Sex02212020

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

08 Ago 2008

Moralismo Udenista?

Escrito por 

É verdade que a corrupção sempre existiu. E também é verdade que o modelo político tem boa dose de culpa, justamente porque concentra poder demais no governo. Mas é inegável que a gestão Lula levou a questão da corrupção a patamares assustadores.

"Não temos nenhuma evidência de que a corrupção fosse menor no passado; era menos visível." (Maria Hermínia Tavares de Almeida)

“A espetacularização de casos de corrupção só ganha espaço quando os discursos políticos estão esvaziados. Com uma agenda política cada vez mais próxima à do governo, a oposição enfrenta dificuldades em criticar quem está no poder e, por isso, prefere ataques morais à discussão sobre propostas. Assim, o debate de idéias recua para dar espaço ao noticiário policial. A análise é da cientista política Maria Hermínia Tavares de Almeida, professora titular da USP”. Assim começa a matéria do jornal Valor sobre o 6º encontro da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), entidade presidida pela cientista política Maria Hermínia.

Para a professora da USP, "se [as políticas do governo] são muito parecidas com o que a oposição fez quando estava no governo, o espaço para crítica é menor”. Não dá para negar que ela tem um ponto: as políticas do PSDB, PMDB e PT são mesmo convergentes em vários aspectos. Afinal, nenhum deles ousa romper o marasmo esquerdista que deposita no governo o poder de locomotiva econômica. Nem o governo FHC nem o governo Lula fizeram as necessárias reformas estruturais, preferindo fugir das questões trabalhista, previdenciária e tributária. Mas é inegável que ocorreram avanços maiores na era FHC, em termos institucionais. O governo Lula se limitou a manter o básico, principalmente em termos macroeconômicos, sem estragar as poucas conquistas anteriores. O resto foi uma dádiva de fora, uma sorte incrível que permitiu que o Brasil pudesse surfar uma onda benigna com o melhor contexto internacional das últimas décadas para os países emergentes. Portanto, há sim muito o que se criticar em termos de políticas do governo na gestão Lula.

Está errado então o resumo que ela faz ao afirmar que "é mais fácil criticar o governo pelo lado da moralidade do que pela política". É igualmente fácil criticar o governo por ambos os lados. Só que um não deve excluir o outro, de forma alguma. E a impressão que fica ao se ler a reportagem do jornal é que a professora da USP tenta justamente reduzir a importância da crítica moral, como se ela fosse resultado apenas da convergência da agenda dos partidos. Ela tenta ainda passar a imagem de que nada de diferente em termos morais foi praticado por este governo. Para ela, a maior exposição na mídia é que estaria por trás dessa noção de que o aspecto moral piorou na gestão petista. "Questões relacionadas à corrupção sempre existiram, mas agora acabam aparecendo mais", ela diz. Como assim? Quer dizer que o recorde de escândalos ininterruptos durante o governo Lula é fruto apenas da maior visibilidade do governo? Não tem nada a ver com uma maior produção de escândalos, justamente porque “nunca antes na história desse país” tivemos tanta corrupção? Será que a professora usou esse mesmo discurso no caso Collor? É muita cara-de-pau tentar simplificar as coisas dessa forma, para inocentar o PT. Mas não deixa de ser hilário ver essa turma “defendendo” o partido da “ética” com a afirmação de que ele é “apenas” tão corrupto quanto os outros, inclusive o PMDB.

A professora usa como exemplo para o argumento de que o tema corrupção sempre esteve presente a bandeira usada pela UDN entre 1946 e 1964, quando fazia oposição à coalizão varguista. Em primeiro lugar, devemos questionar a conclusão dela, de que o foco nessa questão moral seria conseqüência do esvaziamento do debate dos programas políticos. Ora, se ela mesmo afirma que o tema não é novo e sempre foi usado, por que antes ela afirmara que esse foco é fruto da convergência das agendas? Será que só quando o PT é vítima das críticas sobre moral é que essas críticas são inválidas, resultado da falta de assunto político? A UDN e os varguistas tinham uma agenda comum, por acaso? Em segundo lugar, será que a professora estaria insinuando que o moralismo é coisa de udenista apenas? Não temos todos uma obrigação moral de questionar a honestidade dos candidatos e do governo, de apontar os esquemas corruptos? Só porque sempre convivemos com a corrupção, devemos ignorar esse aspecto então?

Para Maria Hermínia, esses problemas, especialmente ligados ao financiamento de campanha, existem em todo lugar do mundo. A tentativa de limitar o estrago moral realizado pelo PT no governo ao aspecto de financiamento de campanha é lamentável. O “mensalão” foi bem mais que isso! O PT tentou concentrar todo o poder em suas mãos, pois o DNA autoritário está presente no partido. Os infindáveis escândalos têm ligação com a tentativa do PT de tomar toda a máquina estatal e expandir os seus tentáculos sobre as liberdades individuais. A professora questiona como podemos minimizar esses problemas de corrupção: "Mas com que regras é possível reduzir essa relação complicada entre interesses privados e agentes públicos?" Ora, será que não passa por sua cabeça que devemos reduzir justamente a quantidade de recursos que passa pelo poder político? Será que não está claro que devemos reduzir a concentração do poder no governo, já que é obviamente natural a organização de grupos de interesse quando o destino da economia depende do carimbo poderoso do governo? Essa solução evidente não é mencionada hora alguma pela cientista política. Parece que os “filhos” da USP encontram uma dificuldade enorme em navegar pelos caminhos da lógica quando isso representa redução do poder estatal.

A frase da epígrafe representa a postura atual dos defensores do PT: a tentativa de jogar tudo no mesmo saco podre e culpar o “sistema” em vez do partido. É verdade que a corrupção sempre existiu. E também é verdade que o modelo político tem boa dose de culpa, justamente porque concentra poder demais no governo. Mas é inegável que a gestão Lula levou a questão da corrupção a patamares assustadores, e nunca antes vistos. Justificar isso apenas com o argumento de maior exposição na imprensa é apelar de forma patética, é agredir o bom senso das pessoas que ainda não perderam o juízo. O PT banalizou a imoralidade e a corrupção. E se atacar a imoralidade dessa turma no poder é coisa de “moralista”, então fico feliz de ser considerado um desses. Quem perdeu a capacidade de se indignar com os escândalos de corrupção do governo, perdeu a noção de certo e errado. E esse é o primeiro passo para o caos total, para a barbárie.

"Não temos nenhuma evidência de que a corrupção fosse menor no passado; era menos visível." (Maria Hermínia Tavares de Almeida)

“A espetacularização de casos de corrupção só ganha espaço quando os discursos políticos estão esvaziados. Com uma agenda política cada vez mais próxima à do governo, a oposição enfrenta dificuldades em criticar quem está no poder e, por isso, prefere ataques morais à discussão sobre propostas. Assim, o debate de idéias recua para dar espaço ao noticiário policial. A análise é da cientista política Maria Hermínia Tavares de Almeida, professora titular da USP”. Assim começa a matéria do jornal Valor sobre o 6º encontro da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), entidade presidida pela cientista política Maria Hermínia.

Para a professora da USP, "se [as políticas do governo] são muito parecidas com o que a oposição fez quando estava no governo, o espaço para crítica é menor”. Não dá para negar que ela tem um ponto: as políticas do PSDB, PMDB e PT são mesmo convergentes em vários aspectos. Afinal, nenhum deles ousa romper o marasmo esquerdista que deposita no governo o poder de locomotiva econômica. Nem o governo FHC nem o governo Lula fizeram as necessárias reformas estruturais, preferindo fugir das questões trabalhista, previdenciária e tributária. Mas é inegável que ocorreram avanços maiores na era FHC, em termos institucionais. O governo Lula se limitou a manter o básico, principalmente em termos macroeconômicos, sem estragar as poucas conquistas anteriores. O resto foi uma dádiva de fora, uma sorte incrível que permitiu que o Brasil pudesse surfar uma onda benigna com o melhor contexto internacional das últimas décadas para os países emergentes. Portanto, há sim muito o que se criticar em termos de políticas do governo na gestão Lula.

Está errado então o resumo que ela faz ao afirmar que "é mais fácil criticar o governo pelo lado da moralidade do que pela política". É igualmente fácil criticar o governo por ambos os lados. Só que um não deve excluir o outro, de forma alguma. E a impressão que fica ao se ler a reportagem do jornal é que a professora da USP tenta justamente reduzir a importância da crítica moral, como se ela fosse resultado apenas da convergência da agenda dos partidos. Ela tenta ainda passar a imagem de que nada de diferente em termos morais foi praticado por este governo. Para ela, a maior exposição na mídia é que estaria por trás dessa noção de que o aspecto moral piorou na gestão petista. "Questões relacionadas à corrupção sempre existiram, mas agora acabam aparecendo mais", ela diz. Como assim? Quer dizer que o recorde de escândalos ininterruptos durante o governo Lula é fruto apenas da maior visibilidade do governo? Não tem nada a ver com uma maior produção de escândalos, justamente porque “nunca antes na história desse país” tivemos tanta corrupção? Será que a professora usou esse mesmo discurso no caso Collor? É muita cara-de-pau tentar simplificar as coisas dessa forma, para inocentar o PT. Mas não deixa de ser hilário ver essa turma “defendendo” o partido da “ética” com a afirmação de que ele é “apenas” tão corrupto quanto os outros, inclusive o PMDB.

A professora usa como exemplo para o argumento de que o tema corrupção sempre esteve presente a bandeira usada pela UDN entre 1946 e 1964, quando fazia oposição à coalizão varguista. Em primeiro lugar, devemos questionar a conclusão dela, de que o foco nessa questão moral seria conseqüência do esvaziamento do debate dos programas políticos. Ora, se ela mesmo afirma que o tema não é novo e sempre foi usado, por que antes ela afirmara que esse foco é fruto da convergência das agendas? Será que só quando o PT é vítima das críticas sobre moral é que essas críticas são inválidas, resultado da falta de assunto político? A UDN e os varguistas tinham uma agenda comum, por acaso? Em segundo lugar, será que a professora estaria insinuando que o moralismo é coisa de udenista apenas? Não temos todos uma obrigação moral de questionar a honestidade dos candidatos e do governo, de apontar os esquemas corruptos? Só porque sempre convivemos com a corrupção, devemos ignorar esse aspecto então?

Para Maria Hermínia, esses problemas, especialmente ligados ao financiamento de campanha, existem em todo lugar do mundo. A tentativa de limitar o estrago moral realizado pelo PT no governo ao aspecto de financiamento de campanha é lamentável. O “mensalão” foi bem mais que isso! O PT tentou concentrar todo o poder em suas mãos, pois o DNA autoritário está presente no partido. Os infindáveis escândalos têm ligação com a tentativa do PT de tomar toda a máquina estatal e expandir os seus tentáculos sobre as liberdades individuais. A professora questiona como podemos minimizar esses problemas de corrupção: "Mas com que regras é possível reduzir essa relação complicada entre interesses privados e agentes públicos?" Ora, será que não passa por sua cabeça que devemos reduzir justamente a quantidade de recursos que passa pelo poder político? Será que não está claro que devemos reduzir a concentração do poder no governo, já que é obviamente natural a organização de grupos de interesse quando o destino da economia depende do carimbo poderoso do governo? Essa solução evidente não é mencionada hora alguma pela cientista política. Parece que os “filhos” da USP encontram uma dificuldade enorme em navegar pelos caminhos da lógica quando isso representa redução do poder estatal.

A frase da epígrafe representa a postura atual dos defensores do PT: a tentativa de jogar tudo no mesmo saco podre e culpar o “sistema” em vez do partido. É verdade que a corrupção sempre existiu. E também é verdade que o modelo político tem boa dose de culpa, justamente porque concentra poder demais no governo. Mas é inegável que a gestão Lula levou a questão da corrupção a patamares assustadores, e nunca antes vistos. Justificar isso apenas com o argumento de maior exposição na imprensa é apelar de forma patética, é agredir o bom senso das pessoas que ainda não perderam o juízo. O PT banalizou a imoralidade e a corrupção. E se atacar a imoralidade dessa turma no poder é coisa de “moralista”, então fico feliz de ser considerado um desses. Quem perdeu a capacidade de se indignar com os escândalos de corrupção do governo, perdeu a noção de certo e errado. E esse é o primeiro passo para o caos total, para a barbárie.

Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino é economista formado pela PUC-RJ, com MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha desde 1997 no mercado financeiro, como analista de empresas e administrador de portfolio. É autor do livro "Prisioneiros da Liberdade", da editora Soler.

Deixe um comentário

Informações marcadas com (*) são obrigatórias. Código HTML básico é permitido.

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.