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17 Set 2010

Socialismo x Cristianismo

Escrito por 

O artigo do senhor FRANCESCO SCAVOLINI, publicado no jornal Folha de São Paulo, em 10 de setembro último e, por sua importância, imediatamente transcrito pela editoria da Ratio Pro Libertas neste espaço, artigo no qual ele nos remete à constatação da desfaçatez com que a candidata da situação, camaleonando-se ao ambiente eleitoral num mimetismo constrangedor

, busca se utilizar da religiosidade dos brasileiros para tirar vantagens pessoais, me fez recordar oportunidade vivenciada lá pelo final de 2001, início de 2002, quando de uma reunião que me fora solicitada por um dos Secretários Municipais de Campinas, na qual os temas socialismo e cristianismo vieram a baila.

Ocorreu que, em meados de 2000, o Comando que representa o Exército Brasileiro em Campinas, mercê do excelente relacionamento que mantinha com o Poder Público Municipal, criou, na rádio do município, o Programa “Trincheira Brasileira”, com o propósito de difundir à população local as atividades relacionadas ao Exército que fossem vistas como de interesse comum da sociedade de Campinas e região. Merece registro que o referido programa, que costumava apresentar audiência cerca de três vezes superior à média da emissora, foi, na oportunidade, considerado um verdadeiro “case”.

Ocorrida a eleição municipal, ao final de 2000 e tendo assumido o cargo de Prefeito um representante de outro grupo político-partidário, foi o novo prefeito consultado sobre seu interesse em manter a programação, tendo se manifestado altemante motivado na sua manutenção, com a justificativa de que considerava salutar que os diversos segmentos da sociedade local se valessem da emissora municipal (que na sua visão não era dele, não era do poder público municipal, era da coletividade e a serviço dela deveria se colocar) para difundir suas ações, suas necessidades, compartilhando-as com os demais segmentos.

Pois bem, assassinado o Prefeito Municipal em setembro de 2001, tendo assumido a administração municipal sucessores que não comungavam das mesmas teses e viam a emissora unicamente como instrumento a serviço dos interesses do poder público (vale dizer, daqueles que vestiam o poder público, na oportunidade), decidiu o referido secretário suspender a veiculação do Programa e, para isso, me solicitou a reunião a que me refiro no início do texto, no transcurso da qual, descobri, se destinava à formalização da sua decisão.

Cabe esclarcer que o tal secretário poderia ser descrito como um desses indivíduos que imagina que Deus estaria em um de seus dias especiais, quando de seu nascimento e decidira cumulá-los de Graças, lhes dando a condição de infenso a qualquer possibilidade de erros. Sabem tudo a respeito de tudo. São seres de tal forma execepcionais, privilegiados, que, sou levado a crer, Deus, nos seus momentos de dúvida, insegurança, busca consultá-los para assegurar-se de que não estará sujeito ao cometimento de qualquer equívoco.

O interessante é que esses indivíduos, normalmente despreparados, decoraram e organizaram algumas reflexões, que repetidas a exaustão, os levam a se sentirem seguros em defender. No entanto, retirados do que se poderia chamar de seu “habitat” intelectual, demonstram absoluta fragilidade, desinformação, permitindo que aflorem suas posições simplistas, preconceituosas, demonstradoras de um espírito pobre.

É fácil o prezado leitor imaginar que no início da referida reunião o cidadão me atropelou com um infindável raciocínio absurdo com os porquês da sua decisão, numa peroração que se me apresentava como um esforço, na verdade, de auto-convencimento.

Depois de ouvir uma infinidade de sandices, me senti tentado a migrar para o sarcasmo, retirando-o da sua zona de conforto intelectual e então  lhe disse que, como brasileiro, torcia muito para que fosse bem sucedido o esforço, que vinha sendo conduzido (e continua sendo, mais do que nunca, hoje) pelo grupo que ele representava, para implantar um estado socialista no Brasil.

Surpreso com minha afirmação e consciente de que ela se lhe apresentava como incoerente, partindo de quem partia, meu interlocutor não se conteve e questionou o porquê da minha torcida.

Citando a obra de Jean Christian Petitfils, Socialismos Utópicos, da qual, desnecessário dizer, o cidadão jamais ouvira falar, lhe expliquei que minha torcida se justificava na medida em que, na história da humanidade, todas as tentativas de implantação de uma sociedade socialista haviam fracassado redondamente, sempre após muito sofrimento, muita dor.

Assim sendo, ainda em tom de deboche, insisti que, como brasileiro, me sentiria orgulhoso de poder pensar que pudesse dar certo no Brasil, algo que, ao longo de toda a história da humanidade, fracassara um sem número de vezes, independetemente do espaço físico em que fora tentado.

Diante da quase perplexidade do meu interlocutor com a afirmação quanto ao fracasso dessas tentativas que também demonstrou desconhecer, incursionei pelas propostas de Hipódamo de Mileto, inspirador de Platão, passando pela Utopia de Thomas More, a Cidade do Sol de Campanella, Saint-Simon, Robert Owen, os falantérios de Fourier, até chegar à tragédia comunista que esfrangalhou a União Soviética e ceifou milhões de vidas.

Absolutamente incapaz de interagir e demonstrando claramente estar inseguro quanto aos propósitos da minha peroração (seria deboche?), para minha surpresa o cidadão me perguntou: - Por que o senhor é um estudioso dessas experiências? O senhor é socialista, ou, pelo menos, simpatizante?

Exultei, ao ver a conversa encaminhar-se para a direção que desejava e respondi incontinente: - Não posso, meu amigo, porque eu sou cristão.

Mais desconcertado ainda, o secretário reagiu: - Ora, o que uma coisa tem a ver com a outra? Eu também sou cristão. Sou católico. Aliás, sempre ouvi dizer que Cristo foi o primeiro dos socialistas.

Retruquei: - Não é possível. Não é coerente. Continuei: - Cristão é todo aquele que norteia sua vida, sua existência, a partir dos ensinamentos que nos foram legados por Cristo. Ora, o que Cristo nos propõe é que dividamos com o nosso próximo o que se nos apresenta como nosso, o que parece nos pertencer (seja tangível ou intangível).

- Onde está a incoerência, questinou ele?

Retomei: - Ora o que os senhores socialistas propõem a sociedade é que lhes seja permitido estabelecer as normas segundo as quais lhes será dado o direito de decidir o que tomar de quem para destinar a outro alguém. Não foi isso que Cristo nos sugeriu.

Emendei: - Parece fácil que eu me arvore no direito de, em nome da coletividade, decidir o que esse ou aquele tem que deva ser considerado supérfluo e que, em razão disso, lhe deva ser tomado, para se dar àquele outro, sem sequer se o ter consultado a respeito de se lhe interessava receber.

Continuei: - Se o senhor se diz cristão deve dividir com aqueles que considere mais desafortunados o que é seu, não o que é dos outros e, por isso mesmo, não lhe pertence, tendo o cuidado, ainda, de estar certo que esteja indo ao encontro do que a eles, desafortunados, parecer necessário.

Prossegui: - Tirar do Pedro, sem sua aquiescência, o que se considere passível de lhe ser tirado, para dar ao João aquilo que não se o consultou para saber se lhe é necessário, não tem absolutamente nada a ver com Cristo ou sua proposta. Vincular Cristo à proposta socialista é, senão desonesto, profunda manifestação de ignorância.

Sem saber como dar continuidade à conversa, o secretário olhou seu relógio, simulou surpresa com o que seria o adiantado da hora e lamentando ter que se retirar, propôs que se retornasse à questão num futuro próximo.

Decorridos quase dez anos daquele dia, continuo aguardando a chance de prosseguirmos nosso debate.

Entretanto, lamentavelmente, continuo assistindo o descaramento com que alguns setores do universo político-partidário desse país, se valendo do espírito religioso do homem brasileiro, buscam obter benefícios pessoais e grupais, valendo-se de sofismas e meias verdades, que, apresentadas sob a forma de propaganda enganosa, porque, propositalmente confundem princípios, valores, verdades, meios e fins, visa sensibilizar aqueles que, puros e bem intencionados, possam vir a lhes atribuir a responsabilidade por promover o que simulam defender.

Fica a questão.

Por que precisaremos errar de novo para que descubramos que tomamos o caminho que já se deveria saber que está errado?

GEORGE ORWELL não poderia ter sido mais explícito no seu “A Revolução dos Bichos” (Animal Farm, na versão original). No entanto, me angustia pensar que vamos ter que conviver com os nossos porcos “Major”, “Napoleão”, “Bola de Neve”, e outros, até que descubramos seus reais propósitos.

Que preço nós brasileiros iremos pagar até que experimentemos o mesmo fracasso a que estamos fadados, segundo o que a história nos ensina, se cometermos o despautério de embarcarmos nessa loucura?

Última modificação em Segunda, 10 Março 2014 20:30
Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP. De 2009 a 2018 foi Superintendente Geral da entidade Movimento Vida Melhor - MVM, em Campinas - SP, cujo propósito é retirar das ruas da cidade adolescentes em risco social.

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