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26 Ago 2004

Patéticos e Patetas

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Patéticos e apatetados os eleitores seguem indiferentes aos avanços da perda de sua liberdade e não há dúvida: ninguém nos tira essa monumental vocação para o atraso, esse amor ao autoritarismo, esse gosto por navegar na contra-mão da história

Essa necessidade urgente de crer em algo e justificá-lo ainda que seja injustificável, de ter um guia providencial que assuma responsabilidades e proteções, de se apegar a miragens para escamotear a realidade, acentua-se em determinados tipos de sociedade e transforma  pessoas em presas fáceis de idéias fabricadas, de falsos líderes, de demagogos astutos.
Geralmente existe a crença de que se é muito esperto, senhor absoluto da própria existência e mesmo da dos outros, mas na verdade a maioria dos indivíduos se torna, principalmente na esfera política, patéticos e patetas joguetes de interesses de poder, crentes fáceis da propaganda e da estatística, seguidores entusiastas de ídolos de pés de barro que enganam facilmente por conta da irreprimível vontade do ser humano de ser enganado.

Em artigos escritos em anos anteriores ponderei que os eleitores estavam amadurecendo, adquirindo mais imunidade com relação às promessas impossíveis de campanha, aguçando seu senso crítico para com aqueles a quem delegavam o poder político, enfim, que os brasileiros estavam mais perceptivos com relação as suas aspirações e necessidades e cobranças.

Essas hipóteses se alicerçavam na idéia de que através de sucessivas eleições o povo estava selecionando melhor seus candidatos com base na competência, experiência e postura ética dos mesmos. E ainda que os partidos políticos continuassem como meros clubes de interesses, a escolha pelo voto mais consciente parecia começar a existir no Brasil. Para corroborar essa visão havia pesquisas de onde a seriedade científica parecia ressaltar.

Num desses levantamentos de opinião pública, realizada no período compreendido entre 17 de junho e 16 de julho de 1985, a Toledo & Associados analisou dados levantados junto a um universo de 252 pessoas em vários bairros da capital paulista. O método adotado foi o da amostragem não-probabilística e os pesquisadores de campo obtiveram respostas e opiniões espontâneas. O relatório entregue ao deputado Herbert Levy, pelos professores Nélson Bom (da PUC), Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque (FGV) e Francisco José de Toledo, concluía que a imagem do político brasileiro estava desacreditada e vinculada à corrupção, empreguismo, promessas não-cumpridas, falta de seriedade e incompetência.

Entre os vários resultados obtidos apareciam os seguintes: 42% afirmaram não acreditar em políticos e 57,1% desprezavam o discurso político, seja em palanques, seja na mídia eletrônica. A razão apresentada foi que o discurso nada tinha a ver com a ação política (63.5% afirmaram que eram capazes de perceber quando as palavras são mentirosas).

A grande informação trazida pela pesquisa, segundo seus coordenadores, foi a constatação de que “existe um abismo entre a realidade e as necessidades do povo e aquilo que ele espera e requer da ação política”. O povo queria coisas mais concretas como saúde, bem-estar, segurança, educação, alimentação. Os dados mostravam ainda que as pessoas não acreditavam nos milagres nem nos políticos, mas tinham uma crença muito forte: a esperança.

Dezenove anos depois desses resultados, 53 milhões de eleitores se fixaram apenas na esperança e agora, sem discernimento capaz de interpretar a realidade, sem saber mais perceber quando as palavras são mentirosas, movida por sentimentos e emoções manipulados facilmente pela propaganda, a massa vai se entregando alegremente à tutela de um Estado cada vez mais ditatorial. Estreitam-se os limites da liberdade e o povo, sem susto e sem medo, consente seu mal e aceita seu jugo. Crescem os tentáculos do polvo estatal e daqui a pouco não haverá instituição que impeça o arbítrio, nem o Legislativo, com aqueles outrora “300 picaretas”, nem o Judiciário da “caixa preta”, nem o Exército, esse “bando de sem-pólvora”, nem a imprensa com seu “bando de covardes”.

Conforme O Estado de S. Paulo de 18/08/04, disse o presidente Luiz Inácio ao presidente da Costa Rica, Abel Pacheco, com relação a viagem que fez recentemente ao Gabão onde esteve com ditador Bongo: “Eu fui agora a uma viagem ao Gabão aprender como é que um presidente da República consegue ficar trinta anos no poder e ainda se candidatar à reeleição”.  Nem precisava o exemplo de Bongo, já que o modelo por aqui é Fidel Castro com seus 45 anos de feroz autoritarismo.

Patéticos e apatetados os eleitores seguem indiferentes aos avanços da perda de sua liberdade e não há dúvida: ninguém nos tira essa monumental vocação para o atraso, esse amor ao autoritarismo, esse gosto por navegar na contra-mão da história. Isso apesar dos brasileiros se julgarem muito espertos.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 21:16
Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

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