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07 Ago 2004

Os Principados e As Forças

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É por isso que a filosofia política liberal é a forma mais acabada criada pela boa tradição de gestão dos principados e das forças. É preciso reduzir ao mínimo o poder mundano, é preciso proteger o indivíduo, a sua liberdade, a sua singularidade. É preciso que se coloque entraves à pratica da injustiça que passa por “caridade por força de lei”

“Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.
Mt 22:21

René Girard, no livro que tenho comentado em meus últimos artigos (“Eu via satanás cair do céu como um raio”) escreveu, à página 126: “Sem serem a mesma coisa que Satanás, as forças são sempre sua tributária, pois todas elas são tributárias dos falsos deuses por ele engendrados, quer dizer, pelo assassínio fundador... O que está em causa são os fenômenos sociais gerados pelo assassínio fundador.  O sistema de forças, com Satanás por detrás dele, é um fenômenos material, positivo e, simultaneamente, espiritual, religioso num sentido muito particular, ao mesmo tempo eficaz e ilusório. É o religioso mentiroso que protege os homens da violência e do caos, por intermédio dos ritos sacrificiais... a falsa transcendência pode fazer-se obedecer”.

Nesse ponto vemos uma das perplexidades do autor, que não dá nenhuma resposta ao paradoxo de que o poder mundano tem origem transcendente, é necessário, mas está umbilicalmente ligado ao mal. Nas suas palavras (página 128): “As forças nunca são estranhas a Satanás, é um fato, mas não se pode condená-las de olhos fechados, tanto mais que, num mundo estranho ao Reino de Deus, são indispensáveis à manutenção da ordem. Se as forças existem, diz São Paulo, é porque têm uma função a desempenhar e são autorizadas por Deus. O apóstolo é demasiado realista para declarar guerra às forças. Recomenda aos cristãos que estes as respeitem e mesmo que lhes prestem honras porquanto que nada exijam à verdadeira fé”.

Na verdade, a dialética entre Leviatã e Beemoth permeia toda a Bíblia e é o conflito instalado na alma de cada um. Em outras palavras, cabe ao vivente decifrar o enigma do Estado. É evidente que a paixão das massas (Beemoth) é o maior de todos os perigos. A multidão desembestada é o caos primevo de que falam todas as religiões, com poder destruidor apavorante. Vemo-la em ação plena nos instantes revolucionários. Para confrontá-la, o Estado (os principados e as forças, na linguagem bíblica, ou o Leviatã) faz o contraponto, impondo a paz social pela violência. Essa dialética permanece desde o princípio dos tempos. A ausência de ordem é pior do que a ordem mais ilegítima e tirana.

Não há como não perceber a contradição: o bem supremo da política, a paz social, advém de raízes satânicas. Girard escreveu, à página 176: “Foram os principados e as forças que pregaram Cristo à Cruz e o despojaram de tudo sem que daqui resultasse, para eles, o mínimo dano... Longe de serem invisíveis, as forças são presenças brilhantes no nosso mundo. Nele ocupam posição elevada. Não cessa de nele se pavonearem, de exibirem o seu poder e luxo. Não é preciso exibi-las, exibem-se permanentemente”. Desde o início Cristo e seus seguidores foram percebidos como os grandes inimigos dos poderes mundanos.

Dois mil anos de cristianismo, todavia, não foram vividos impunemente. Houve no processo histórico uma cristianização do poder, agora em escala planetária. Com acerto, o autor aponta (página 202) que “O ideal de uma sociedade estranha à violência remonta, visivelmente, à pregação de Jesus, ao anúncio do reino de Deus. Longe de diminuir à medida que o cristianismo se afasta, a sua intensidade aumenta. Esse paradoxo é fácil de explicar. A preocupação com as vítimas tornou-se uma aposta paradoxal das rivalidades miméticas, das melhores ofertas concorrenciais”. Por algum tempo, o cristianismo conseguiu enterra o paganismo por onde prosperou. Na modernidade, todavia, o paganismo ressurgiu com toda a força, fazendo uma caricatura dessa preocupação com as vítimas e do estímulo à caridade, tornando-a um instrumento de opressão e de negação, pela base, da verdadeira caridade. Ao instituir, na prática, um mecanismo de caridade pela força de lei, negou a essência dessa virtude, que só pode ser um ato individual e fruto da plena liberdade. A prática da caridade estatal descambou para formas gritantes de injustiças. Vem daí o entusiasmo com que os grandes inimigos dos valores cristãos, os socialistas, se esmeraram em tudo aquilo que se resume na expressão “politicamente correto”.

Essa paródia é levada a extremos, como Girard comenta, à página 204: “Próprio da preocupação com as vítimas é não se satisfazer com os êxitos passados. Se se lhes der demasiada importância, apaga-se modestamente. Procura desviar dela mesma uma atenção que deveria apenas ser dirigida às vítimas. Fustiga-se constantemente, denuncia a sua própria indolência, o seu farisaísmo. É a máscara laica da caridade... Quer essa humildade seja fingida ou sincera, está rigorosamente no nosso mundo e é ao cristianismo que indubitavelmente remonta”.

Quem é o meu próximo? Para aqueles que exercem o poder mundano, sãos grupos sem nome e sem rosto, as estatísticas. Para um cristão, aquele que está a seu lado. Mas só é objeto da caridade o irmão que se encontra em situação de desespero e desamparo, como bem demonstrado na parábola do Bom Samaritano. Os principados e as forças, por seu lado, entendem que devem ser objeto da “caridade por força de lei” o conjunto sem rosto e sem nome. Isso nada mais é do que infantilizar toda a população, é transformar o Estado no pai de todos, um tirano provedor sem eiras e nem beiras, um ogro filantrópico.

É por isso que a filosofia política liberal é a forma mais acabada criada pela boa tradição de gestão dos principados e das forças. É preciso reduzir ao mínimo o poder mundano, é preciso proteger o indivíduo, a sua liberdade, a sua singularidade. É preciso que se coloque entraves à pratica da injustiça que passa por “caridade por força de lei”.  É preciso denunciar o embuste do “politicamente correto”. Como se vê, essa agenda contraria toda a crença vulgar que está arraigada nas multidões eleitoras dos políticos populistas. Será a grande tarefa para as próximas gerações.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:19
José Nivaldo Cordeiro

José Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas na FGV-SP. Cristão, liberal e democrata, acredita que o papel do Estado deve se cingir a garantia da ordem pública. Professa a idéia de que a liberdade, a riqueza e a prosperidade devem ser conquistadas mediante esforço pessoal, afastando coletivismos e a intervenção estatal nas vidas dos cidadãos.

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