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26 Ago 2004

Aquilíneos e Galináceos

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Só a ingenuidade ou a cegueira ideológica podem levar alguém a esperar, diante da marcha rumo à centralização e ao aumento dos controles estatais sobre a economia, as instituições políticas e jurídicas e a liberdade de expressão que estamos presenciando, que possa nascer algo parecido com uma águia.

Uma questão que vem inquietando os espíritos é se a atual redução da capacidade ociosa em nossa indústria pode se sustentar, ou, na figura da moda que caiu no gosto dos economistas, se nossa economia está pronta para alçar o “vôo da águia” ou vai, mais uma vez, ensaiar um efêmero “salto da galinha”. A indagação não resiste a meio minuto de reflexão, pois, sob as condições institucionais atuais, é inevitável que a águia vai gorar ainda dentro do ovo.

O crescimento auto-sustentado – o vôo altaneiro da águia – é um processo em que as forças econômicas aumentam sua capacidade de produção ao longo do tempo; os mecanismos político-institucionais aperfeiçoam seus atributos básicos de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, estabelecer e assegurar a ordem e resolver satisfatoriamente a importante questão da contenção do poder; e, finalmente, as águas da ética e da moral garantem a limpeza da economia e da política. A águia, para voar alto, precisa de fibra, iniciativa, boa disposição, conhecimento, inteligência, criatividade e espaço, mas, acima de tudo, necessita de liberdade, pois sua subida sobranceira pressupõe a adesão voluntária à lei e não a obediência servil a comandos burocráticos. Para voar longe, requer ventos jurídico-institucionais estáveis e confiáveis, onde a lei moral seja regra e não exceção e onde o Estado seja servo – e, jamais, um senhor prepotente a autoritário – de cidadãos verdadeiramente livres.

Seu tão desejado vôo pressupõe, de um lado, a liberdade política, no âmago de uma democracia representativa e respeitadora dos direitos individuais e em que o poder do Estado não seja superior ao suficiente para os fazer valer e, de outro, a liberdade econômica, único elemento capaz de deflagrar as forças geradoras do crescimento. Todas as sociedades que semearam estímulos e prêmios ao trabalho duro e à criatividade colheram a safra generosa da pujança econômica, o que nos leva a identificar o âmago do crescimento na capacidade de se moldar instituições que estimulem essas virtudes.

Aqüilíneos não são galináceos e, portanto não podem voar dentro de um cercado. Tente, prezado leitor, se você tem um espírito criativo, abrir uma empresa: será tratado como suspeito, terá que “provar” que é honesto, para o que, muitas vezes, será tentado a ser desonesto diante de tantas dificuldades burocráticas e levará, se tiver alguma sorte, em média, 152 dias para obter o alvará. Depois, procure manter-se em dia com as obrigações fiscais, trabalhistas e previdenciárias: se o conseguir, estará apto para disputar a maratona das Olimpíadas de Pequim. Em seguida, se você ainda não faliu,  procure fazer um planejamento de longo prazo para a sua empresa: após as duas ou três primeiras mudanças nas regras do jogo promovidas pelo governo, verá que isto exige uma força superior à de um levantador de peso. Mas, se você tem mesmo fibra e ainda não desistiu, tente agora tomar crédito no sistema financeiro: esbarrará com uma taxa de juros “medalha de ouro” na modalidade salto em altura. Por fim, se lhe restar alguma esperança, aguarde a tal PPP, para aprender o que é ter como parceiro alguém que, além de mau jogador, ainda vai querer controlar todas as suas defesas, saques, levantamentos e cortadas...

Só a ingenuidade ou a cegueira ideológica podem levar alguém a esperar, diante da marcha rumo à centralização e ao aumento dos controles estatais sobre a economia, as instituições políticas e jurídicas e a liberdade de expressão que estamos presenciando, que possa nascer algo parecido com uma águia. A não ser que nosso politburo decrete, sob o disfarce de monstros como o CNJ, a Ancinave e outros, que, doravante, todas as águias no Brasil estarão obrigadas a cacarejar, voar baixo, só ir onde lhes for permitido, dar saltos e ciscar para trás...

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:16
Ubiratan Iorio

UBIRATAN IORIO, Doutor em Economia EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969).Vice-Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ(2000/2003), Vice-Diretor da FCE/UERJ (1996/1999), Professor Adjunto do Departamento de Análise Econômica da FCE/UERJ, Professor do Mestrado da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC, Professor dos Cursos Especiais (MBA) da Fundação Getulio Vargas e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Coordenador da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC (1995/1998), Pesquisador do IBMEC (1982/1994), Economista do IBRE/FGV (1973/1982), funcionário do Banco Central do Brasil (1966/1973). Livros publicados: "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira" (Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1997, 2ª ed.); "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" (Banco Central/IBMEC, Brasília, 1985); "Macroeconomia e Política Macroeconômica" (IBMEC, Rio de Janeiro, 1984). Articulista de Economia do Jornal do Brasil (desde 2003), do jornal O DIA (1998/2001), cerca de duzentos artigos publicados em jornais e revistas. Consultor de diversas instituições.

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