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31 Jul 2004

Os Ateus

Escrito por 

Advertência. É provável que parte considerável do público leitor venha a achar o título deste artigo – e o seu conteúdo – uma provocação, mas é importante para mim que eu enfrente o tema proposto. Além da sua paciência, meu caro leitor, espero também a sua tolerância. Falar dos ateus é falar do tema religioso, algo naturalmente polêmico.]

“As formas são conhecidas, a alma conhece”
Guthrie


Considero que os ateus podem ser classificados em quatro grandes grupos distintos, a saber: 1- Os degenerados; 2- Os indiferentes; 3- Os socialistas; e 4- Os liberais. Essa taxonomia evidentemente não procura esgotar o assunto, mas julgo que é uma classificação útil aos propósitos desse texto.

Enfatizo que compreender o ateísmo não é uma questão menor, pois a perda dos valores judaico-cristãos está na raiz da crise existencial que tomou conta do Ocidente desde o século XIX, a rigor desde a Revolução Francesa. O desdobramento político dessa crise teve seu ápice no século XX, especialmente com o advento das Grandes Guerras e as chamadas guerras revolucionárias que explodiram em todos os quadrantes do mundo. Foi uma carnificina inominável. Em paralelo, mas não menos importante, a desagregação dos costumes engendrou uma regressão civilizacional pela qual o sagrado foi paulatinamente deixado de lado.

Comecemos pelo começo. À falta de melhor denominação, chamei o primeiro grupo de degenerados porque são aqueles radicalmente desamparados pelo Espírito. São aqueles que se entregaram desbragadamente ao hedonismo mais destrutivo, qual seja, ao consumo de drogas, à depravação sexual e à violência como meio de vida. São os desenraizados, formando provavelmente a maior parte da população que povoa os hospícios e as prisões, bem como os hospitais e clínicas de saúde. Há visivelmente um elo deligação entre a perda da referência do sagrado e a destruição despudorada do corpo e da ética. A falta de valores morais, a destruição do núcleo familiar e a entrega incondicional a um modo de viver marginal são decorrência direta do desamparo espiritual.

O grupo dos indiferentes, por seu lado, é constituído por aqueles indivíduos que não tiveram qualquer formação religiosa ou, se a tiveram, largaram-na pelo caminho. São as almas ressecadas pelos ventos da modernidade, levando uma existência espiritual anódina, embora mantendo uma vida dentro da normalidade. Pode constituir uma grande maioria, que é o celeiro de onde migram os indivíduos que irão formar os outros grupos ateus. As pessoas desse grupo romperam com a Tradição, tornando-se vítimas potenciais dos substitutos seculares das religiões. Caracterizam-se por um ateísmo não militante.

O grupo dos ateus socialistas, ao contrário, faz da militância contra os valores judaico-cristãos o centro de sua ação no mundo. Detratam na verdade todas as formas de religiões, acusando-as de alienarem a Humanidade, embora possam, de forma tática, apoiar seitas heréticas e exóticas que neguem e contradigam o cristianismo. Propõem, especialmente na sua forma marxista-leninista, a destruição pura e simples da Tradição, inclusive pelo método da “solução final”, de triste memória. São os inimigos ativos do sagrado, o maior de todos os perigos, a quem os cristãos poderiam, com propriedade, chamar de adoradores do Anti-Cristo.

Os liberais são um caso muito especial. Declaram-se ateus e, por vezes, militam também contra a tradição religiosa. Quando, todavia, analisamos a sua ética e os seus valores, podemos ver que são tributários, pelo menos no âmbito da filosofia política, do que há de mais caro aos valores ocidentais. Na verdade, pagam tributo no altar do Deus de nossos pais. Não haveria nem liberalismo econômico e nem liberalismo político se não tivéssemos dois mil anos de cristianismo. É um caso paradoxal.

Alguém poderia argumentar que há um grupo grande de ateus que são “crentes” no positivismo científico, entre eles os darwinistas, os freudianos, os behavioristas e tutti quantti. Considero que esses indivíduos podem ser facilmente distribuídos nos grupos acima referidos, não constituindo um grupo em separado.

Em comum com o paganismo, o ateísmo militante carrega consigo o relativismo moral que dá origem a toda sorte de violência, seja política, em grande escala, seja no varejo, anônima, que acontece cotidianamente nas esquinas das grandes cidades do mundo. Sem os Dez Mandamentos ou algo equivalente termina o fundamento sólido da moral individual, criando-se um campo livre para Beemoth, o símbolo da violência típica das massas desembestadas. O duelo que se trava é entre a consciência e a inteireza moral, de um lado, e a inconsciência e o relativismo moral, do outro. É o mundo servindo de palco para o enfrentamento entre o Bem e o Mal, cristalizados nas almas individuais. Sabemos que o Bem sempre vencerá no final, mas os últimos dois séculos mostraram a face horrenda dos exércitos telúricos. “Orai e vigiai” é mais que um apelo sensato, é uma condição de sobrevivência.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:20
José Nivaldo Cordeiro

José Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas na FGV-SP. Cristão, liberal e democrata, acredita que o papel do Estado deve se cingir a garantia da ordem pública. Professa a idéia de que a liberdade, a riqueza e a prosperidade devem ser conquistadas mediante esforço pessoal, afastando coletivismos e a intervenção estatal nas vidas dos cidadãos.

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