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09 Abr 2004

As Boas Notícias do Ministro Gushiken

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Em 1994, o então candidato Lula havia recebido dos mais elevados quadros do seu partido um calhamaço de 212 páginas. Era o Programa de Governo PT -94 que abordava, inclusive, temas de efeito sensacionalista e de teor moral provocando com isso reações negativas ao propor como programa político do governo a descriminalização do aborto e a legalização do casamento de homossexuais.

Em 1994, o então candidato Lula havia recebido dos mais elevados quadros do seu partido um calhamaço de 212 páginas. Era o Programa de Governo PT -94 que abordava, inclusive, temas de efeito sensacionalista e de teor moral provocando com isso reações negativas ao propor como programa político do governo a descriminalização do aborto e a legalização do casamento de homossexuais. Na época, essas questões desagradaram a Igreja católica, tradicional aliada do PT, e um coro de bispos e arcebispos, tanto os denominados de “conservadores”, quanto os chamados “progressistas”, se levantou em críticas veementes contra o que foi considerado como atentado à moral e à vida.

Outros programas previstos também chocaram, como o referente à desapropriação de terras por interesse social, sem menção de que tal ação seria feita “mediante prévia e justa indenização”, conforme artigo 184 da Constituição.

Com relação às Forças Armadas, o PT previa a existência de um só Ministério, o da Defesa, e estabelecia como única função das Três Armas a defesa das fronteiras (o artigo 142 da Constituição defini como funções das FFAA a defesa da Pátria, a garantia dos Poderes constituídos e da lei e da ordem), além da extinção do serviço militar. Estes projetos que diminuíam os poderes das FFAA foram feitos, entretanto, entre afagos aos meios militares.

No tocante aos meios de comunicação, os programas variavam entre a impossibilidade de executá-los e a intenção de por em prática a censura própria dos sistemas totalitários. Para começar, rezava o documento que: “Todo município terá direito a um canal de televisão”. Seguia-se, então, outra proposta impossível: “As concessões (de rádio e TV) terão prazo igual ao das legislaturas”. Para culminar, haveria a “obrigatoriedade da criação de comissões de redação em toda empresa, grande ou média, de comunicação”, o que significava a instalação oficial da censura de cunho exemplarmente stalinista.

Passou o tempo e o PT finalmente realizou seu sonho de poder ao alcançar na quarta eleição o posto mais alto da República. Na macroeconomia o governo petista deu um cavalo de pau ao seguir a política econômica do governo anterior, o que foi feito de forma mais ortodoxa, pois na verdade não havia outro jeito. Na campanha o mercado havia se tornado desconfiado com a perspectiva da vitória do candidato Lula dos discursos outrora incendiários, e era preciso reconquistar a confiança dos investidores. Assim foi feito porque era inviável governar de outra maneira. Na área social ficou-se na continua campanha e o presidente eleito limita-se a continuar a prometer. O Programa Fome Zero foi uma bela peça de propaganda, como os demais programas sociais até agora anunciados com pompas e honras, e o PT dos outrora pobres e oprimidos vai tentando seguir na trilha do governo anterior sem muito sucesso e com grande acento paternalista.

 Mas será que o PT mudou? Claro que não e existem vários exemplos da irredutibilidade da essência petista. Vejamos um deles: No dia 7 de abril, diante dos dirigentes da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), além do presidente da República que pronunciou algumas palavras de difícil tradução sobre falar ou não falar mal do governo, disse o chefe da Secretaria de Comunicação do Governo, Luiz Gushiken: “O Brasil está preparado, quer dizer os leitores, os telespectadores, os ouvintes estão ansiosos para saber o que germina em termos de coisas boas e este país está cheio de coisas boas. Mas é preciso que essa janela para o mundo, que tem vocês como elemento fundamental possa oferecer isso. No estágio brasileiro, acho que o critério importante é o da agenda positiva. Acho que o brasileiro tem necessidade de saber aqueles empreendimentos que a sociedade está oferecendo”. (O Estado de S. Paulo, 08/04/2004).

De fato, o Brasil teria tudo para dar certo, mas infelizmente somos mal governados, mal administrados e sempre tivemos um Estado grande demais, burocrático demais, incompetente demais, corrupto demais. No momento atual o desemprego é flagelo de milhões de brasileiros, a renda do trabalhador cai, os preços e os impostos sobem. Nesse contexto, ou se faz jornalismo realista ou se opta pelo marketing. Na ex-União Soviética, na China, em Cuba, só se davam ou só se dão boas notícias. Depois do ministro José Dirceu advertir procuradores e jornalistas, quem sabe o ministro Gushiken se lembrou das comissões de redação? Com certeza o PT das boas notícias não mudou.

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga e articulista

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:33
Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

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