria que se pode chamar o apoio ao golpe de um “erro” na esfera, vamos dizer, teleológica. Como valor em si, como horizonte que se busca, como é que alguém pode preferir o golpe, a menos que seja um tirano ou um defensor da tirania? É justamente “à luz da história” que as coisas se complicam. Para que o editorial pudesse sustentar esse ponto de vista com tanta certeza, forçoso seria que soubesse, para poder fazer a comparação, para onde teria ido o Brasil sem a intervenção militar. Notem bem: eu lutei contra a ditadura, eu apanhei lutando contra a ditadura, mas não sei dar essa resposta. Pelo visto, alguém por lá, “à luz da história”, julga saber. Notem: isso nada tem a ver com a Globo — eles façam o que lhes der na telha. Essa é uma questão que diz respeito à história.

E também não tenho como endossar sem reparos a frase final do texto, sem que lembre um paradoxo que não pode ser resolvido pela retórica: “A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma”. Sim, a democracia é um valor absoluto. Mas não pode permitir que ajam livremente aqueles que pretendem recorrer a seus próprios instrumentos para solapá-la.

Encerro

Encerro este texto, mas muito longe de esgotar o tema, é evidente. No ano que vem, o golpe militar de 1964 completa 50 anos. De algum modo, ainda estamos pagando o tributo aos supostos democratas que teriam sido esmagados por supostos facínoras. Seis anos depois de deixar a Presidência, onde permaneceu por 15 anos — quase 12 como ditador —, Getúlio Vargas estava de volta ao poder. Todos os seus crimes, e não foram poucos — matou e torturou mais do que a ditadura militar —, tinham sido esquecidos. Voltou à cena para protagonizar uma tragédia que foi muito além de seus delírios e desastres pessoais. Convertido, no entanto, em herói popular, ainda hoje é considerado uma… inspiração.

Agora só falta Dilma Rousseff admitir que ter integrado o Colina (Comando de Libertação Nacional) e a VAR-Palmares foi um erro. Afinal, essas organizações mataram pessoas inocentes em nome de sua causa. E matar pessoas inocentes, convenham, é injustificável em qualquer tempo. Mas acho que ela não o fará.

 

Por REINALDO AZEVEDO

Última modificação em Sábado, 07 Setembro 2013 10:09

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