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01 Ago 2004

Lula Rides Again

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E quando todo mundo estava pensando que tinham acabado as viagens de Lulinha Paz e Amor a bordo do Sucatão através dos céus do Terceiro Mundo... tal como Durango Kid, Lulinha rides again

E quando todo mundo estava pensando que tinham acabado as viagens de Lulinha Paz e Amor a bordo do Sucatão através dos céus do Terceiro Mundo... tal como Durango Kid, Lulinha rides again. Não quis esperar pelo Airbus igualzinho ao de George W. Bush, que já foi encomendado e está demorando a ficar pronto (mas certamente será entregue por via área). Não, não, na falta de roupa nova, passa-se o ferro na velha e enquanto não vem o Bonzão serve mesmo o Sucatão. E lá se foi novamente nosso garoto-propaganda, especializado em marquetingue negativo, mas não de volta à China ou em visita a Taiwan, pois est’última já tem contatos comerciais informais com o Paraguai há muito tempo. Dizem até que o novo Palácio do Governo paraguaio - coisa pra Niemeyer nenhum botar defeito - foi dado de presente pelo governo de Formosa, que não é nenhuma mulher de belas formas, mas sim Taiwan.

O Japão, como se sabe, não tem quaisquer riquezas naturais, apesar de ter se tornado o segundo país mais rico do mundo, mas a África é um continente de infindáveis riquezas: petróleo, ouro, diamantes, urânio, marfim e ébano pra teclas de piano und so weiter,  apesar de não conseguir superar a terrível miséria que a assola. De onde se infere que recursos naturais não geram necessariamente riquezas econômicas, e a ausência dos mesmos não condena nenhum país à indigência e à impossibilidade de desenvolvimento socioeconômico. E afinal de contas, pondo em prática a teoria das vantagens comparativas, mais vale atravessar um deserto tendo água para beber, comida para comer e conveniente proteção solar do que morrer à  míngua nos belos  jardins do paraíso.

Ao que parece, a viagem de Lulinha Paz e Amor teve seu começo nas Ilhas São Tomé e Príncipe situadas no Golfo da Guiné. Não faz tanto tempo assim e tais ilhas eram das mais miseráveis colônias portuguesas a exemplo de Timor Leste. Emanciparam-se am-bas, mas, ao que tudo indica, São Tomé e Príncipe possuem algumas vantagens em relação àquele lugarejo nos confins da Ásia: a identidade cultural é mais acentuada, a maioria de sua população fala português, enquanto que em Timor Leste só uma minoria fala uma língua comum: o resto é assustadora diversidade de línguas e etnias e nenhuma identidade cultural. Quando um incêndio destruiu uma parte do magnífico palácio de Windsor – que, diferentemente de Buckingham, é propriedade privada de Sua Majestade, Elisabete II – foi descoberto petróleo nos jardins dos fundos. Vá ter sorte assim em Pindamonhangaba! E quando se pensava que de São Tomé e Príncipe nada sairia, a não ser lamúrias e imprecações contra a dureza da vida, foram descobertos fartos lençóis petrolíferos nas ilhas.

A Braspetro (este é o nome de guerra da Petrobras atuante no exterior) bem que poderia extrair o ouro negro naquelas pairagens africanas, e o leitor pode até estar pensan-do que Lulinha Paz e Amor foi em busca de um bom contrato de exploração, não da vil ex-ploração econômica do perverso capitalista, é claro, mas da exploração de petróleo de um país inteiramente carente de tecnologia para fazer tal coisa. Só há um pequeno inconveniente: não o de que não disponhamos de adequado know-how, porém o de que os americanos chegaram primeiro. É impressionante como eles farejam petróleo até no gelado Alaska!

Dessa nova rodada de visitas africanas, pouco posso dizer, porque a viagem ainda está em curso, mas sei que Lulinha Paz e Amor já passou pelo Gabão, onde em notável discurso de improviso, fez uma brilhante distinção entre “democracia política” e “democracia econômica”. Só não explicitou no que precisamente consistia a mesma. Alguns espíritos, destes que só conseguem ver defeitos no referido estadista (ou estatista?), ficam dizendo por aí que a primeira expressão é um indesejável pleonasmo (pois se é democracia, só pode ser política) e a segunda um rematado contra-senso, pois em economia não há escolhas de representantes políticos: há escolhas dos consumidores (quando estes gozam de leques de opções e não há reservas de mercado, nem monopólios,  nem outros atentados ao mercado aberto) e as únicas formas de igualdade que podem ser justamente reivindicadas são a igualdade de oportunidades e a de  regras de desempenho.

Não falo da igualdade perante a lei, pois esta é a que o estado de direito fornece como base indispensável para a atividade econômica eficiente, mas que em si mesma não é uma questão de ciência econômica, porém jurídico-política. E não falo da igualdade perante os vermes da terra, pois - apesar desta ser o fim de ricos e pobres, bem-sucedidos ou mal-sucedidos neste mundo - qualquer economista há de inseri-la na categoria das “externalidades”. Mas se me perguntarem o que pode sair do Gabão, excetuando mais um voto para o Brasil entrar no Conselho de Segurança da ONU e mais uma aclamação de Lula como Sua Majestade, o Rei dos Mendigos, confesso que não consigo imaginar o que possa ser. Mas não tenho a menor dúvida de que muito mais interessante do que o Gabão é o Goiabão e o jogo de gamão.

Ah! Ja me esquecendo... No Gabão, Lulinha Paz e Amor assinou três importantíssi-mos acordos internacionais: (1) de colaboração no diagnóstico da malária (especialidade da avançada medicina gabona ou gabense – sei lá,  (2) de diminuição da taxa de exclusão di-gital (e para isto, o Brasil já mostrou sua boa vontade dando 10 computadores para o Gabão) e finalmente (3) envio de equipe técnica da EMBRAPA, para aperfeiçoar o cultivo da mandioca (aipim ou macaxeira) nas lavouras gabonas ou gabenses. E com tudo isto, ainda tem gente que fica dizendo por aí que essas viagens de Lula não trazem nenhum benefício para o país. Pode até ser, mas não se pode negar que levam benefícios como, por exemplo,  o perdão da dívida de R$ 1.000.000.000, 00 que Moçambique tinha com o Brasil. Que louvável ato de generosidade! Ah! Se nossos credores se mirassem neste exemplo...

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:20
Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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