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08 Mai 2008

Voltaire e a Natureza da Refutação Filosófica - Parte I

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Rousseau foi o maior adversário do pensamento iluminista, ao passo que Voltaire foi o próprio símbolo do Iluminismo.

Como vimos no capítulo anterior, Rousseau foi o maior adversário do pensamento iluminista, ao passo que Voltaire foi o próprio símbolo do Iluminismo. Dizemos isto não por considerá-lo o pensador mais profundo, porém por sua figura ímpar, por suas perspicácia e eficácia na divulgação das idéias de esclarecimento e de progresso da humanidade. Apesar disto, a crítica contemporânea em geral não costuma fazer jus aos méritos e deméritos de ambos os pensadores. No tocante a Rousseau, nota-se uma grande complacência em relação aos seus desatinos e à sua perniciosa influência histórica, no tocante a Voltaire não costuma haver um reconhecimento do seu pensamento como “filosófico” no sentido rigoroso do termo.

Na comunidade acadêmica, Rousseau ainda goza hoje de grande prestígio, particularmente nos domínios da filosofia moral e da filosofia política. Não só costuma ser figura obrigatória em cursos sobre a história das idéias políticas (em que Voltaire raramente se faz presente) como também costuma ser objeto de incontáveis artigos e teses de doutorado. Embora se admita sem maiores discussões a inclusão de Voltaire em qualquer abordagem da literatura no século XVIII - pois há o consenso de que se trata de um dos maiores escritores da sua e de todas as épocas - os historiadores da filosofia não costumam conceder o status de filósofo ao autor de Zadig e Cândido.

Costuma-se alegar que Voltaire não escreveu nada que possa ser rigorosamente considerado um tratado de filosofia em nenhum dos seus domínios clássicos (metafísica, teoria do conhecimento, ética, etc.). É verdade que, além do já mencionado Ensaio sobre Os Costumes, ele escreveu um Dicionário Filosófico, porém este não se enquadra nos moldes de um dicionário de filosofia em que os principais termos técnicos, das mais variadas escolas do passado e do presente, costumam ser enfileirados em ordem alfabética. A referida obra de Voltaire apresentava esta ordem, mas seus verbetes obedeciam a um único critério: tópicos considerados relevantes do ponto de vista dos interesses pessoais do autor e do seu senso crítico, coisa que gerava não só desmesurada parcialidade como também inaceitáveis lacunas. Não faz muito tempo, um importante filósofo analítico, W.V.O. Quine, para a grande surpresa de seus leitores, publicou um trabalho em que diz:

Este é um livro de uma série frouxamente ligada de livros inspirados no Dicionário Filosófico de Voltaire. Como ele próprio observou a respeito do Santo Império Romano, mutatis mutandis sua obra não era filosófica nem constituía um dicionário. O meu é filosófico em parte, porém temas de menor importância ocupam mais da metade do livro e me proporcionaram mais que meia diversão, apesar da filosofia no todo não ser assunto para riso. (Quine,1987, Prefácio).

De fato, o assim chamado Santo Império Romano, como observara aguçadamente Voltaire, não tinha nada de “romano” e menos ainda de “santo”, assim como no nosso tempo, a República Democrática Alemã (a ex-Alemanha Oriental) - separada da República Federal Alemã (ex-Alemanha Ocidental) pelo Muro da Vergonha - não podia ser considerada uma “república” e menos ainda “democrática”. Mas no que se refere à mencionada obra de Voltaire, devemos entender que basta a disposição em ordem alfabética, para que fique caracterizado um dicionário, ou devemos entender que um dicionário é algo mais que um catálogo telefônico de assinantes? Admitindo que possa ser considerada um autêntico dicionário, resta indagar se merece a qualificação recebida. Evidentemente, tudo depende do que venhamos a entender por “filosófico”. A respeito dessa mesma obra, disse um conhecido filósofo britânico:

Na sua forma original, o Dictionnaire Philosophique Portatif (Dicionário Filosófico de Bolso) era um nome tão equivocado quanto “Santo Império Romano”. Poucos dos 118 verbetes de que ele consistia eram filosóficos no sentido corrente do termo, e a única razão para que ele constituísse um dicionário era a sua apresentação em ordem alfabética. Voltaire teve idéia de fazer um dicionário desse tipo quando estava morando em Berlim em 1752, mas só o publicou em 1764 em Londres. Como se tratava predominantemente de um ataque às teorias e práticas de diversas formas de cristianismo, mostrando pouco respeito pelo Novo Testamento e nenhum pelo Antigo Testamento, foi encarado como ultrajantemente subversivo, ao ponto de Voltaire ter considerado uma questão de prudência a negação da sua autoria. (Ayer, 1986, p. 108, o grifo é nosso).

De acordo ainda com Ayer, a partir de 1770 novos editores foram acrescentando novos verbetes extraídos de ensaios de Voltaire, de tal modo que na edição das suas obras completas em 1878,a mencionada obra tinha deixado de ser um dicionário de bolso, pois contava com mais de 600 verbetes totalizando mais de 2.500 páginas. Como vimos, Quine considerou que seu dicionário era filosófico em parte, ao passo que o de Voltaire simplesmente não o era. Por sua vez, Ayer, um pouco mais generoso em relação ao pensador francês, admitiu que ao menos alguns dos 118 verbetes da edição original eram filosóficos no sentido corrente do termo.

Mas qual é este “sentido corrente”? Qual a correta aplicação do adjetivo “filosófico”? Estamos seguros de que o predicado “é filosófico” não é tão fácil de ser aplicado quanto os predicados “é solúvel em água” ou “é um múltiplo de 5”. Contudo, insistimos em fazer esta espinhosa indagação, porque há uma importante decisão a ser tomada no que diz respeito à natureza do discurso voltairiano e à sua inclusão ou não-inclusão na história da filosofia. De modo a responder a já situada indagação, temos de tentar responder a uma outra: O que faz com que um texto seja considerado um texto filosófico, ou melhor: Supondo que existam, quais as características definitórias de um texto filosófico?

Como vimos no capítulo anterior, Rousseau foi o maior adversário do pensamento iluminista, ao passo que Voltaire foi o próprio símbolo do Iluminismo. Dizemos isto não por considerá-lo o pensador mais profundo, porém por sua figura ímpar, por suas perspicácia e eficácia na divulgação das idéias de esclarecimento e de progresso da humanidade. Apesar disto, a crítica contemporânea em geral não costuma fazer jus aos méritos e deméritos de ambos os pensadores. No tocante a Rousseau, nota-se uma grande complacência em relação aos seus desatinos e à sua perniciosa influência histórica, no tocante a Voltaire não costuma haver um reconhecimento do seu pensamento como “filosófico” no sentido rigoroso do termo.

Na comunidade acadêmica, Rousseau ainda goza hoje de grande prestígio, particularmente nos domínios da filosofia moral e da filosofia política. Não só costuma ser figura obrigatória em cursos sobre a história das idéias políticas (em que Voltaire raramente se faz presente) como também costuma ser objeto de incontáveis artigos e teses de doutorado. Embora se admita sem maiores discussões a inclusão de Voltaire em qualquer abordagem da literatura no século XVIII - pois há o consenso de que se trata de um dos maiores escritores da sua e de todas as épocas - os historiadores da filosofia não costumam conceder o status de filósofo ao autor de Zadig e Cândido.

Costuma-se alegar que Voltaire não escreveu nada que possa ser rigorosamente considerado um tratado de filosofia em nenhum dos seus domínios clássicos (metafísica, teoria do conhecimento, ética, etc.). É verdade que, além do já mencionado Ensaio sobre Os Costumes, ele escreveu um Dicionário Filosófico, porém este não se enquadra nos moldes de um dicionário de filosofia em que os principais termos técnicos, das mais variadas escolas do passado e do presente, costumam ser enfileirados em ordem alfabética. A referida obra de Voltaire apresentava esta ordem, mas seus verbetes obedeciam a um único critério: tópicos considerados relevantes do ponto de vista dos interesses pessoais do autor e do seu senso crítico, coisa que gerava não só desmesurada parcialidade como também inaceitáveis lacunas. Não faz muito tempo, um importante filósofo analítico, W.V.O. Quine, para a grande surpresa de seus leitores, publicou um trabalho em que diz:

Este é um livro de uma série frouxamente ligada de livros inspirados no Dicionário Filosófico de Voltaire. Como ele próprio observou a respeito do Santo Império Romano, mutatis mutandis sua obra não era filosófica nem constituía um dicionário. O meu é filosófico em parte, porém temas de menor importância ocupam mais da metade do livro e me proporcionaram mais que meia diversão, apesar da filosofia no todo não ser assunto para riso. (Quine,1987, Prefácio).

De fato, o assim chamado Santo Império Romano, como observara aguçadamente Voltaire, não tinha nada de “romano” e menos ainda de “santo”, assim como no nosso tempo, a República Democrática Alemã (a ex-Alemanha Oriental) - separada da República Federal Alemã (ex-Alemanha Ocidental) pelo Muro da Vergonha - não podia ser considerada uma “república” e menos ainda “democrática”. Mas no que se refere à mencionada obra de Voltaire, devemos entender que basta a disposição em ordem alfabética, para que fique caracterizado um dicionário, ou devemos entender que um dicionário é algo mais que um catálogo telefônico de assinantes? Admitindo que possa ser considerada um autêntico dicionário, resta indagar se merece a qualificação recebida. Evidentemente, tudo depende do que venhamos a entender por “filosófico”. A respeito dessa mesma obra, disse um conhecido filósofo britânico:

Na sua forma original, o Dictionnaire Philosophique Portatif (Dicionário Filosófico de Bolso) era um nome tão equivocado quanto “Santo Império Romano”. Poucos dos 118 verbetes de que ele consistia eram filosóficos no sentido corrente do termo, e a única razão para que ele constituísse um dicionário era a sua apresentação em ordem alfabética. Voltaire teve idéia de fazer um dicionário desse tipo quando estava morando em Berlim em 1752, mas só o publicou em 1764 em Londres. Como se tratava predominantemente de um ataque às teorias e práticas de diversas formas de cristianismo, mostrando pouco respeito pelo Novo Testamento e nenhum pelo Antigo Testamento, foi encarado como ultrajantemente subversivo, ao ponto de Voltaire ter considerado uma questão de prudência a negação da sua autoria. (Ayer, 1986, p. 108, o grifo é nosso).

De acordo ainda com Ayer, a partir de 1770 novos editores foram acrescentando novos verbetes extraídos de ensaios de Voltaire, de tal modo que na edição das suas obras completas em 1878,a mencionada obra tinha deixado de ser um dicionário de bolso, pois contava com mais de 600 verbetes totalizando mais de 2.500 páginas. Como vimos, Quine considerou que seu dicionário era filosófico em parte, ao passo que o de Voltaire simplesmente não o era. Por sua vez, Ayer, um pouco mais generoso em relação ao pensador francês, admitiu que ao menos alguns dos 118 verbetes da edição original eram filosóficos no sentido corrente do termo.

Mas qual é este “sentido corrente”? Qual a correta aplicação do adjetivo “filosófico”? Estamos seguros de que o predicado “é filosófico” não é tão fácil de ser aplicado quanto os predicados “é solúvel em água” ou “é um múltiplo de 5”. Contudo, insistimos em fazer esta espinhosa indagação, porque há uma importante decisão a ser tomada no que diz respeito à natureza do discurso voltairiano e à sua inclusão ou não-inclusão na história da filosofia. De modo a responder a já situada indagação, temos de tentar responder a uma outra: O que faz com que um texto seja considerado um texto filosófico, ou melhor: Supondo que existam, quais as características definitórias de um texto filosófico?

Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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