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29 Jul 2010

A Estratégia da Ratoeira

Escrito por 

O senhor vai, passivamente, assitir o desenrolar dos acontecimentos, transferindo para outros o papel de protagonistas da história, aceitando a condição de coadjuvante, ou, até mesmo de assistente a quem está reservado, unicamente, a possibilidade de rir, chorar, aplaudir ou vaiar, sem capacidade para participar na elaboração do conteúdo da peça?

Em agosto de 2004, quando a sociedade brasileira se mostrava meio perplexa com a desfaçatez do governo em propor a discussão da criação da Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (ANCINAV) e do Conselho Federal do Jornalismo (CFJ), dividi, neste espaço, com tantos quantos o freqüentam, minha angústia em não identificar na nação manifestações contundentes de repúdio àquela tentativa de amordaçamento do povo e inviabilização de contestação à ação governamental, quando dirigida na contramão do interesse, do desejo da maioria.

Reedito a seguir o conteúdo daquele artigo, por considerar adequado que, ao revê-lo, nele se possa apoiar novas e, certamente, ainda mais justificadas apreensões, diante das perspectivas que ameaçam a nação brasileira, em função do desfecho que possa decorrer do próximo processo eleitoral que se avizinha.

“Há cerca de um mês, estive almoçando no Rio de Janeiro, com um amigo a quem prezo e respeito pelo seu descortino, pela sua inteligência e seu preparo acadêmico. Conversávamos sobre os descalabros que se pode observar na condução da política do atual governo que, se não surpreende, na medida em que foi anunciada por décadas, nem por isso deixa de indignar e preocupar. Na oportunidade, me diz esse amigo que, a despeito de tudo, não conseguia aceitar que se admitisse uma intencionalidade conspiratória no processo.

Completava ele que se negava a admitir que brasileiros pudessem escamotear, numa sucessão de encaminhamento de propostas e projetos, a intenção de, sorrateiramente conduzir a coletividade para uma realidade nova, matizada por parâmetros que estariam a redefinir suas regras de convivência. Deixava transparecer esse amigo, na sua fala, que entendia que, se assim fosse, estar-se-ia sendo tão desonesto, vil, que a sua racionalidade rejeitava aceitar essa possibilidade.

Confesso que encerrei aquele almoço meio constrangido, me sentindo mal, por considerar que pudesse estar me comportando emocionalmente, ao ter dificuldade em concordar com ele. Fiquei com a sensação de que necessitaria me policiar para que não me predispusesse a enxergar cada fato novo criado pelo governo como parte de processo maior orientado para a implantação de um modelo de sociedade que a história da humanidade se encarregou de ensinar como inexeqüível e destinado ao fracasso.

Nesse contexto, me vejo surpreendido pela mais descarada iniciativa do governo com o propósito de tentar amordaçar a livre manifestação do pensamento (como se isso fosse possível) e, então, decidi rever o conteúdo com que nos brindou SERGIO COUTINHO em seu “A Revolução Gramscista no Ocidente, publicado em 2002, pela Estandarte Editora. Em sua obra, Coutinho nos traduz, de forma elogiavelmente didática, a proposta de Antonio Gramsci, em seus Cadernos do Cárcere, a respeito da metodologia, segundo ele, adequada para a implantação de uma sociedade socialista nas nações do ocidente.

Gramsci considerava que era necessário compreender-se que as peculiaridades do que ele chamava de sociedade oriental e sociedade ocidental estariam a exigir estratégias distintas para a tomada do poder e a implantação de uma nova sociedade comunista, ou sociedade regulada como ele a batizava. No seu entender, a “sociedade ocidental” se caracterizava por possuir uma sociedade civil forte, ativa, dotada de instrumentos que se constituiriam em barreira natural à tentativa de assalto ao poder, como preconizado pela estratégia marxista-leninista.

Gramsci propunha, como decorrência, que, nessas sociedades, o processo revolucionário se desenvolvesse em três fases, preconizando que o esforço inicial tivesse como objetivo anestesiar a ação desses mecanismos de defesa do Estado e da sociedade, os quais eram, por ele, chamados de “aparelhos portadores materiais da hegemonia”. Na proposição Gramscista, na primeira fase, o processo deveria buscar se valer das próprias franquias propiciadas pela realidade democrática para se instalar e participar do jogo político, buscando infiltrar-se naqueles aparelhos portadores materiais da hegemonia, de forma a poder deles se utilizar na segunda fase.

Nessa segunda fase, o objetivo primacial seria o estabelecimento da hegemonia, da reforma intelectual e moral da sociedade, do estabelecimento do “consenso”. Na visão de Gramsci essa fase seria crucial, na medida em que nela estar-se-ia criando as condições ideais para que a coletividade fosse progressivamente acumpliciada ao processo revolucionário, e inadvertidamente, inconscientemente, findasse por aderir a ele. Dentre aqueles aparelhos portadores materiais da hegemonia, portanto geradores do consenso, estão os sindicatos, hoje as ONGs, mas, fundamentalmente, o meio acadêmico, os meios editoriais e a mídia em geral, ou seja, aqueles instrumentos, por intermédio dos quais a coletividade é informada.

A infiltração nessas três áreas possibilitaria que, no tempo, se fizesse a orquestração de novos paradigmas para a coletividade, de modo a predispô-la a visões consensuais diante de futuras propostas políticas de redefinição de sua realidade.

Convido o prezado leitor a refletir sobre o que ocorreu, no Brasil, nessas áreas, nas últimas décadas.
Obtido o consenso, acordeirada a sociedade, se estaria pronto para o deflagrar da última fase que se materializaria com a ascensão ao governo daquele grupo que se apresenta à sociedade como lídimo representante do consenso gerado. Na última fase, nos diz Gramsci, esse grupo político, contando com uma predisposição consensual da coletividade, poderia se valer dos instrumentos inerentes ao poder para, também progressivamente, sorrateiramente, suavemente, ir promovendo as transformações que possam ir consolidando uma nova realidade.

Caro amigo que me brinda com a leitura dessas reflexões, estarei eu sendo emocional ao identificar, no processo político que vem sendo experimentado pela nossa sociedade, fantástica semelhança com o que sugere Gramsci? Estarei eu vendo fantasmas atrás das portas, ao identificar nessas recentes iniciativas do governo federal (ANCINAV e CFJ) a intencionalidade de dotar o grupo que ocupa, temporariamente o poder, de instrumentos que lhe possibilite anestesiar quaisquer manifestações futuras de questionamentos, contribuindo, decisivamente para sua perenização no poder e, por via de conseqüência, no estabelecimento de uma ditadura de fato?

Estarei eu desconexo da realidade quando me indigno com a apatia generalizada da sociedade, diante desses “balões de ensaio”, que nada mais se apresentam para mim como tentativas de medir a temperatura da sociedade, diante da perspectiva de mudanças radicais?

Conversando com um destacado homem da mídia, perplexo, ouvi dele: - “Viu nossa reação contundente a essa proposta indecorosa do Governo”? Fui obrigado, com a preocupação de não ser descortês, a lhe dizer que não vira não. Que considerara tímida a indignação da sociedade, diante de tal indecência. Que entendia que a desfaçatez do governo de tornar pública essa proposta, por si só, nos diz da sua determinação em nos impor sua verdadeira intenção e que só uma reação exemplar, inquestionavelmente clara, poderia ser capaz de sinalizar que não há espaço para essas aventuras socializantes no Brasil.

Não há como não lembrar nesse momento de inúmeras lições que a história da humanidade nos legou, de que a apatia, a covardia, de hoje, será paga com muito sofrimento no amanhã. Li, certa feita, em livro que descrevia os horrores do holocausto judaico na segunda grande guerra, que a falta de uma reação determinada da comunidade judaica, na época, teria sido decodificada como estímulo, como fonte de encorajamento, para os nazistas, no sentido de prosseguir e mesmo ampliar suas ações desumanas de perseguição e extermínio.

Há que se estar alerta. Há que se estar determinadamente disposto a dizer, de todas as formas, ao “politiburo” que hoje tenta redefinir os rumos da formação da nossa nacionalidade, de que não se atreva a nos considerar abúlicos, amorfos, desfibrados, porque não lhes permitiremos tentar impor à sociedade brasileira seus devaneios anacrônicos e ineficazes.

Deixo ao prezado leitor a questão que deve nos inquietar permanentemente. Estamos sendo submetidos a um processo conspiratório? Há intencionalidade nos descalabros que temos assistido, ou se trata de mera coincidência, decorrente do despreparo, da incompetência, daqueles que nos governam, hoje?”

Ao reeditar aquele artigo, reedito minha apreensão, agora potencializada pelo que possam significar os balões de ensaio que têm sido apresentados à sociedade nos últimos tempos. Merece igualmente que se agregue a necessidade de se buscar compreender a estratégia de avanços e recuos na construção desses documentos que se camaleoneiam em função do grau de rejeição que vão experimentando.

Qual o significado de se ter dado visibilidade a umas quantas versões do PNDH 3?

O que pretendem os condutores da campanha da candidata que, se eleita, dará continuidade a ocupação do poder na mais alta esfera do Estado, pelo grupo político-partidário que por dois mandatos o tem feito, ao submeter à população versões de seu “programa de governo”, que se sucedem com conteúdos diferentes, sob alegações no mínimo risíveis de que não haviam sido adequadamente concluídas, ou que apenas se as havia rubricado, etc, etc, etc...?

O que deve esperar a nação brasileira, caso esse novo grupo assuma os destinos do país. Digo novo, porque agora serão os ventrílocos os ocupantes do poder?

Entendo como pertinente, nesse contexto, ao reeditar meu artigo e minhas apreensões, reeditar igualmente ao prezado leitor aqueles mesmos questionamentos de anos atrás.

O senhor vai, passivamente, assitir o desenrolar dos acontecimentos, transferindo para outros o papel de protagonistas da história, aceitando a condição de coadjuvante, ou, até mesmo de assistente a quem está reservado, unicamente, a possibilidade de rir, chorar, aplaudir ou vaiar, sem capacidade para participar na elaboração do conteúdo da peça?

O senhor vai admitir que se continue experimentando a construção da história da nação, segundo a estratégia da ratoeira, com a população, particularmente a mais humilde, a mais necessitada e por isso mesmo a mais suscetível de manipulação, sendo enganada como ratos, com o engodo do recebimento gratuito de mínimos pedacinhos de queijo, sem se dar conta de que, ao petiscá-los findarão por serem aprisionados?

Se Gransci tem servido de inspiração para os que pretendem impor ao Brasil uma realidade que afronta os valores, que a nação sedimentou no tempo, de repúdio a qualquer tentativa de acordeirar seu povo, é indispensável, para os que não admitirão abrir mão dessas conquistas da nacionalidade brasileira consolidadas ao longo de sua formação histórica, conhecer e compreender suas proposições, de forma a serem capazes de identificar e rechaçar com contundência as tentativas de delas se valerem para destruir os instrumentos nos quais a sociedade civil organizada se apóiae para se manter imune aos assaltos à sua soberania.

Última modificação em Segunda, 10 Março 2014 20:30
Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP.

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