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04 Dez 2008

Perene e Ingênuo

Escrito por 

Em Elite de Assassinos (The Killer Elite, 1975) dirigido por Sam Peckinpah, assassinos profissionais são contratados para proteger político japonês ameaçado de morte. Como do lado oposto havia um antigo colega e desafeto do mercenário-protagonista, o trabalho serviria como pretexto para um acerto de contas.

 

(The Killer Elite)
 Em Elite de Assassinos (The Killer Elite, 1975) dirigido por Sam Peckinpah, assassinos profissionais são contratados para proteger político japonês ameaçado de morte. Como do lado oposto havia um antigo colega e desafeto do mercenário-protagonista, o trabalho serviria como pretexto para um acerto de contas. A certa altura, Mac (Burt Young) diz a seu comparsa Mike (James Caan) que de tão envolvido na operação, ele já não sabe mais quem é o vilão da história. Que, na realidade, nenhum sistema vale a pena, que enquanto discutem sobre “liberdade e progresso”, a vida dos civis não é levada na devida conta. Então, num arroubo realista, Mike responde:
 
- O vilão é todo mundo que tenta me machucar.

É um filme de ação interessante, pleno de diálogos com “crise de consciência”. E, muito embora seu protagonista tenha alguma razão, não se sujeita fazer qualquer trabalho por dinheiro. Tem lá sua ética... Se o vilão é quem tenta machucá-lo, ele escolhe quem quer beneficiar. É o “bom bandido”, que só existe porque tem seu oposto, o vilão vilão mesmo, George Hansen, interpretado por
Robert Duvall. Este, literalmente, não está nem aí para quaisquer considerações de ordem moral. É apenas um mercenário puro e livre no exercício de sua profissão.

Melhor do que o filme em si é interpretar o tipo de padrão que orientava o argumento das produções hollywoodianas nos anos 70. Mesmo em uma situação nebulosa, assassino contra assassino, mercenário contra mercenário se tornava possível distinguir um ‘bem’ de um ‘mal’ que, se não absolutos, existem com certo critério. A primeira vista, com olhar assumidamente anacrônico, é de surpreender a ingenuidade daquela época.
 
(Man of the Year)

Ingênuo? Então, que tal isto... Candidato Aloprado (
Man of the Year, 2006), dirigido por BarryLevinson narra história de um apresentador de talk show que chega à presidência dos EUA. Além de me ser particularmente difícil assistir um filme protagonizado pelo intragável Robin Williams, seu personagem Tom Dobbs faz um discurso, hipocritamente açucarado, no qual critica o financiamento de campanhas eleitorais e seu comprometimento com lobbistas. Preocupações como saúde, educação e meio ambiente seriam postas em segundo plano frente aos compromissos com companhias petrolíferas, químicas e farmacêuticas. Não deveriam existir “estados Democratas” ou “estados Republicanos”, mas só os Estados Unidos etc e etc.

A diferença entre os argumentos adotados pelos personagens é que, embora o filme sobre os mercenários admita que os conflitos sejam perenes, resoluções imperfeitas, mas viáveis não só são possíveis, como desejáveis. O ônus é delegado, em última instância, somente ao indivíduo em busca de soluções aos seus dilemas. No filme com Williams, o indivíduo também escolhe, mas basicamente porque a harmonia é certa e o conflito aparenta um “erro de percurso”. Para o presidente Dobbs, conflitos são acidentais e o bom senso deve nos guiar. O mal é plenamente identificável, as empresas que almejam lucros. Como se milhões de famílias atendidas e empregadas nessas estruturas produtivas fossem simples vítimas e não cúmplices ou beneficiárias de tudo que se faz.
 
Sem dúvida que o financiamento sugere compromisso, mas será que sua diversidade não permite certa autonomia para contemplar interesses, por vezes, díspares? Se uma campanha for financiada por setores agrícolas e industriais, o governo eleito teria que se equilibrar entre decidir manter subsídios aos produtores de milho, no caso do etanol americano, bem como fornecer matéria-prima barata às plantas industriais, o que poderia contradizer o compromisso anterior. Se tratasse de uma eleição na qual, os protagonistas Mike, o mercenário e Tom, o presidente estivessem em disputa em quem você votaria? Naquele que considera haver critério para definir quem está contra nós, o vilão, ou quem acha que podemos nos harmonizar sem conflito de interesses?
 
Dito de outra forma: você votaria em um mercenário com crise de consciência ou um apresentador ingênuo? Em um realista ou um pacifista? Ou ainda, em um isolacionista ou um neocon?
 
Se o critério para votarmos no personagem de Robin Williams for o “bem maior”, como é o caso da saúde, como poderíamos ir contra companhias farmacêuticas, cujos impostos cobrados mantêm o orçamento da união? Como tributarmos grandes fortunas, como propõe Barack Obama,[1] sem prejuízo aos indivíduos que se formarão na educação pública e trabalharão para estas empresas? É muito fácil quando a causa dos problemas é externalizada, quando não se assume uma réstia de responsabilidade individual.

E vejam como é possível empurrar idéias com germens totalitários como se fossem o supra-sumo do bom-mocismo: “só há um Estados Unidos...” No limite, o argumento presidencial do personagem de Man of the Year é antidemocrático. Não ocorreu ao roteirista perguntar que os estados se dividem por suas representações políticas, que estas refletem os diversos e, por vezes, divergentes interesses de civis e estados. É fácil criticar uma vaga e nebulosa entidade como os “estados” ou os “lobbistas” ou, pior ainda, o “sistema” quando esquecemos que quem demanda pelos estados, lobbies e compõem um sistema são indivíduos que pensam, agem e votam em representantes. Culpar uma abstração não passa de tentar nos eximir de nossa concreta cota de responsabilidade.
 



[1] Embora McCain se
opusesse a este tipo de tributo passou a defender o contrário após o estouro da atual crise.

 

 

(The Killer Elite)
 Em Elite de Assassinos (The Killer Elite, 1975) dirigido por Sam Peckinpah, assassinos profissionais são contratados para proteger político japonês ameaçado de morte. Como do lado oposto havia um antigo colega e desafeto do mercenário-protagonista, o trabalho serviria como pretexto para um acerto de contas. A certa altura, Mac (Burt Young) diz a seu comparsa Mike (James Caan) que de tão envolvido na operação, ele já não sabe mais quem é o vilão da história. Que, na realidade, nenhum sistema vale a pena, que enquanto discutem sobre “liberdade e progresso”, a vida dos civis não é levada na devida conta. Então, num arroubo realista, Mike responde:
 
- O vilão é todo mundo que tenta me machucar.

É um filme de ação interessante, pleno de diálogos com “crise de consciência”. E, muito embora seu protagonista tenha alguma razão, não se sujeita fazer qualquer trabalho por dinheiro. Tem lá sua ética... Se o vilão é quem tenta machucá-lo, ele escolhe quem quer beneficiar. É o “bom bandido”, que só existe porque tem seu oposto, o vilão vilão mesmo, George Hansen, interpretado por
Robert Duvall. Este, literalmente, não está nem aí para quaisquer considerações de ordem moral. É apenas um mercenário puro e livre no exercício de sua profissão.

Melhor do que o filme em si é interpretar o tipo de padrão que orientava o argumento das produções hollywoodianas nos anos 70. Mesmo em uma situação nebulosa, assassino contra assassino, mercenário contra mercenário se tornava possível distinguir um ‘bem’ de um ‘mal’ que, se não absolutos, existem com certo critério. A primeira vista, com olhar assumidamente anacrônico, é de surpreender a ingenuidade daquela época.
 
(Man of the Year)

Ingênuo? Então, que tal isto... Candidato Aloprado (
Man of the Year, 2006), dirigido por BarryLevinson narra história de um apresentador de talk show que chega à presidência dos EUA. Além de me ser particularmente difícil assistir um filme protagonizado pelo intragável Robin Williams, seu personagem Tom Dobbs faz um discurso, hipocritamente açucarado, no qual critica o financiamento de campanhas eleitorais e seu comprometimento com lobbistas. Preocupações como saúde, educação e meio ambiente seriam postas em segundo plano frente aos compromissos com companhias petrolíferas, químicas e farmacêuticas. Não deveriam existir “estados Democratas” ou “estados Republicanos”, mas só os Estados Unidos etc e etc.

A diferença entre os argumentos adotados pelos personagens é que, embora o filme sobre os mercenários admita que os conflitos sejam perenes, resoluções imperfeitas, mas viáveis não só são possíveis, como desejáveis. O ônus é delegado, em última instância, somente ao indivíduo em busca de soluções aos seus dilemas. No filme com Williams, o indivíduo também escolhe, mas basicamente porque a harmonia é certa e o conflito aparenta um “erro de percurso”. Para o presidente Dobbs, conflitos são acidentais e o bom senso deve nos guiar. O mal é plenamente identificável, as empresas que almejam lucros. Como se milhões de famílias atendidas e empregadas nessas estruturas produtivas fossem simples vítimas e não cúmplices ou beneficiárias de tudo que se faz.
 
Sem dúvida que o financiamento sugere compromisso, mas será que sua diversidade não permite certa autonomia para contemplar interesses, por vezes, díspares? Se uma campanha for financiada por setores agrícolas e industriais, o governo eleito teria que se equilibrar entre decidir manter subsídios aos produtores de milho, no caso do etanol americano, bem como fornecer matéria-prima barata às plantas industriais, o que poderia contradizer o compromisso anterior. Se tratasse de uma eleição na qual, os protagonistas Mike, o mercenário e Tom, o presidente estivessem em disputa em quem você votaria? Naquele que considera haver critério para definir quem está contra nós, o vilão, ou quem acha que podemos nos harmonizar sem conflito de interesses?
 
Dito de outra forma: você votaria em um mercenário com crise de consciência ou um apresentador ingênuo? Em um realista ou um pacifista? Ou ainda, em um isolacionista ou um neocon?
 
Se o critério para votarmos no personagem de Robin Williams for o “bem maior”, como é o caso da saúde, como poderíamos ir contra companhias farmacêuticas, cujos impostos cobrados mantêm o orçamento da união? Como tributarmos grandes fortunas, como propõe Barack Obama,[1] sem prejuízo aos indivíduos que se formarão na educação pública e trabalharão para estas empresas? É muito fácil quando a causa dos problemas é externalizada, quando não se assume uma réstia de responsabilidade individual.

E vejam como é possível empurrar idéias com germens totalitários como se fossem o supra-sumo do bom-mocismo: “só há um Estados Unidos...” No limite, o argumento presidencial do personagem de Man of the Year é antidemocrático. Não ocorreu ao roteirista perguntar que os estados se dividem por suas representações políticas, que estas refletem os diversos e, por vezes, divergentes interesses de civis e estados. É fácil criticar uma vaga e nebulosa entidade como os “estados” ou os “lobbistas” ou, pior ainda, o “sistema” quando esquecemos que quem demanda pelos estados, lobbies e compõem um sistema são indivíduos que pensam, agem e votam em representantes. Culpar uma abstração não passa de tentar nos eximir de nossa concreta cota de responsabilidade.
 



[1] Embora McCain se
opusesse a este tipo de tributo passou a defender o contrário após o estouro da atual crise.

 

Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

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