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24 Mai 2008

Com Weber Contra Kant

Escrito por 

Weber considera as conseqüências da ação a coisa mais relevante na conduta ética.

Ao longo deste ensaio*, estivemos trabalhando com uma importante dicotomia entre dois tipos de ética: a deontológica e a teleológica. Como dissemos, caracteriza o primeiro as éticas de Immanuel Kant e Joseph Butler; caracteriza o segundo as éticas de Aristóteles e John Stuart Mill.

Como vimos, de acordo com uma ética deontológica, tudo que importa é o cumprimento de uma norma de justa conduta, sem levar em consideração as intenções do agente, as circunstâncias em que ele exerce sua ação e as previsíveis conseqüências advindas desta mesma. No entanto, de acordo com uma ética teleológica, o agente não deve deixar nunca de levar em consideração justamente aquilo que a deontológica desconsidera: intenções, circunstâncias e conseqüências.

Quando da leitura de um importante ensaio de Max Weber, Politik als Beruf (A Política como Vocação), deparamo-nos com uma distinção de dois tipos de ética: Gesinnungsethik (ética da convicção) e Verantwortungsethik (ética da responsabilidade).

Antes de examinarmos o que entende ele por uma e por outra. Há uma passagem do parágrafo anterior em que ele as define, em que ele se refere a uma “ética absoluta” e tudo indica se tratar de uma alusão à ética kantiana:

Há , por fim, o dever da verdade. É também ele incondicional, do ponto de vista da ética absoluta (...) Para dizer a verdade, se existe um problema de que a ética absoluta não se ocupa, esse é o problema das conseqüências”(Weber, 1993, pp.112-3).

Weber considera as conseqüências da ação a coisa mais relevante na conduta ética e aqui é imprescindível que o deixemos se expressar em suas próprias palavras:

"Desembocamos, assim, na questão decisiva. Impõe-se que nos demos claramente conta do fato seguinte: toda a atividade orientada segundo a ética pode ser subordinada a duas máximas inteiramente diversas e irredutivelmente opostas. Pode orientar-se segundo a ética da responsabilidade ou segundo a ética da convicção. Isso não quer dizer que ética da convicção equivalha a ausência de responsabilidade e a ética da responsabilidade, a ausência de convicção. Não se trata disso, evidentemente.

Não obstante, há oposição profunda entre a atitude de quem se conforma às máximas da ética da convicção – diríamos, em linguagem religiosa, “O cristão cumpre seu dever e, quanto aos resultados da ação, confia em Deus – e a atitude de quem se orienta pela ética da responsabilidade, que diz: “Devemos responder pelas previsíveis conseqüências de nossos atos”. (Weber, 1993, p.113).

Está claro, portanto, que isso que Weber chama de “ética da convicção” nada mais é do que ética do tipo deontológico, ao passo que aquilo que Weber chama de “ética da responsabilidade” nada mais é do que ética do tipo teleológico. A máxima caracterizadora da primeira seria plenamente endossada por Kant, para quem tudo o que importa é o cumprimento cego do dever, sem dar a mínima importância para as previsíveis conseqüências da ação desempenhada.

O dever, por exemplo, é jamais mentir, ainda que a conseqüência de não mentir seja a morte da própria mãe * *. Pensador extremamente sensato, Weber se coloca visceralmente contra a tal da ética da convicção, que só pode alimentar os piores fanatismos trazendo as mais indesejáveis conseqüências. Primeiramente, Weber caracteriza o cego radicalismo incapaz de levar em consideração as conseqüências de uma ação:

"Perderá seu tempo quem busque mostrar, da maneira a mais persuasiva possível, a um sindicalista apegado à ética da convicção, que sua atitude não terá outro efeito senão o de fazer aumentarem as possibilidades de reação, de retardar a ascensão de sua classe e de rebaixá-la ainda mais – o sindicalista não acreditará".

Posteriormente, ele caracteriza os expedientes ad hoc de que costumam se servir os partidários da ética da convicção:

"Quando as conseqüências de um ato praticado por pura convicção se revelam desagradáveis, o partidário de tal ética não atribuirá responsabilidade ao agente, mas ao mundo, à tolice dos homens ou à vontade de Deus, que assim criou os homens. O partidário da ética da responsabilidade, ao contrário, contará com as fraquezas comuns do homem (pois, como dizia muito procedentemente Fichte, não temos o direito de pressupor a bondade e a perfeição do homem) e entenderá que não pode lançar a ombros alheios as conseqüências previsíveis de sua própria ação. Dirá, portanto, “Essas conseqüências são imputáveis à minha própria ação”. (Weber, 1993, pp.113-4).

Parece que o protonazista Johann Gottleib Fichte (1762-1814) tinha ao menos o mérito de ser contra, avant la lettre, o desequilibrado J.J.Rousseau e seu nobre selvagem.

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* Referimo-nos ao nosso ensaio inédito Sete Tipos de Mentira: seus aspectos lógicos, psicológicos e éticos.

* Vide nosso artigo: Argumentando contra Kant.

Referências Bibliográficas
1. Guerreiro, M. (2004) “Argumentando contra Kant: em defesa da mentira dentro de especiais condições”. em Tempo Brasileiro. no. 159.
2. Weber, M. (1993) A política como vocação e A ciência como vocação. São Paulo, Cultrix.

Ao longo deste ensaio*, estivemos trabalhando com uma importante dicotomia entre dois tipos de ética: a deontológica e a teleológica. Como dissemos, caracteriza o primeiro as éticas de Immanuel Kant e Joseph Butler; caracteriza o segundo as éticas de Aristóteles e John Stuart Mill.

Como vimos, de acordo com uma ética deontológica, tudo que importa é o cumprimento de uma norma de justa conduta, sem levar em consideração as intenções do agente, as circunstâncias em que ele exerce sua ação e as previsíveis conseqüências advindas desta mesma. No entanto, de acordo com uma ética teleológica, o agente não deve deixar nunca de levar em consideração justamente aquilo que a deontológica desconsidera: intenções, circunstâncias e conseqüências.

Quando da leitura de um importante ensaio de Max Weber, Politik als Beruf (A Política como Vocação), deparamo-nos com uma distinção de dois tipos de ética: Gesinnungsethik (ética da convicção) e Verantwortungsethik (ética da responsabilidade).

Antes de examinarmos o que entende ele por uma e por outra. Há uma passagem do parágrafo anterior em que ele as define, em que ele se refere a uma “ética absoluta” e tudo indica se tratar de uma alusão à ética kantiana:

Há , por fim, o dever da verdade. É também ele incondicional, do ponto de vista da ética absoluta (...) Para dizer a verdade, se existe um problema de que a ética absoluta não se ocupa, esse é o problema das conseqüências”(Weber, 1993, pp.112-3).

Weber considera as conseqüências da ação a coisa mais relevante na conduta ética e aqui é imprescindível que o deixemos se expressar em suas próprias palavras:

"Desembocamos, assim, na questão decisiva. Impõe-se que nos demos claramente conta do fato seguinte: toda a atividade orientada segundo a ética pode ser subordinada a duas máximas inteiramente diversas e irredutivelmente opostas. Pode orientar-se segundo a ética da responsabilidade ou segundo a ética da convicção. Isso não quer dizer que ética da convicção equivalha a ausência de responsabilidade e a ética da responsabilidade, a ausência de convicção. Não se trata disso, evidentemente.

Não obstante, há oposição profunda entre a atitude de quem se conforma às máximas da ética da convicção – diríamos, em linguagem religiosa, “O cristão cumpre seu dever e, quanto aos resultados da ação, confia em Deus – e a atitude de quem se orienta pela ética da responsabilidade, que diz: “Devemos responder pelas previsíveis conseqüências de nossos atos”. (Weber, 1993, p.113).

Está claro, portanto, que isso que Weber chama de “ética da convicção” nada mais é do que ética do tipo deontológico, ao passo que aquilo que Weber chama de “ética da responsabilidade” nada mais é do que ética do tipo teleológico. A máxima caracterizadora da primeira seria plenamente endossada por Kant, para quem tudo o que importa é o cumprimento cego do dever, sem dar a mínima importância para as previsíveis conseqüências da ação desempenhada.

O dever, por exemplo, é jamais mentir, ainda que a conseqüência de não mentir seja a morte da própria mãe * *. Pensador extremamente sensato, Weber se coloca visceralmente contra a tal da ética da convicção, que só pode alimentar os piores fanatismos trazendo as mais indesejáveis conseqüências. Primeiramente, Weber caracteriza o cego radicalismo incapaz de levar em consideração as conseqüências de uma ação:

"Perderá seu tempo quem busque mostrar, da maneira a mais persuasiva possível, a um sindicalista apegado à ética da convicção, que sua atitude não terá outro efeito senão o de fazer aumentarem as possibilidades de reação, de retardar a ascensão de sua classe e de rebaixá-la ainda mais – o sindicalista não acreditará".

Posteriormente, ele caracteriza os expedientes ad hoc de que costumam se servir os partidários da ética da convicção:

"Quando as conseqüências de um ato praticado por pura convicção se revelam desagradáveis, o partidário de tal ética não atribuirá responsabilidade ao agente, mas ao mundo, à tolice dos homens ou à vontade de Deus, que assim criou os homens. O partidário da ética da responsabilidade, ao contrário, contará com as fraquezas comuns do homem (pois, como dizia muito procedentemente Fichte, não temos o direito de pressupor a bondade e a perfeição do homem) e entenderá que não pode lançar a ombros alheios as conseqüências previsíveis de sua própria ação. Dirá, portanto, “Essas conseqüências são imputáveis à minha própria ação”. (Weber, 1993, pp.113-4).

Parece que o protonazista Johann Gottleib Fichte (1762-1814) tinha ao menos o mérito de ser contra, avant la lettre, o desequilibrado J.J.Rousseau e seu nobre selvagem.

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* Referimo-nos ao nosso ensaio inédito Sete Tipos de Mentira: seus aspectos lógicos, psicológicos e éticos.

* Vide nosso artigo: Argumentando contra Kant.

Referências Bibliográficas
1. Guerreiro, M. (2004) “Argumentando contra Kant: em defesa da mentira dentro de especiais condições”. em Tempo Brasileiro. no. 159.
2. Weber, M. (1993) A política como vocação e A ciência como vocação. São Paulo, Cultrix.

Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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