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22 Ago 2004

Incompetência ou Morte

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Aconchegado na ignorância e embevecido pela irracionalidade, uma enorme parcela do povo brasileiro parece considerar natural que a demagogia ocupe o espaço que deveria corresponder à sensatez e aplaude de pé qualquer medida de caráter revanchista contra os Estados Unidos

Quase todas as opiniões que já tive a infelicidade de ouvir a respeito do fichamento dos norte-americanos nos aeroportos brasileiros envolvem,direta ou indiretamente, a psicopatologia do subdesenvolvimento romântico: nós somos os coitadinhos, os explorados, os dominados; somos os escravos e a potência do Norte representa o amo e senhor; somos os torturados de Traven, atados pelos polegares dos pés aos altos galhos do capitalismo internacional (i.e., os Estados Unidos!) que suga os nossos recursos naturais e destrói as nossas raízes culturais mais profundas, já que o único interesse dos desumanos vilões do capital é que sejamos reduzidos a uma massa de consumidores e que nos tornemos insensíveis à sublime dimensão espiritual do ser humano...

Que toda a lenga-lenga do parágrafo anterior não passe de uma palhaçada descomunal que não resiste a dez minutos de crítica racional é totalmente irrelevante. Os dados empíricos são sistematicamente omitidos(ou maliciosamente alterados) e a coerência lógica é intencionalmente ignorada pela desonesta fauna intelectual brasileira que faz de tudo para satisfazer ao desejo mórbido que o povo tem de representar o papel de vítima da opressão imperialista. Se o objetivo é formar uma multidão de idiotas, meus parabéns! Estão conseguindo ótimos resultados!As questões técnicas não têm, portanto, importância.

O que interessa é que qualquer criancice, quero dizer, qualquer medida que imponha humilhações a cidadãos norte-americanos é vista como um exemplo de resistência heróica contra a dominação covarde imposta pelos cruentos ianques e seu expansionismo sanguinário. Esse ódio exacerbado tem um peso considerável na constituição do imaginário nacional, o que põe em evidência que a pior faceta do nosso subdesenvolvimento é a intelectual.

Parece que o problema central, afinal de contas, não é a burrice: é o desejo que as pessoas têm de permanecerem burras, aninhadas no conforto diabólico que a ignorância lhes proporciona.Ora, mas por acaso a "discriminação" preconceituosa praticada pelas autoridades estadunidenses contra os simpáticos turistas brasileiros é correta? Por que os cidadãos de somente alguns países são fichados ao entrarem nos Estados Unidos? A regra não deveria valer "democraticamente" para todos?Não pretendo entrar, pelo menos por enquanto, na questão do que o brasileiro entende por democracia.

Mas será que a suposta discriminação que estamos "sofrendo" é preconceituosa? Ora, depois dos discursos do Señor Presidente na ilha-cárcere de Fidel, do respaldo trapaceiro ao regime de Chávez na Venezuela, do passeio inocente pelos países do Oriente Médio (com direito a apoio descarado a ditadores assassinos) e da infeliz tomada de partido no futuro processo eleitoral uruguaio, alguém ainda esperava diferente? Desde o início do seu governo, o Presidente brasileiro têm se empenhado na formação de um bloco de miseráveis para opor-se abertamente aos interesses de Washington. Os rumos que o Brasil tem tomado, especialmente na política externa, dificultam o estabelecimento de uma relação de confiança com os Estados Unidos.Há uma diferença enorme entre "negociação" e "intransigência".

Apelar para o revanchismo infantil através da adoção de medidas que não têm sustento em nenhum interesse consistente, ou seja, criar transtornos pelo simples prazer de criar transtornos, tem como triste conseqüência a corroboração de que muitas autoridades brasileiras estão carimbando na própria testa o mais novo slogan do terceiro-mundismo tupiniquim: "incompetência ou morte."

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:17
Claudio A. Téllez

Claudio Andrés Téllez é cidadão chileno, mas mora no Brasil desde 1979. Cursou o Bacharelado em Matemática Aplicada na PUC-Rio e atualmente está cursando Relações Internacionais no Centro Universitário da Cidade (Rio de Janeiro). Escreve no Mídia Sem Máscara desde setembro de 2003.

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