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04 Ago 2004

Dionísio Contra o Crucificado

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O livro de Girard é um esplêndido ensaio de antropologia, a partir dos textos bíblicos, no qual ele demonstra a superioridade ética e cultural da civilização judaico-cristã sobre as alternativas pagãs.

É de conhecimento público que Nietzsche assinou seus bilhetes insensatos, depois da síncope que teve diante do açoite do burro, em Roma, no ano de 1888, com as expressões “O Crucificado”, “Dioniso” e “Dioniso contra o crucificado” e outras do gênero. No seu Ecce Homo, notável opúsculo esculpido na iminência do mergulho na inconsciência, ele grafou: “Fui compreendido? Dioniso contra o Crucificado”. Eu sempre me perguntei a razão exata que o levou a escrever isso. Só tive a resposta ao ler a obra de René Girard “Eu via Satanás cair do céu como um raio” (Portugal, Instituto Piaget, 2002). É certamente a mais original interpretação do filósofo amalucado que eu já li.

O livro de Girard é um esplêndido ensaio de antropologia, a partir dos textos bíblicos, no qual ele demonstra a superioridade ética e cultural da civilização judaico-cristã sobre as alternativas pagãs. Seus dois grandes feitos são esses, o de resgatar o essencial de Nietzsche e o de demonstrar, com muita originalidade, a unidade antropológica da Bíblia, desde o Gênese. Lamentavelmente, o autor encerra suas conclusões na análise do nazismo, corolário inevitável da filosofia nietzschiana, quando poderia usar dos mesmos argumentos para demonstrar os malefícios da ética coletivista, tão pagã e tão antiocidental quanto o foi o nazismo. Marx e Lênin mereciam um capítulo à parte na sua exegese do mal. O paganismo triunfou no mundo não apenas pela pena de Nietzsche, mas sobretudo pela pena desses dois últimos autores. A lacuna, todavia, está longe de diminuir a importância teórica do vigoroso ensaio. Lê-lo é como que acordar para a realidade da ação humana.

Nas Conclusões, ele afirma que “antes de ser uma teoria de Deus, os Evangelhos são uma teoria do Homem”. E que “a palavra evangélica é a única a problematizar, verdadeiramente, a violência humana”. Seu livro pode ser também considerado um compêndio de psicologia da multidão, pois desnuda o mecanismo pelo qual os homens em sociedade, à margem da tradição judaico-cristã, são vítimas do mimetismo que descamba para o mecanismo do chamado bode expiatório, a violência gratuita e sacrificial comum a todo o mundo que está fora dessa tradição. Personagens como José do Egito, Jó, Jesus, João Batista cumprem um figurino de sacrifício completamente oposto às narrativas alternativas: aqui as vítimas são inocentes e as multidões, culpadas. É esse o segredo revelado por Girard. Por isso a tradição ocidental tende ao pacifismo e a um compromisso incondicional com as vítimas inocentes, quando se dá o oposto fora desse referencial moral.

Nietzsche, em um dos trechos citados no livro, é o verdadeiro descobridor dessa separação abissal entre os valores judaico-cristãos e o paganismo: “O indivíduo foi tão levado a sério, tão bem exposto pelo cristianismo, que já não se podia sacrificá-lo: porém, a espécie só sobrevive graças aos sacrifícios humanos... A verdadeira filantropia exige o sacrifício – é dura, obriga a dominar-se, porque precisa do sacrifício humano. É esta pseudo-humanidade que se intitula cristianismo quer, precisamente, impor que ninguém seja sacrificado”. Ler esse trecho é tão desagradável quanto tomar um soco no estômago. Mas é esclarecedor. Está aí com todas as letras o fundamento ”filosófico” dos fornos crematórios de Hitler.

Em outro trecho, Girard, citando novamente Nietzsche: “Dioniso contra o crucificado: ei-la bem, a oposição. Não é uma diferença quanto ao mártir – mas este tem um sentido diferente. A própria vida, a sua eterna fecundidade, o seu eterno retorno, determina o tormento, a destruição, a vontade de aniquilar. No outro caso, o sofrimento, o crucificado, enquanto inocente, serve de argumento contra essa vida, de fórmula de sua condenação”. Aqui se revela a fonte da grande tragédia dos dois últimos séculos, pois ela está diretamente ligada á restauração do paganismo, que se caracteriza não apenas pelos cultos pré-cristãos e não-cristão que apareceram por aqui, mas também pelo ateísmo militante que campeia em nosso meio. O ateísmo é também uma forma de paganismo, se o levarmos às últimas conseqüências, isto é, uma radical inconsciência espiritual. Um ocidental, ao negar o que os nossos antepassados nos legaram de mais valioso, toda a sabedoria contida nas Escrituras, não sabem do tamanho do mal que estão praticando. Nesse sentido, tornam-se cúmplices – ativos ou passivos, pouco importa – dos horríveis crimes que se verificaram e ainda se verificam em nossos dias. Paganismo é violência institucionalizada.

Só queria aqui chamar a atenção do público para essa grande obra. Deverei brevemente fazer mais um comentário complementar sobre a psicologia dos dias de hoje, partir da leitura de Girard.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:19
José Nivaldo Cordeiro

José Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas na FGV-SP. Cristão, liberal e democrata, acredita que o papel do Estado deve se cingir a garantia da ordem pública. Professa a idéia de que a liberdade, a riqueza e a prosperidade devem ser conquistadas mediante esforço pessoal, afastando coletivismos e a intervenção estatal nas vidas dos cidadãos.

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