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22 Ago 2004

Ignorância Ensinada

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É necessário saber que muitas de nossas dificuldades cívicas decorrem desse vício que se propaga quando depreciamos, por mentiras e gracejos, nossa raiz lusitana

''Tinha preconceitos sobre Blair porque tudo o que eu sabia sobre ele tinha lido na imprensa brasileira".
Essa foi uma das gafes cometidas por Lula quando visitou a Inglaterra em julho de 2003 (noutra ele prognosticou, dirigindo-se a Blair, que ''daqui a dois anos, você nem vai estar aqui para o próximo encontro'').

Lula tem viajado muito pelo mundo. E ido pouco a Portugal, país que talvez ocupe a mesma gaveta de preconceitos e insuficiente informação onde estava a figura do primeiro-ministro britânico. Nesse caso, o fenômeno será compartilhado por um sem número de brasileiros, cidadãos de um país que cultiva o desapreço por suas origens. Agora, em louvável mudança de rumos, o presidente decidiu investir na auto-estima nacional. Pois convém saber, então, que muitas de nossas dificuldades cívicas decorrem desse vício que se propaga quando depreciamos, por mentiras e gracejos, nossa raiz lusitana, ou quando nos ensinam que o Brasil foi descoberto nos azares de uma calmaria, como se resultássemos de um furo no preservativo do destino.

Pimeiro estado nacional moderno com a revolução do Mestre de Avis (1385), confinado entre os mouros, o oceano e Castela, o pequenino Portugal, a quem “Netuno e Marte obedeceram”, sonhou com expandir - nessa ordem - “a Fé e o Império”. Criou a Escola de Sagres, projetou e construiu as embarcações de que precisaria e se lançou a “mares nunca dantes navegados”, numa empreitada que logo seria seguida pelos espanhóis. Desbravou a costa ocidental da África, o caminho das Índias, o Brasil, dividiu o planeta ao meio e retirou o eixo da História das mãos dos francos e germanos.

Portugal entendia sua missão no Brasil como “povoamento”. Para essa imensa tarefa, dificultada pela escassa população do reino, mandou o que podia e não podia: criminosos e presos políticos, homens de empresa, religiosos do mais alto nível, membros da corte (que nos apresentam como um bando de “degredados”). O Brasil, que estudamos como explorada “colônia”, nunca teve esse tratamento no vocabulário e nas leis portuguesas. Quem aqui nascia, desde 1605, era cidadão de um reino cujo coração batia cada vez mais forte no Brasil. Por fim, o sonho de Martim Afonso, D. João IV e Luís da Cunha: uma coroa européia fora da Europa (que nos contam como o “episódio da fuga”) e o depreciado Reino Unido, tão insuficientemente explicado e valorizado em nossas aulas de História.

Pedro I, proclamando a Independência segundo conselho do próprio pai (“antes para ti que para algum desses aventureiros”) e Pedro II, deposto e exilado, levando consigo terra do Brasil para nela “repousar a cabeça”, são fatos a demonstrar que nunca houve na história universal uma relação como a de Portugal com o Brasil - a maior nação católica, mestiça e ibérica do planeta. Impossível amar o Brasil sem amar Portugal. Digam isso ao presidente.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:16
Percival Puggina

O Prof. Percival Puggina formou-se em arquitetura pela UFRGS em 1968 e atuou durante 17 anos como técnico e coordenador de projetos do grupo Montreal Engenharia e da Internacional de Engenharia AS. Em 1985 começou a se dedicar a atividades políticas. Preocupado com questões doutrinárias, criou e preside, desde 1996, a Fundação Tarso Dutra de Estudos Políticos e Administração Pública, órgão do PP/RS. Faz parte do diretório metropolitano do partido, de cuja executiva é 1º Vice-presidente, e é membro do diretório e da executiva estadual do PP e integra o diretório nacional.

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