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24 Abr 2008

Dos Malefícios da Confusão

Escrito por 

É de enojar ouvirmos pessoas dando seus pareceres sobre Doutrina Católica e Filosofia Grega sem ao menos ter lido um livro que verse sobre esses assuntos.

"Contra a estupidez os próprios deuses lutam em vão." (Friedrich Schiller)

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Tinha o intento de deitar minha pena sobre outro tema que inquieta minha mente, porém, a teimosia atroz obriga este insignificante escriba a colocar seu tinteiro digital a borrar algumas palavras que nos levarão por veredas que, confesso, não eram as que eu tinha em mente, mas que julgo ser necessária à retomada de questiúnculas aparentemente imersas na obviedade do cotidiano.

Simplesmente sou tirado do sério quando um destes tipinhos, que pelas circunstâncias de Cronos, sou obrigado a chamar de concidadão e por força de minhas convicções, devo chamar de irmão, me vêem com aquelas considerações tacanhas sobre uma pessoa e outra fundamentando simplesmente os seus juízos (ou total falta deles) na aparência externa da pessoa.

Fico enfurecido, confesso. Porém, não é tanto com o gesto de biltres descarados desta vulgar estirpe, mas sim porque sua feição caricata e parva aviva minha memória fazendo-a gritar sobre o que é ser brasileiro.

Julgar pela aparência a capacidade intelectiva de um indivíduo é algo corriqueiro em nossa civitas putrefaz. Não nos esqueçamos que nosso país é uma pátria de pseudo-doutos, que ostenta com gosto, e sem a menor vergonha, títulos para poder melhor afirmar a sua insignificância. Vivemos em uma sociedade onde abundam os indivíduos detentores de um canudo que certifica que eles passaram por dentro de uma Instituição de Ensino Superior sem nunca ter lido uma obra inteira.

Vivemos em uma sociedade de palpiteiros medíocres, de pessoas que preenchem suas horas vagas emitindo palpites sobre todos os assuntos que [depre]civicamente desdenham, sem nunca ter lido algo de substancial sobre o tema. É de enojar ouvirmos pessoas dando seus pareceres sobre Doutrina Católica e Filosofia Grega sem ao menos ter lido um livro que verse sobre esses assuntos.

Alias, é de deixar qualquer pessoa sensata com os culhões cheios, ter que ouvir alguém chamar o Sumo Pontífice de Nacional-Socialista (Nazista), e coisas do gênero, sem ao menos conhecer uma única de suas obras e, ao mesmo tempo, ser capaz de ver naquele facínora do Che Guevara uma figura “Santa”, similar a São Francisco de Assis, como consta em determinados materiais ditos didáticos recomendados pelo MEC.

Deveria nos causar escândalo termos que ver a presença da fala de uma ONG abortista em um DVD que pretende ser feito “Em defesa da Vida”. Deveria, se nossa sociedade não fosse covarde, se nós não fôssemos tão pusilânimes, se não fôssemos tão superficiais e vulgares, pois é isso que somos enquanto sociedade e, principalmente, enquanto pessoas.

Amamos a baixeza, visto que, ocupamos boa parte de nosso tempo livre para a nossa diminuição pessoal e assim, desde modo, colaborando sorrateiramente para o engrandecimento de nossa esbórnia civilizacional.

O que, alias, é mais do que previsível. Como esperar algo melhor de uma sociedade em que as pessoas adotam como esporte oficial o tricotar sobre peculiaridades da vida alheia? De mais a mais, como exigir que esses corvos da intimidade miúda façam outra coisa se elas apenas lêem o resumo das novelas e os parvos comentários futebolísticos ou uma e outra fofoca dos bastidores do Planalto Central que foram publicados em um tablóide qualquer?

É chato ter que ficar escrevendo sobre obviedades, mas as vezes temos que fazê-lo justamente para que elas tomem o lugar que lhes é merecido, ainda mais quando essa está sendo escondida debaixo do tapete o tempo todo. A nossa superficialidade, enquanto quase-pessoa, não aceita aviltamento de nenhuma monta, não é mesmo?

Por essas e outras que Santa Tereza de Ávila nos ensina vivamente que o pior ladrão dos méritos humanos que existe é a acomodação. Não é à toa que vivemos uma existência confusa e nos julgamos estar acima de todos como se nosso intelecto estivesse abrigado junto ao Monte Olimpo.

Ainda sobre esse turvo tema, Santa Tereza nos lembra outra grande obviedade que tanto desdenhamos: não podemos oferecer a ninguém o que não possuímos e que, diga-se de passagem, não nos esforçamos em adquirir.

Sim, tal lição é obvia, mas com o mesmíssimo tom de obviedade continuamos a imaginar cinicamente que poderemos melhorar a sociedade sem cultivarmos algo de melhor em nós mesmos. E como são raríssimas as pessoas que desejam com sinceridade se tornarem simplesmente melhores do que são, continuaremos por muitas e muitas gerações a fingirmos ser o que nunca seremos: seres humanos realizados em sua plenitude por tanto amarmos, estupidamente, as nossas falas vazias e nossas vidas destituídas de sentido.

E tenho dito.

"Contra a estupidez os próprios deuses lutam em vão." (Friedrich Schiller)

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Tinha o intento de deitar minha pena sobre outro tema que inquieta minha mente, porém, a teimosia atroz obriga este insignificante escriba a colocar seu tinteiro digital a borrar algumas palavras que nos levarão por veredas que, confesso, não eram as que eu tinha em mente, mas que julgo ser necessária à retomada de questiúnculas aparentemente imersas na obviedade do cotidiano.

Simplesmente sou tirado do sério quando um destes tipinhos, que pelas circunstâncias de Cronos, sou obrigado a chamar de concidadão e por força de minhas convicções, devo chamar de irmão, me vêem com aquelas considerações tacanhas sobre uma pessoa e outra fundamentando simplesmente os seus juízos (ou total falta deles) na aparência externa da pessoa.

Fico enfurecido, confesso. Porém, não é tanto com o gesto de biltres descarados desta vulgar estirpe, mas sim porque sua feição caricata e parva aviva minha memória fazendo-a gritar sobre o que é ser brasileiro.

Julgar pela aparência a capacidade intelectiva de um indivíduo é algo corriqueiro em nossa civitas putrefaz. Não nos esqueçamos que nosso país é uma pátria de pseudo-doutos, que ostenta com gosto, e sem a menor vergonha, títulos para poder melhor afirmar a sua insignificância. Vivemos em uma sociedade onde abundam os indivíduos detentores de um canudo que certifica que eles passaram por dentro de uma Instituição de Ensino Superior sem nunca ter lido uma obra inteira.

Vivemos em uma sociedade de palpiteiros medíocres, de pessoas que preenchem suas horas vagas emitindo palpites sobre todos os assuntos que [depre]civicamente desdenham, sem nunca ter lido algo de substancial sobre o tema. É de enojar ouvirmos pessoas dando seus pareceres sobre Doutrina Católica e Filosofia Grega sem ao menos ter lido um livro que verse sobre esses assuntos.

Alias, é de deixar qualquer pessoa sensata com os culhões cheios, ter que ouvir alguém chamar o Sumo Pontífice de Nacional-Socialista (Nazista), e coisas do gênero, sem ao menos conhecer uma única de suas obras e, ao mesmo tempo, ser capaz de ver naquele facínora do Che Guevara uma figura “Santa”, similar a São Francisco de Assis, como consta em determinados materiais ditos didáticos recomendados pelo MEC.

Deveria nos causar escândalo termos que ver a presença da fala de uma ONG abortista em um DVD que pretende ser feito “Em defesa da Vida”. Deveria, se nossa sociedade não fosse covarde, se nós não fôssemos tão pusilânimes, se não fôssemos tão superficiais e vulgares, pois é isso que somos enquanto sociedade e, principalmente, enquanto pessoas.

Amamos a baixeza, visto que, ocupamos boa parte de nosso tempo livre para a nossa diminuição pessoal e assim, desde modo, colaborando sorrateiramente para o engrandecimento de nossa esbórnia civilizacional.

O que, alias, é mais do que previsível. Como esperar algo melhor de uma sociedade em que as pessoas adotam como esporte oficial o tricotar sobre peculiaridades da vida alheia? De mais a mais, como exigir que esses corvos da intimidade miúda façam outra coisa se elas apenas lêem o resumo das novelas e os parvos comentários futebolísticos ou uma e outra fofoca dos bastidores do Planalto Central que foram publicados em um tablóide qualquer?

É chato ter que ficar escrevendo sobre obviedades, mas as vezes temos que fazê-lo justamente para que elas tomem o lugar que lhes é merecido, ainda mais quando essa está sendo escondida debaixo do tapete o tempo todo. A nossa superficialidade, enquanto quase-pessoa, não aceita aviltamento de nenhuma monta, não é mesmo?

Por essas e outras que Santa Tereza de Ávila nos ensina vivamente que o pior ladrão dos méritos humanos que existe é a acomodação. Não é à toa que vivemos uma existência confusa e nos julgamos estar acima de todos como se nosso intelecto estivesse abrigado junto ao Monte Olimpo.

Ainda sobre esse turvo tema, Santa Tereza nos lembra outra grande obviedade que tanto desdenhamos: não podemos oferecer a ninguém o que não possuímos e que, diga-se de passagem, não nos esforçamos em adquirir.

Sim, tal lição é obvia, mas com o mesmíssimo tom de obviedade continuamos a imaginar cinicamente que poderemos melhorar a sociedade sem cultivarmos algo de melhor em nós mesmos. E como são raríssimas as pessoas que desejam com sinceridade se tornarem simplesmente melhores do que são, continuaremos por muitas e muitas gerações a fingirmos ser o que nunca seremos: seres humanos realizados em sua plenitude por tanto amarmos, estupidamente, as nossas falas vazias e nossas vidas destituídas de sentido.

E tenho dito.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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