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27 Ago 2008

Conhecimento de Causa é Conhecimento

Escrito por 

O desejo revolucionário no sistema de ensino não passa de uma incapacidade para pensar em reformas. Por que parte da utópica miopia de um mundo sem disciplina e sem moral.

 Em Por que a escola deve acabar, o autor se pergunta por que deve estudar os componentes da célula ou sobre movimento uniformemente variado. "Para que eu vou precisar disso na minha vida?" A questão não está colocada de modo correto. O que o autor deveria se perguntar é "por que não oferecer isto a uma vida?"

O "anarco-libertário" pensa que o sistema público de ensino é, essencialmente, autoritário e no seu julgamento acha que só a ele cabe decidir que o ensino tradicional não deve ser oferecido. No mínimo, ele peca por falta de pragmatismo. Pais de todas as crianças no sistema de ensino nacional decidiriam e criariam o próprio sistema de ensino. Homeschooling para todos?

Se o jovem ainda não sabe o que vai ser no futuro, justamente por isto deveria usufruir de todo o conhecimento disponível. Escolher como, se não tem a mínima base para adivinhar sobre o que vai e não vai precisar? Quem aqui, mesmo como adulto, sabe exatamente de qual tipo e quantidade de conhecimento vai precisar amanhã? Por via das dúvidas é melhor pecar pelo excesso que pela falta.

"Do ensino médio, imagino que você também não tenha levado nada para sua vida." Não mesmo? Mesmo que não nos tornemos professores, biólogos, físicos ou químicos, nós aproveitamos algo disto tudo sim. Noções gerais permanecem conosco, mesmo que básicas e incompletas. É de uma grande prepotência achar que podemos decidir agora sobre o futuro de jovens que, no futuro poderão nos responsabilizar por não termos lhes dado tal oportunidade, mesmo levando em conta todas as imperfeições que tenha, porventura, o atual sistema de ensino.

Não se trata de poder responder perguntas ao "Show do Milhão", mas de dispor de opções. E sem conhecimento, mesmo que incompleto reitero, não há como ter subsídios para a imaginação, condição indissociável da liberdade. Se mais tarde achar isto insuficiente, cabe ao indivíduo suprir as deficiências por si mesmo.

Diz o autor:

"O único conteúdo educacional estritamente necessário às pessoas é o domínio básico da língua e de algumas operações matemáticas. As outras matérias são, no máximo, um complemento. O fato de que conteúdos obviamente complementares sejam obrigatórios e que isso seja aceito como natural por todos nos diz muito sobre a cultura que prevalece na sociedade hoje em dia. E, ademais, qualquer um pode testemunhar no orkut que os nossos milhões de alfabetizados (até mesmo em escolas particulares, das quais sai a maioria dos usuários de internet), poucos sabem escrever uma linha em português inteligível. Parem as aulas sobre moléculas cis e trans e os façam estudar concordância verbal."

Biologia não é complemento de matemática. Esta é que uma linguagem que pode ser adotada no estudo de outras matérias. E é justamente seu ensino deficiente que faz com que estes "estudos complementares" não sejam melhor aproveitados. O que se testemunha no Orkut, entre outros sites de relacionamento, não é conseqüência do ensino, mas do ensino fraco. Não se deve jogar o bebê fora com a água suja do banho. O problema destes anarco-libertários é não ter foco sobre o problema confundindo o problema inscrito no sistema com as proposições do próprio sistema.

"[A] s crianças não são animais que devem ser domesticados. Além disso, restaria saber quais valores são tão desejáveis à sociedade. Esses valores evidentemente seriam ditados pelos powers that be."

0k. Esta afirmação se assemelha muito com o mote de que "se há governo, sou contra". Que poderes são esses? São articulados? Têm algum nome, endereço, modus operandi conhecido? São ocultos? A crítica ao poder subjacente aos valores da sociedade não passa de um clichê recorrente. Se vamos nos opor a toda e qualquer base moral, qual deverá substituí-la? Ou a sociedade pode prescindir da moral? As crianças não devem ser "domesticadas" como animais, mas quem disse que a educação dispensada a animais e crianças deve ser a mesma? Só quem nunca educou/domesticou um animal pode proferir tamanha bobagem supondo que tenhamos uma guia numa das mãos e um pacote de biscoitos na outra quando tivermos que ensinar valores a um filho.

"[E]ssa socialização é desejável? Eu, ao menos, mantenho amizade com não muitos dos meus colegas de escola. Pela minha experiência, eu posso dizer que poucos dos amigos de escola permanecem no futuro. As pessoas, em geral, se tornam amigas daqueles com quem compartilham interesses ou que trabalham no mesmo ramo de atuação. A escola é só um espaço onde as crianças e os adolescentes passam seis horas por dia. Elas não têm nada em comum além do fato de que vão ter prova de matemática na próxima semana. Veja, leitor, o seu próprio caso. Quantos amigos do ensino médio você mantém até hoje? É possível que você tenha nutrido grande amizade por algumas pessoas durante o tempo que passou na escola, mas depois que saiu dela, sua amizade provavelmente morreu. É natural que isso tenha ocorrido. Se você fosse ligar para os seus antigos amigos, o que diria? 'Como foi a prova na terça?'"

Se restarem poucos amigos é porque a escola, assim como qualquer ambiente de encontro proporcionou que fizéssemos uma triagem. Mas, se não temos muitos amigos destas épocas não é porque eram de uma escola, mas porque pertencem ao passado distante de nossas vidas. Eu tenho muitos amigos de minha adolescência (o que é raro entre a maioria das pessoas), embora poucos advindos das escolas por que passei. Isto significa que os poucos que encontrei não valeram à pena? Tolice. E assim como nas escolas, há vários outros ambientes, clubes, ruas em que morei, bares que freqüentei, dos quais não encontro mais meus velhos conhecidos. Não é atributo exclusivo das escolas, ter memórias que se perdem na poeira do tempo. Isto ocorre em qualquer lugar e ambiente de trabalho, idem. Faz parte do que se entende por "socialização" se preparar e treinar para adversidades encontradas na vida. E se as pessoas em geral têm amizades com interesses comuns ou no mesmo ramo de atuação, isto significa que elas não têm lá interesses diversificados ou apenas mantêm suas vidas monótonas.

Não acho que a nota na prova determine a qualidade de profissional que porventura tu poderás vir a ser, não acho que a escola, tal como é no Brasil seja um bom exemplo de meio de socialização. Acho também que faltam vários elementos criativos que poderiam torná-las mais agradáveis e estimulantes e vejo com extrema simpatia o homeschooling. Mas, argumentos simplórios delineados pelo texto linkado são, claramente, insuficientes para a crítica ao que temos. Se vamos propor algo, que parta de melhores princípios. E, por enquanto, não são todos os pais que dispõem de meios – intelectuais, mesmo – de substituir o modelo atual de ensino. Melhor do que jogar este fora deixando milhões de jovens no limbo entre a rua e a vadiagem, seria tornar a escola um espaço público, diversificado e atraente.

Palavras fáceis, eu sei. Mas, o elemento completamente ausente na argumentação anarco-libertária do referido texto é o senso de disciplina que, seja qual for o modelo, é indissociável do ensino. O que propõem os anarco-libertários, além de shoppings e computadores?

A melhor crítica que se pode fazer ao modelo de ensino numa realidade particular não parte dos que não a conheceram, mas do que procuraram melhorá-la. O desejo revolucionário no sistema de ensino não passa de uma incapacidade para pensar em reformas. Por que parte da utópica miopia de um mundo sem disciplina e sem moral. Se a liberdade é a meta, aquilo que supostamente a limita não pode se tornar indisponível ou censurado. Isto me faz lembrar quando sugeri à dois professores negros que dessem Mein Kampf como leitura nas aulas de pedagogia, pois seria a melhor forma de ensinar o que devem combater... Que seja dada a oportunidade do conhecimento de causa a quem quer que queira rejeitar um sistema. Do contrário, os anarco-libertários incorrem num paradoxo, o de selarem o destino dos que não conheceram o que foi extinto. Autoritariamente.

 Em Por que a escola deve acabar, o autor se pergunta por que deve estudar os componentes da célula ou sobre movimento uniformemente variado. "Para que eu vou precisar disso na minha vida?" A questão não está colocada de modo correto. O que o autor deveria se perguntar é "por que não oferecer isto a uma vida?"

O "anarco-libertário" pensa que o sistema público de ensino é, essencialmente, autoritário e no seu julgamento acha que só a ele cabe decidir que o ensino tradicional não deve ser oferecido. No mínimo, ele peca por falta de pragmatismo. Pais de todas as crianças no sistema de ensino nacional decidiriam e criariam o próprio sistema de ensino. Homeschooling para todos?

Se o jovem ainda não sabe o que vai ser no futuro, justamente por isto deveria usufruir de todo o conhecimento disponível. Escolher como, se não tem a mínima base para adivinhar sobre o que vai e não vai precisar? Quem aqui, mesmo como adulto, sabe exatamente de qual tipo e quantidade de conhecimento vai precisar amanhã? Por via das dúvidas é melhor pecar pelo excesso que pela falta.

"Do ensino médio, imagino que você também não tenha levado nada para sua vida." Não mesmo? Mesmo que não nos tornemos professores, biólogos, físicos ou químicos, nós aproveitamos algo disto tudo sim. Noções gerais permanecem conosco, mesmo que básicas e incompletas. É de uma grande prepotência achar que podemos decidir agora sobre o futuro de jovens que, no futuro poderão nos responsabilizar por não termos lhes dado tal oportunidade, mesmo levando em conta todas as imperfeições que tenha, porventura, o atual sistema de ensino.

Não se trata de poder responder perguntas ao "Show do Milhão", mas de dispor de opções. E sem conhecimento, mesmo que incompleto reitero, não há como ter subsídios para a imaginação, condição indissociável da liberdade. Se mais tarde achar isto insuficiente, cabe ao indivíduo suprir as deficiências por si mesmo.

Diz o autor:

"O único conteúdo educacional estritamente necessário às pessoas é o domínio básico da língua e de algumas operações matemáticas. As outras matérias são, no máximo, um complemento. O fato de que conteúdos obviamente complementares sejam obrigatórios e que isso seja aceito como natural por todos nos diz muito sobre a cultura que prevalece na sociedade hoje em dia. E, ademais, qualquer um pode testemunhar no orkut que os nossos milhões de alfabetizados (até mesmo em escolas particulares, das quais sai a maioria dos usuários de internet), poucos sabem escrever uma linha em português inteligível. Parem as aulas sobre moléculas cis e trans e os façam estudar concordância verbal."

Biologia não é complemento de matemática. Esta é que uma linguagem que pode ser adotada no estudo de outras matérias. E é justamente seu ensino deficiente que faz com que estes "estudos complementares" não sejam melhor aproveitados. O que se testemunha no Orkut, entre outros sites de relacionamento, não é conseqüência do ensino, mas do ensino fraco. Não se deve jogar o bebê fora com a água suja do banho. O problema destes anarco-libertários é não ter foco sobre o problema confundindo o problema inscrito no sistema com as proposições do próprio sistema.

"[A] s crianças não são animais que devem ser domesticados. Além disso, restaria saber quais valores são tão desejáveis à sociedade. Esses valores evidentemente seriam ditados pelos powers that be."

0k. Esta afirmação se assemelha muito com o mote de que "se há governo, sou contra". Que poderes são esses? São articulados? Têm algum nome, endereço, modus operandi conhecido? São ocultos? A crítica ao poder subjacente aos valores da sociedade não passa de um clichê recorrente. Se vamos nos opor a toda e qualquer base moral, qual deverá substituí-la? Ou a sociedade pode prescindir da moral? As crianças não devem ser "domesticadas" como animais, mas quem disse que a educação dispensada a animais e crianças deve ser a mesma? Só quem nunca educou/domesticou um animal pode proferir tamanha bobagem supondo que tenhamos uma guia numa das mãos e um pacote de biscoitos na outra quando tivermos que ensinar valores a um filho.

"[E]ssa socialização é desejável? Eu, ao menos, mantenho amizade com não muitos dos meus colegas de escola. Pela minha experiência, eu posso dizer que poucos dos amigos de escola permanecem no futuro. As pessoas, em geral, se tornam amigas daqueles com quem compartilham interesses ou que trabalham no mesmo ramo de atuação. A escola é só um espaço onde as crianças e os adolescentes passam seis horas por dia. Elas não têm nada em comum além do fato de que vão ter prova de matemática na próxima semana. Veja, leitor, o seu próprio caso. Quantos amigos do ensino médio você mantém até hoje? É possível que você tenha nutrido grande amizade por algumas pessoas durante o tempo que passou na escola, mas depois que saiu dela, sua amizade provavelmente morreu. É natural que isso tenha ocorrido. Se você fosse ligar para os seus antigos amigos, o que diria? 'Como foi a prova na terça?'"

Se restarem poucos amigos é porque a escola, assim como qualquer ambiente de encontro proporcionou que fizéssemos uma triagem. Mas, se não temos muitos amigos destas épocas não é porque eram de uma escola, mas porque pertencem ao passado distante de nossas vidas. Eu tenho muitos amigos de minha adolescência (o que é raro entre a maioria das pessoas), embora poucos advindos das escolas por que passei. Isto significa que os poucos que encontrei não valeram à pena? Tolice. E assim como nas escolas, há vários outros ambientes, clubes, ruas em que morei, bares que freqüentei, dos quais não encontro mais meus velhos conhecidos. Não é atributo exclusivo das escolas, ter memórias que se perdem na poeira do tempo. Isto ocorre em qualquer lugar e ambiente de trabalho, idem. Faz parte do que se entende por "socialização" se preparar e treinar para adversidades encontradas na vida. E se as pessoas em geral têm amizades com interesses comuns ou no mesmo ramo de atuação, isto significa que elas não têm lá interesses diversificados ou apenas mantêm suas vidas monótonas.

Não acho que a nota na prova determine a qualidade de profissional que porventura tu poderás vir a ser, não acho que a escola, tal como é no Brasil seja um bom exemplo de meio de socialização. Acho também que faltam vários elementos criativos que poderiam torná-las mais agradáveis e estimulantes e vejo com extrema simpatia o homeschooling. Mas, argumentos simplórios delineados pelo texto linkado são, claramente, insuficientes para a crítica ao que temos. Se vamos propor algo, que parta de melhores princípios. E, por enquanto, não são todos os pais que dispõem de meios – intelectuais, mesmo – de substituir o modelo atual de ensino. Melhor do que jogar este fora deixando milhões de jovens no limbo entre a rua e a vadiagem, seria tornar a escola um espaço público, diversificado e atraente.

Palavras fáceis, eu sei. Mas, o elemento completamente ausente na argumentação anarco-libertária do referido texto é o senso de disciplina que, seja qual for o modelo, é indissociável do ensino. O que propõem os anarco-libertários, além de shoppings e computadores?

A melhor crítica que se pode fazer ao modelo de ensino numa realidade particular não parte dos que não a conheceram, mas do que procuraram melhorá-la. O desejo revolucionário no sistema de ensino não passa de uma incapacidade para pensar em reformas. Por que parte da utópica miopia de um mundo sem disciplina e sem moral. Se a liberdade é a meta, aquilo que supostamente a limita não pode se tornar indisponível ou censurado. Isto me faz lembrar quando sugeri à dois professores negros que dessem Mein Kampf como leitura nas aulas de pedagogia, pois seria a melhor forma de ensinar o que devem combater... Que seja dada a oportunidade do conhecimento de causa a quem quer que queira rejeitar um sistema. Do contrário, os anarco-libertários incorrem num paradoxo, o de selarem o destino dos que não conheceram o que foi extinto. Autoritariamente.

Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

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