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03 Dez 2008

O Problema do Mal

Escrito por 

Uma manifestação destrutiva do mal moral associado ao Estado é a crise econômica, especialmente esta que agora se manifestou.

“Não te deixeis vencer pelo mal; vence antes o mal com o bem” São Paulo, Carta aos Romanos, 12;21

Quando vi as primeiras imagens do desastre de Santa Catarina, com a cheia levando casas, árvores e vidas, deixando um rastro de destruição atrás de si, não pude escapar de me emocionar e pensar na manifestação do mal no mundo. Sim, impõe-se a primeira pergunta: o que é o mal? Entendo que é tudo aquilo que prejudica o homem e o desvia de sua jornada, que encurta artificialmente sua existência e lhe impõe sofrimentos perfeitamente evitáveis em situações normais. Morrer em si não é mal, mal é morrer fora de época, de forma violenta, como vimos acontecer a mais de uma centena de pessoas em Santa Catarina.

Esse é o mal natural, que desde o Iluminismo o Ocidente passou a associá-los a simples causas naturais, saindo de qualquer explicação teológica. Claro, se a metafísica é desacreditada como um todo não haveria de ser o elemento maligno transcendente a prevalecer. Aqui se impõe novamente outra pergunta: o mal é apenas humano ou tem uma raiz transcendente? Essa pergunta atravessa os milênios. Se quisermos ser fiéis aos textos bíblicos temos que admitir uma certa autonomia do mal. O Livro de Jó é categórico, nomina Satanás na presença de Deus, que dele recebe autorização para tentar seu servo mais fiel, a quem inflige as maiores provações.

O próprio Jesus Cristo recebe as tentações diretamente de Satã. Então não é possível descartar o elemento transcendente e relativamente autônomo da ação do mal, como testemunhado pelo próprio Salvador. Na oração do Pai Nosso Jesus não esqueceu de rogar ao Pai: “Mas livrai-nos do mal”.

Na visão humanista do mal este é apenas produto da condição humana e de causas naturais perfeitamente inteligível pela razão. Já na visão cristã é sempre o Tentador que está presente. Equivale a dizer que o mal depende da ação humana para acontecer na história. Seu acesso se dá pela soberba do homem. A Queda de Adão é esse primeiro ato de soberba e lá estava a serpente tentadora representando Satanás. Então se pode dizer que para acontecer o mal no mundo é necessário o concurso do homem e desse elemento metafísico a quem chamamos de Satanás. O livre-arbítrio e o pecado estão na raiz da manifestação do mal. São a sua porta de entrada na história.

As obras de arte mais significativas do Ocidente abraçam essa visão dualista. Em Goethe, Fausto tem o assédio de Mefistófeles, que usa de sua ambição para levá-lo ao delírio de grandeza, que é a maior de todas as metáforas da modernidade. Em Dante vemos o mesmo simbolismo, ainda com forte roupagem medieval. Primeiro o poeta se confronta no caminho descendente, ameaçado pela loba e para salvar-se (notar esta palavra) tem que se embrenhar na mata escura que o leva direto ao Inferno.

Thomas Mann o faz da mesma forma. Adrian Leverkühn precisa antes firmar seu pacto com o demônio para realizar seu delírio de grandeza, que é o mesmo da Alemanha, e intercala o relato de ficção com o relato historio e, assim, construindo a mais sensacional crônica dos tempos nazistas. Os filmes de Kubrick, o grande cronista da alma no cinema, retrata o mal nascendo da transcendência. Sublinho especialmente os filmes O ILUMINADO e DE OLHOS BEM FECHADOS. O homem decide pelo livre arbítrio, mas o faz em uma ambiente hostil, pleno de tentações. Precisa sempre firmar um pacto, vender-se livremente.

Expressões estéticas puras do mal estão em Nietzsche (Zaratustra é outro nome para Mefistófeles), em Walt Whitman e em Van Gogh. Esse trio produz, com sua obra, a profecia do que viria no século XX.

Mesmo em obras mais antiga, pagãs, como ÉDIPO REI, de Sófocles, vemos essa ação exterior à vontade do homem nos acontecimentos capitais de sua própria existência. Freud cometeu um enorme erro de avaliação ao centrar sua exegese dessa obra no intercurso sexual incestuoso, realizado à revelia da vontade e mesmo do desejo enquanto tal. Se desposou Jocasta foi mais por razões de Estado do que motivado pela libido. Fugia do próprio mal que não queria praticar e acabou por ir encontrar-se com ele. Entendo que o essencial dessa tragédia acontece no caminho que se trifurca, um símbolo poderoso: ao homem é dada a possibilidade de escolher. E veremos já aqui na Grécia do século V a soberba de Édipo como o elemento essencial para determinar o assassinato do pai. Tivesse Édipo alguma humildade e a comitiva de Laio teria seguido seu caminho sem incidentes no ponto trifurcado. O motor da trama genial de Sófocles nada tem a ver com sexo, mas com soberba. E o intercurso incestuoso vem como castigo, não como algo desejado. É um espanto que toda uma psicologia tenha sido construída em cima de uma interpretação equívoca desta peça.

Sófocles pôs na boca do coro:

“Terrível presenciar o teu sofrer!
De tudo que vi o mais terrível!
Que delírio, infeliz, te atropelou?
Qual deus demônio, de um salto só,
Ultrapassa uma distância máxima,
Impondo os pés sobre tua moira demoníaca?”

As perguntas em verso ecoam agora com a mesma força que ecoaram aos contemporâneos gregos do século V. Diante do mal o homem fica mudo, aterrorizado, entregue como uma folha ao vento. Salvar-se é escapar ao maligno e essa é uma tarefa de Deus-Pai Todo Poderoso. Esse é o mistério da encarnação de Cristo.

E tem também o mal moral, que se desdobra no mal político. Vimos os acontecimentos recentes na Índia, chocantes. O mal lógico em ação. Gratuito, estúpido, irracional. Como entender? O que houve na Índia é da mesma natureza do 11 de Setembro. Da mesma natureza de Hitler. Esse mal moral está hoje potenciado pelo enorme poder de Estado. Se olharmos toda a força militar e policial estocada veremos que é uma tentativa desesperada de a humanidade dar combate ao mal. No entanto, quase sempre esse poder se volta contra os inocentes, especialmente quando governantes estúpidos estão no comando do Estado. Esse é o maior perigo que paira sobre a humanidade. Os alvos das bombas e projéteis de todos os calibres são sempre homens.

Uma manifestação destrutiva do mal moral associado ao Estado é a crise econômica, especialmente esta que agora se manifestou. Com os estúpidos governando o mal tende a cresce e a produzir sacrifícios inúteis e prolongados. A crise econômica é uma das novidades dos tempos modernos, em que a soberba do homem é elevada à razão de Estado.

O papa João Paulo II deu uma resposta para o mal lógico do século XX, as Grandes Guerras, Auschiwitz e acontecimentos assemelhados, no livro MEMÓRIA E IDENTIDADE. Sempre volto a ele e vejo novas perspectivas. O papa foi um grande pedagogo. E aqui ele sublinhou que o mal está na soberba do homem, no amor sui que substitui o amor a Deus sobre todas as coisas. As tragédias do século passado foram gigantes porque o homem nunca foi tão arrogante e cioso de si mesmo. Temo que essa arrogância aumentou desde então, que a humanidade nada aprendeu com aquelas grandes tragédias. Assim, o mal poderá voltar a operar livremente, utilizando-se especialmente da alma desgarrada dos governantes estúpidos. Nunca foi tão atual e necessário o conselho de Cristo: Orai e vigiai.

“Não te deixeis vencer pelo mal; vence antes o mal com o bem” São Paulo, Carta aos Romanos, 12;21

Quando vi as primeiras imagens do desastre de Santa Catarina, com a cheia levando casas, árvores e vidas, deixando um rastro de destruição atrás de si, não pude escapar de me emocionar e pensar na manifestação do mal no mundo. Sim, impõe-se a primeira pergunta: o que é o mal? Entendo que é tudo aquilo que prejudica o homem e o desvia de sua jornada, que encurta artificialmente sua existência e lhe impõe sofrimentos perfeitamente evitáveis em situações normais. Morrer em si não é mal, mal é morrer fora de época, de forma violenta, como vimos acontecer a mais de uma centena de pessoas em Santa Catarina.

Esse é o mal natural, que desde o Iluminismo o Ocidente passou a associá-los a simples causas naturais, saindo de qualquer explicação teológica. Claro, se a metafísica é desacreditada como um todo não haveria de ser o elemento maligno transcendente a prevalecer. Aqui se impõe novamente outra pergunta: o mal é apenas humano ou tem uma raiz transcendente? Essa pergunta atravessa os milênios. Se quisermos ser fiéis aos textos bíblicos temos que admitir uma certa autonomia do mal. O Livro de Jó é categórico, nomina Satanás na presença de Deus, que dele recebe autorização para tentar seu servo mais fiel, a quem inflige as maiores provações.

O próprio Jesus Cristo recebe as tentações diretamente de Satã. Então não é possível descartar o elemento transcendente e relativamente autônomo da ação do mal, como testemunhado pelo próprio Salvador. Na oração do Pai Nosso Jesus não esqueceu de rogar ao Pai: “Mas livrai-nos do mal”.

Na visão humanista do mal este é apenas produto da condição humana e de causas naturais perfeitamente inteligível pela razão. Já na visão cristã é sempre o Tentador que está presente. Equivale a dizer que o mal depende da ação humana para acontecer na história. Seu acesso se dá pela soberba do homem. A Queda de Adão é esse primeiro ato de soberba e lá estava a serpente tentadora representando Satanás. Então se pode dizer que para acontecer o mal no mundo é necessário o concurso do homem e desse elemento metafísico a quem chamamos de Satanás. O livre-arbítrio e o pecado estão na raiz da manifestação do mal. São a sua porta de entrada na história.

As obras de arte mais significativas do Ocidente abraçam essa visão dualista. Em Goethe, Fausto tem o assédio de Mefistófeles, que usa de sua ambição para levá-lo ao delírio de grandeza, que é a maior de todas as metáforas da modernidade. Em Dante vemos o mesmo simbolismo, ainda com forte roupagem medieval. Primeiro o poeta se confronta no caminho descendente, ameaçado pela loba e para salvar-se (notar esta palavra) tem que se embrenhar na mata escura que o leva direto ao Inferno.

Thomas Mann o faz da mesma forma. Adrian Leverkühn precisa antes firmar seu pacto com o demônio para realizar seu delírio de grandeza, que é o mesmo da Alemanha, e intercala o relato de ficção com o relato historio e, assim, construindo a mais sensacional crônica dos tempos nazistas. Os filmes de Kubrick, o grande cronista da alma no cinema, retrata o mal nascendo da transcendência. Sublinho especialmente os filmes O ILUMINADO e DE OLHOS BEM FECHADOS. O homem decide pelo livre arbítrio, mas o faz em uma ambiente hostil, pleno de tentações. Precisa sempre firmar um pacto, vender-se livremente.

Expressões estéticas puras do mal estão em Nietzsche (Zaratustra é outro nome para Mefistófeles), em Walt Whitman e em Van Gogh. Esse trio produz, com sua obra, a profecia do que viria no século XX.

Mesmo em obras mais antiga, pagãs, como ÉDIPO REI, de Sófocles, vemos essa ação exterior à vontade do homem nos acontecimentos capitais de sua própria existência. Freud cometeu um enorme erro de avaliação ao centrar sua exegese dessa obra no intercurso sexual incestuoso, realizado à revelia da vontade e mesmo do desejo enquanto tal. Se desposou Jocasta foi mais por razões de Estado do que motivado pela libido. Fugia do próprio mal que não queria praticar e acabou por ir encontrar-se com ele. Entendo que o essencial dessa tragédia acontece no caminho que se trifurca, um símbolo poderoso: ao homem é dada a possibilidade de escolher. E veremos já aqui na Grécia do século V a soberba de Édipo como o elemento essencial para determinar o assassinato do pai. Tivesse Édipo alguma humildade e a comitiva de Laio teria seguido seu caminho sem incidentes no ponto trifurcado. O motor da trama genial de Sófocles nada tem a ver com sexo, mas com soberba. E o intercurso incestuoso vem como castigo, não como algo desejado. É um espanto que toda uma psicologia tenha sido construída em cima de uma interpretação equívoca desta peça.

Sófocles pôs na boca do coro:

“Terrível presenciar o teu sofrer!
De tudo que vi o mais terrível!
Que delírio, infeliz, te atropelou?
Qual deus demônio, de um salto só,
Ultrapassa uma distância máxima,
Impondo os pés sobre tua moira demoníaca?”

As perguntas em verso ecoam agora com a mesma força que ecoaram aos contemporâneos gregos do século V. Diante do mal o homem fica mudo, aterrorizado, entregue como uma folha ao vento. Salvar-se é escapar ao maligno e essa é uma tarefa de Deus-Pai Todo Poderoso. Esse é o mistério da encarnação de Cristo.

E tem também o mal moral, que se desdobra no mal político. Vimos os acontecimentos recentes na Índia, chocantes. O mal lógico em ação. Gratuito, estúpido, irracional. Como entender? O que houve na Índia é da mesma natureza do 11 de Setembro. Da mesma natureza de Hitler. Esse mal moral está hoje potenciado pelo enorme poder de Estado. Se olharmos toda a força militar e policial estocada veremos que é uma tentativa desesperada de a humanidade dar combate ao mal. No entanto, quase sempre esse poder se volta contra os inocentes, especialmente quando governantes estúpidos estão no comando do Estado. Esse é o maior perigo que paira sobre a humanidade. Os alvos das bombas e projéteis de todos os calibres são sempre homens.

Uma manifestação destrutiva do mal moral associado ao Estado é a crise econômica, especialmente esta que agora se manifestou. Com os estúpidos governando o mal tende a cresce e a produzir sacrifícios inúteis e prolongados. A crise econômica é uma das novidades dos tempos modernos, em que a soberba do homem é elevada à razão de Estado.

O papa João Paulo II deu uma resposta para o mal lógico do século XX, as Grandes Guerras, Auschiwitz e acontecimentos assemelhados, no livro MEMÓRIA E IDENTIDADE. Sempre volto a ele e vejo novas perspectivas. O papa foi um grande pedagogo. E aqui ele sublinhou que o mal está na soberba do homem, no amor sui que substitui o amor a Deus sobre todas as coisas. As tragédias do século passado foram gigantes porque o homem nunca foi tão arrogante e cioso de si mesmo. Temo que essa arrogância aumentou desde então, que a humanidade nada aprendeu com aquelas grandes tragédias. Assim, o mal poderá voltar a operar livremente, utilizando-se especialmente da alma desgarrada dos governantes estúpidos. Nunca foi tão atual e necessário o conselho de Cristo: Orai e vigiai.

José Nivaldo Cordeiro

José Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas na FGV-SP. Cristão, liberal e democrata, acredita que o papel do Estado deve se cingir a garantia da ordem pública. Professa a idéia de que a liberdade, a riqueza e a prosperidade devem ser conquistadas mediante esforço pessoal, afastando coletivismos e a intervenção estatal nas vidas dos cidadãos.

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