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07 Ago 2004

Papai Noel Não Se Esqueceu de Cabo Verde

Escrito por 

Dizia eu no artigo passado que, ao distribuir presentes no Gabão, Lulinha Paz e Amor ainda tinha chão pela frente em sua nova tournée africana. Havia ao menos um país ansioso para receber a visita de Sua Majestade, o Rei dos Mendigos

Dizia eu no artigo passado que, ao distribuir presentes no Gabão, Lulinha Paz e Amor ainda tinha chão pela frente em sua nova tournée africana. Havia ao menos um país ansioso para receber a visita de Sua Majestade, o Rei dos Mendigos. Embora não chegasse vestido de vermelho e num trenó puxado por quatro renas, vinha carregado de presentes e ansioso para distribuí-los, para a alegria geral do povo. Sim, pois Sua Majestade é justa e generosa. Se perdoou a dívida de R$ 1.000.000.000, 00 de Moçambique, por que não perdoar dívidas muito menores como as de R$ 112.000.000, 00 do Gabão e a de R$ 9.000.000, 00 de Cabo Verde? Mas não vamos ficar aqui brigando por causa de merrequinhas, não é mesmo?  Brasileiros, não sejam mãos-de-vaca e compreendam os altos propósitos de seu Supremo Mandatário, como assim fez um leitor do Jornal do Brasil. Vejam só que belo exemplo de consciência cívica e planetária.

O presidente Lula tem sido muito feliz em suas viagens internacionais, assumindo uma causa de extrema importância: a mobilização e conscientização dos países ricos sobre o flagelo da fome, que atinge milhões de pessoas no Terceiro Mundo. Em vez de fazer guerra, é preciso ajudar os famintos e os que padecem de doenças como a Aids. (Célio Borba, Curitiba, em Cartas dos Leitores do Jornal do Brasil em 30/7/2004).

O referido leitor está coberto de razão. Nada de fazer guerra. MAKE LOVE  NOT WAR. Só mesmo mentes muito maldosas ficam pensando que “Lulinha Paz e Amor” foi um epíteto inventado pelo Duda Mendonça, só para Luís Inácio da Silva perder o estigma de Sapo Barbudo (conferido pelo finado Brizola) e ganhar as eleições. Não, não, cada vez mais ele dá irrecusáveis provas de que não só merece o título de Embaixador da Paz e do Amor como também o de Defensor dos Fracos e Oprimidos deste mundo cão. E não me venham dizer que este último era galardão de um espanhol chamado Alonzo Quixana, que se transformou no Cavaleiro da Triste Figura.

Eu só não entendo por que estranha razão o correspondente do Jornal do Brasil em terras africanas parece discordar do ponto de vista do leitor Célio Borba. Vejam só o que ele diz: A viagem de Lula pelo continente (africano) teve teor muito mais político do que econômico. O Brasil coloca-se no papel de primo rico ao doar computadores, medicamentos e livros, deixando evidente uma das principais características da política externa atual, a de liderança dos países do eixo Sul.

“Teor mais político do que econômico?” Como? Se o dinheiro gasto está saindo dos cofres públicos e resultando de um investimento a fundo perdido, somos todos nós, contribuintes, que estamos pagando a conta da festança de um inconseqüente pródigo (Pela lei, devia ser interditado). Se o dinheiro estivesse saindo do bolso dele, seria problema dele, mas como está saindo do nosso, o problema é nosso, TODO NOSSO. E eu não empregaria a expressão “teor político”, porém “teor politiqueiro”, pois política é uma coisa, “politicagem” outra. Data maxima venia pelo baixo calão, rima com “sacanagem”. Mas é o tal do Eixo Sul-Sul, que se contrapõe a ALCA e à Comunidade Européia, como reconhece o próprio correspondente ao dizer: “O chamado Eixo Sul-Sul é uma das prioridades da política externa de Lula e compreende os países fora da trinca EUA-União Européia-Japão, como China e África do Sul”.

Já disse incontáveis vezes, mesmo correndo o risco das pessoas não compreenderem a sutil diferença em jogo: Não é de hoje que nossa política externa fez uma canhestra opção: o Brasil preferiu ser o mais rico entre os mais pobres do que o mais pobre entre os mais ricos. Trocando em miúdos: é como aquele sujeito que preferiu morar num palacete na Rocinha a morar num modesto apartamento no Leblon. Não de improviso, mas lendo texto escrito por um ghost writer, Lulinha Paz e Amor dirigiu eloqüentes e candentes palavras aos congressistas da Assembléia Nacional de Cabo Verde.

Não queremos depender de arranjos privilegiados com países desenvolvidos que distorcem o sistema internacional e nos condenam à eterna dependência de concessões desiguais e incertas. Que queria ele dizer com isto? Não vamos entrar aqui numa espinhosa questão de caráter hermenêutico, mesmo porque o significado do discurso é o que menos importa, desde que  o mesmo agrade à platéia. E estamos certos de que os membros da Assembléia Caboverdense ficaram embevecidos e exultantes. Referindo-se particularmente ao Eixo Sul-Sul, Lulinha Paz e Amor o qualificou como O PILAR DA NOVA GEOGRAFIA ECONÔMICA, mas não consigo vislumbrar qual a latitude e a longitude do Brasil nesta carta geográfica, cercado de países que pouco tem para vender e menos ainda para comprar, a não ser que sejam compras de mentirinha que, se não foram pagas, o vendedor não se importa: perdoa a dívida. E como é belo o perdão, mesmo que nossos credores ainda não tenham se convencido disto...

E desse modo, Lulinha Paz e Amor fechou com chave de ouro a última, mas não a derradeira, de suas jornadas terceiromundanas. Contudo, contrariando os sábios conselhos técnicos da ABIN (Agência Brasileira de Inteligência), confirmou a magnífica peleja da Seleção Penta - com os dois Ronaldos e tudo - contra a Seleção do Haiti no dia 18 do corrente mês. Não sou profeta e longe de mim o catastrofismo, mas temo que, ao comparecer a essa eletrizante contenda, o Presidente esteja correndo sério risco de vida, pois os Monstros e os Canibais (assim são denominadas as duas beligerantes facções locais) estão arrancando a dentadas orelhas e narizes uns dos outros, matando cachorro a grito e jacaré a rabo-de-arraia. E de que adianta tanque Urutu contra veneno de surucucu e vudu?!

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:19
Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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