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22 Ago 2004

Intimidades? Só Para Íntimos!

Escrito por 

“Ele continua um tolo, falando bobagens”- Senador Arthur Virgílio PSDB-AM

Finalmente, chegou a hora da tão esperada peleja da Seleção Penta com a Seleção do Haiti. Lulinha Paz e Amor tinha pedido a rapaziada para não humilhar o adversário com mais de 9 a 0, mas também não deixar de fazer uns golzinhos para o delírio da galera haitiana. Uns 6 a 0 já estavam de bom tamanho. Mas tinha que ter gols dos dois Ronaldos, não só para agradar a platéia local, mas também cariocas e gaúchos em geral. Afinal de contas a despesa para a realização do grande “jogo da paz” foi da ordem de R$1.000.000, 00, que não é coisa de se jogar fora nem na Suiça. Daria para alimentar muitas bocas no programa Fome Zero.

Ao contrário do que previra a ABIN, não houve nenhuma manifestação agressiva que tivesse posto em risco a integridade física do Presidente, a não ser a agressiva canícula de mais de 40 graus à sombra. Quanto à integridade moral do mesmo, isto não é da competência da Agência Brasileira de Inteligência, e até hoje não foi inventado nenhum serviço de segurança capaz de garantir a integridade moral de um puderoso, principalmente quando a ameaça à mesma não vem de fora. [obs.¨”puderoso” é quem detém “U Puder”].Mas já que iria fazer uma visita ao Haiti, por que não dar uma passadinha ali na República Dominicana, que está logo ao lado?

E foi justamente na segunda-feira passada em Santo Domingo que Lulinha Paz e Amor – dirigindo-se  aos jornalistas que estavam fazendo a cobertura de mais de uma de suas viagens -  brindou-nos com mais uma de suas  pérolas literárias: "Vocês são um bando de covardes mesmo, hein? Vocês não tiveram coragem de defender o Conselho Nacional de Jornalista".

Apesar da expressão um tanto canhestra mas assaz sintomática, referia-se ao CFJ (Conselho Federal de Jornalismo). Talvez o leitor consiga, mas eu confesso que não consigo entender a razão de ser de se chamar de “covarde” um indivíduo que, embora insistentemente estimulado por outro, se recusou veementemente a dar um tiro no próprio pé. Se isto é covardia, então minha avó é bicicleta (Em termos técnicos da Lógica: De uma particular incongruência pode-se deduzir qualquer outra).  Mas, seja como for, a coisa pegou muito mal na opinião pública e apareceu rapidamente a patota dos hermeneutas de plantão, o pessoal do “não era bem isso que ele queria dizer”, vetusta tradição na República dos Coitadinhos.

Um dos membros dessa confraria chegou mesmo a declarar: “O Presidente só estava brincando”. Brincando?! Eu não endosso esta exegese da fala presidencial,  pois me recuso a crer que ele seja tão despreparado assim para ocupar o cargo que ocupa. Supondo, no entanto, que ele estivesse mesmo brincando, estaria abrindo um perigosíssimo precedente, pois quem brinca com a honra alheia não pode reclamar de que brinquem com a sua. (Respeito é muito bom, mas é uma via de duas mãos, caso contrário passa a se chamar “temor reverencial”). Por exemplo: um jornalista mais desinibido poderia abordar o Supremo Mandatário nos seguintes termos: “Como é que é, Lula, já encheu de novo a cara de cachaça?”.

E se ele sentisse fortemente ofendido – como se tivesse sido chamado de “covarde” -  bastaria o suposto ofensor aduzir o providencial adendo: “Que é isso, companheiro?!  Eu só estava brincando...” Já pensou se a moda pega?

Ah! Deve ser o caso daquele tal de “insulto carinhoso” que é como Justiça do Trabalho e jabuticaba: coisas que só existem no Brasil. Por exemplo: Você está andando muito bem pela rua quando, de repente, leva um tapão pelas costas, quase dá um beijo no asfalto e ainda tem de ouvir esta: “Pô! Há quanto tempo que eu não te via, seu viado!”. Noutro contexto, chamar alguém de “viado” ou “boiola” poderia ser considerado ofensa, mas no contexto em que se insere a fala acima não se trata disso: é apenas um velho amigo expressando seu grande contentamento em rever outro após muito tempo. Como tudo tem, isto tem um pressuposto: o de que o autor do tapão e da fala e o objeto de seus dois atos aparentemente agressivos são amigões de longa data, pois, caso contrário, haveria o sério risco de o abalroado não apreciar tal modo de expressão “carinhosa” e partir direto para a bolacha.

Todavia, creio que o relacionamento de alguém investido do cargo de Presidente da República e os membros da mídia  deve ser uma relação formal de caráter estritamente profissional e, se possível, marcada pela cortesia e pelos bons modos - coisa que não comporta intimidades de nenhuma natureza, principalmente  sexual. Ah! Isto me faz lembrar daquela jornalista que estava entrevistando o insaudoso Presidente Jânio Quadros. A moçoila não parava de se dirigir ao Supremo Mandatário da Nação tratando-o de ‘você’. Lá para as tantas, não deu mais para segurar: “Minha prezada senhorita, ‘você’ só gera intimidade e filhos, e eu não pretendo tê-la nem tê-los consigo”.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:17
Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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