Dom05312020

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02 Set 2010

Azarados

Escrito por 

Ao longo da minha vida profissional, em razão de suas características, me foi dada a oportunidade de percorrer a quase totalidade dos rincões desse país.

Quando distante do Brasil em que nasci, cresci, casei e constituí minha família e, naturalmente, sempre que possível, me vali das oportunidades de tempos livres para, acompanhado de esposa e filhos, realizar pequenas viagens por espaços cujas realidades discrepavam daquelas que matizam os centros mais desenvolvidos do país nos quais nos acostumamos a viver.

Pretendia, ou, ao menos, tinha a expectativa de lhes dar a chance de constatarem a diversidade das realidades e das circunstâncias em que viviam aqueles patrícios.

Esperava lhes dar experiências de aprendizado que os levassem a compreender melhor nossa sociedade, nossas diferenças, que, se por um lado nos enriquecem, talvez, por outro, possa nos distanciar, caso não contruamos a compreensão de que “o diferente não necessariamente está errado”, ou que seria desastroso se pensar que o “diferente tem que ser transformado em igual”.

Esperava assim evitar que eles, por desconhecerem aquelas realidades e as circunstâncias que as matizavam, a cultura dos que ali habitavam, seus anseios, seus interesses, suas necessidades, pudessem cair na armadilha, por vezes construída por sentimentos puros de solidariedade, de imaginar que se deve, a qualquer preço, lhes impor nossas verdades, nossos princípios, nossos valores, o que se nos apresenta como nossas facilidades, nosso estilo de vida.

Pois bem, há mais de uma década, numa dessas incursões, na oportunidade pelo interior de Goiás, viajando com meu filho, na época com pouco mais de vinte anos, depois de algumas horas de estrada, atravessamos um lugarejo desses que se desenvolvem ao longo das estradas.

Desses nos quais assim que acabamos de ler a placa “Benvindo a .......”, nos deparamos com outra onde se lê: “Volte sempre”. Era um pequeno correr de casas, crianças semi-vestidas correndo descalças pela terra que dava continuidade ao que se poderia chamar de acostamento, algo com aspecto de armazém, botequins... Por que esses lugares parecem ter mais botequins do que as leis do comércio sugeririam como pertinente?

Apesar de estarmos em meio do dia, nos bares, as cadeiras ocupadas, garrafas de cerveja juntas, ensinuando que a conversa já ia longe.

Mesmo tendo sido rápida a passagem pelo lugar, ainda me recordo com nitidez do que pude, naqueles breves segundos, perceber.

A cidade estava identificada na placa com um nome próprio masculino. Por mais que me esforce, não me lembro qual era. Vamos assumir que era “Alfredo”. A placa de boas vindas teria dito: “Benvindo a Alfredo”.

Mal havíamos deixado o lugar e meu filho me perguntou:
- Pai, como se chama quem nasce em Alfredo?

Confesso que me espantei com a pergunta. Por que eu saberia o gentílico de Alfredo?
Arrisquei: - Alfredino? Ele respondeu com um não categórico.
- Alfredense? Tentei de novo. - Também não, disse ele lacônico.
- Como se chama quem nasce em Alfredo? Perguntei, deixando claro que não iria continuar tentando.
- “Azarado”, respondeu ele, com um ar que, ao mesmo tempo, deixava transparecer a intenção de fazer graça, mas com um certo constrangimento de que a resposta pudesse ser interpretada como humor negro.

Ficamos algum tempo em silêncio. Certamente, ambos refletíamos sobre a mesma coisa. Que perspectiva de vida poderiam ter aquelas crianças que acabáramos de ver?

Lembrei-me, então, de certa oportunidade em que, lendo algo que pretendia ser um questionamento sobre a real possibilidade de o homem poder ser livre, valer-se do que se convencionou chamar de livre arbítrio, vi o autor discorrer sobre quatro circunstâncias das quais o ser humano é refém e que, segundo ele, condicionam a vida de cada um de tal forma que, ainda quando se possa admitir que se está fazendo uso do livre arbítrio, na verdade se estaria decidindo a partir de condicionantes que nos teriam sido impostas por essas circunstâncias.

Segundo ele, não se tem como interferir na definição de: de quem nascemos; de onde nascemos; de quando nascemos; assim como não temos como saber o que acontecerá no amanhã.

Dizia o autor que, a partir dessas circunstâncias, sobre as quais não temos qualquer atuação, a vida de cada um sofre tal influência que as decisões adotadas aqui ou acolá, ao longo do tempo, não teriam poder de reverter, de independer dessa influência.

Apesar de discordar frontalmente dessa tese, não pude, naquela oportunidade, de deixar de pensar em como aquelas crianças estavam presas, de alguma forma àquelas tais circunstâncias. Que futuro poderiam ter? Quantas delas, efetivamente, construiriam suas vidas segundo referências construídas, assumidas, independentemente do fato de terem vindo ao mundo em Alfredo?
“Azarados”......

Por que a reminiscência?

Porque acabo de assistir à Programação Eleitoral Gratuita na televisão.

Assisto por me sentir no dever, como cidadão, de participar do processo, mas com um sentimento que mistura frustração, tristeza, indignação, impotência.

Aí me lembrei dos “azarados” que somos todos nós, brasileiros de hoje.

Não tivemos como evitar nascer de nossos pais, no Brasil do hoje.

Não podemos saber como será o Brasil do amanhã e, naturalmente, como nossas decisões do hoje, matizadas pela realidade em que estamos mergulhados, gerarào a realidade do amanhã.

Nos foi imposto conviver com um momento da história da nação que, se por uma visão otimista poderia ser visto como característico do esforço de uma coletividade para caminhar na direção da maturidade sócio-político-econômica, de outro não há como não reconhecer que se dá dentro de um quadro de imenso risco perda de rumo, pela ação de incompetentes, de desonestos, de aproveitadores, de toda a sorte de oportunistas, que têm demonstrado não titubear em se valer da boa vontade, da inocência, do despreparo e da necessidade da maioria esmagadora da sociedade para, se valendo de todo tipo de artimanha, misturando o público e o privado, enganando, mentindo, sofismando, tirar vantagens pessoais dessa esperança coletiva pela busca da democracia, de uma sociedade mais justa, livre para encontrar e satisfazer seus anseios, seus sonhos.

Azarados, sim, aqueles de nós brasileiros que, em razão daquelas circunstâncias ou, apesar delas, fruto de um imenso esforço pessoal, tendo tido a felicidade de acumular conhecimento, preparo, informação, referências adequadas, que nos tornaram mais capazes de compreender o verdadeiro significado da vida em coletividade, a despeito de toda nossa inconformidade com esse estado de coisas, não temos sido capazes de fazer com que nossas contribuições pessoais e coletivas sejam suficientes para impedir a malversação da coisa pública, tangível e intangível, o descaminho, a manipulação da verdade, o ludibriar dos incautos, dos humildes, dos despreparados.

Azarados, sim, aqueles de nós os brasileiros que, premidos pela realidade em que vivemos, nos vemos restringindos em nossas vidas praticamente à luta pela sobrevivência em condições mínimas de dignidade, sendo levados de roldão pela rotina imposta por essa realidade, que nos “vende” referências, verdades, valores que não estamos preparados para analisar, avaliar, questionar e, por isso mesmo, tende a nos transformar em “robôs” humanos, incapazes de, efetivamente, decidir sobre nossos destinos.

Azarados, sim, aqueles de nós brasileiros que, vivendo na pior das indignidades, que é a de não nos sabermos na indignidade, somos induzidos a nos alegrarmos, a nos sentirmos repeitados por termos recebido migalhas materiais, a título de esmola, tudo feito com a intenção de assegurar que nos mantenhamos acordeirados como massa disforme a serviço do interesse de um bando(*) petulante de indivíduos que se pensa capaz e se arvora no direito de decidir sobre o que é bom para o país, apoiados no discurso de que lutaram contra uma ditadura, mas que não se constrangem em deixar claro que esse é o destino que desejam impor à sociedade brasileira.

Azarados, azarados, verdadeiramente, azarados.

Meu prezado amigo que me honra com seu tempo refletindo comigo, o que mais me angustia é que estou convencido de que, ou nos unimos, nos organizamos e lutamos em todos os fóruns e de todas as formas contra essa realidade, na mais lídima manifestação do orgulho que temos de sermos brasileiros, ou muito mais azarados serão aqueles brasileiros que nos sucederão. Lamentavelmente, nossos filhos, nossos netos.

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(*) Quando empreguei a expressão bando, registro que me ocorrera antes caterva, corja, chusma, quadrilha e outras. Decidi por bando, porque foi expressão já usada em solenidade oficial da república em referência às mais  altas patentes militares, o que, com certeza, não permitirá que a ela se atribua qualquer conotação pejorativa, que as demais poderiam suscitar.

Última modificação em Segunda, 10 Março 2014 20:30
Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP. De 2009 a 2018 foi Superintendente Geral da entidade Movimento Vida Melhor - MVM, em Campinas - SP, cujo propósito é retirar das ruas da cidade adolescentes em risco social.

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