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13 Abr 2008

Ostracismo do Silêncio

Escrito por 

Tamanha a desumanização impingida que somos reduzidos a uma mera fração, a um número.

A necessidade cada vez mais aguda de ruído só se explica pela necessidade de sufocar alguma coisa”.

(Konrad Lorenz)

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Nos dias hodiernos, as pessoas manifestam determinadas aversões que são bem características desta época parida pela Idade dita “das Luzes” e, uma das mais peculiares, seria justamente o grande desdém que é atribuído pelas pessoas ao silêncio em suas vidas.

Não suportamos a suavidade do silêncio. Temos sempre que ter a nossa alma vibrando com algum tipo de som ou ruído para que possamos estar em um estado de “tranqüilidade” em um sonambular existencial. Se estamos em uma lanchonete, no ônibus, no carro, na rua, em um restaurante, pouco importa. O que realmente interessa é que não estejamos SENDO perturbados pelo silêncio.

E mesmo que estejamos chegando no aconchego de nosso lar, seja este humilde ou não, seja tarde da noite ou ainda com o brilhar do Astro Rei, lá estamos nós ligando o aparelho de televisão, ou o aparelho de som ou o computador, pois não suportamos ficar com o silêncio como companhia, não aguentamos ter que ficar imersos em nós mesmos e termos que ouvir a voz de nossa própria consciência.

E, se o sono não vem, nada melhor que um medicamento para nos libertar dos tormentos de uma possível conversa com a nossa turva intimidade.

O homem moderno teme um possível confronto com a inteireza de sua realidade. Tanto teme que prefere estar a maior parte do tempo possível focando a sua atenção em algo pouco significativo (ou mesmo sem significado algum) para poder, deste modo, melhor esquecer do que ele realmente é. E, deste modo, não ter que enfrentar a verdade.

Parece ser um ponto banal este levantado por nossa insignificante pena, porém, este parvo escrivinhador pensa que não, principalmente quando comparamos a nossa capacidade de suportar o silêncio com a capacidade que um homem de uma sociedade tradicional tinha. Se compararmos o equilíbrio de um monge com o de um homem dito ponderado.

Esta capacidade de poder conhecer sua humanidade em sua máxima integridade deveria ser a base de nossa formação, de nossa educação a nível institucional e pessoal. Todavia, nos esquivamos dessa perspectiva similar ao medonho ao fugir da Cruz.

A modernidade, enquanto projeto civilizacional, vem dia após dia a brutalizar a pessoa humana em um processo contínuo de fragmentação de si, transformando-nos em um amontoado de coisas que tem como única meta apetecer a sua própria volúpia, desviando a atenção frente a realidade da existência humana neste vale de lágrimas que é a vida fora da CIVITA DEI.

Tamanha a desumanização impingida que somos reduzidos a uma mera fração, a um número. E pior que nos orgulhamos que sabermos decor essa imagem distorcida de nós mesmos, seja ao informarmos o número de nosso CPF ou quando criança respondemos orgulhosos a chamada feita apenas com o nosso número que consta na lista.

Nos permitimos ser reduzidos. Alias, pedimos isso com todo a pequenez de nossa alma para assim podermos continuar nossa jornada sem eira ou beira em meio a turbulência da vida exterior, em meio a vácuo edificado em nosso interior em nome da tranqüilidade de espírito fingida, macaqueada ao som e no ritmo de uma sociedade que celebra a futilidade e a dissimulação como meta digna de ser almejada em uma vida.

Acertadamente, o filósofo Blaise Pascal, em sua obra PENSAMENTOS, nos lembra que nós reconheceríamos a infelicidade de um homem em sua incapacidade de suportar o silêncio. Lembrava-nos também que: “Não nos contentamos com a vida que temos em nós e em nosso ser: queremos viver na idéia dos outros uma vida imaginária e, para isso, esforçamo-nos por fingir. Trabalhamos incessantemente para embelezar e conservar nosso ser imaginário e negligenciamos o verdadeiro”.

Por fim, essa é a grande marca de nossa Civilização esvaziada de ser. Civilização essa, deformada por pessoas que não suportam sua realidade interior e, por isso, desviam o tempo todo os olhos de sua alma para todo e qualquer simulacro para assim poder melhor fingir contentamento, quando, no fundo, a única coisa que há realmente é um mórbido grito de desespero.

A necessidade cada vez mais aguda de ruído só se explica pela necessidade de sufocar alguma coisa”.

(Konrad Lorenz)

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Nos dias hodiernos, as pessoas manifestam determinadas aversões que são bem características desta época parida pela Idade dita “das Luzes” e, uma das mais peculiares, seria justamente o grande desdém que é atribuído pelas pessoas ao silêncio em suas vidas.

Não suportamos a suavidade do silêncio. Temos sempre que ter a nossa alma vibrando com algum tipo de som ou ruído para que possamos estar em um estado de “tranqüilidade” em um sonambular existencial. Se estamos em uma lanchonete, no ônibus, no carro, na rua, em um restaurante, pouco importa. O que realmente interessa é que não estejamos SENDO perturbados pelo silêncio.

E mesmo que estejamos chegando no aconchego de nosso lar, seja este humilde ou não, seja tarde da noite ou ainda com o brilhar do Astro Rei, lá estamos nós ligando o aparelho de televisão, ou o aparelho de som ou o computador, pois não suportamos ficar com o silêncio como companhia, não aguentamos ter que ficar imersos em nós mesmos e termos que ouvir a voz de nossa própria consciência.

E, se o sono não vem, nada melhor que um medicamento para nos libertar dos tormentos de uma possível conversa com a nossa turva intimidade.

O homem moderno teme um possível confronto com a inteireza de sua realidade. Tanto teme que prefere estar a maior parte do tempo possível focando a sua atenção em algo pouco significativo (ou mesmo sem significado algum) para poder, deste modo, melhor esquecer do que ele realmente é. E, deste modo, não ter que enfrentar a verdade.

Parece ser um ponto banal este levantado por nossa insignificante pena, porém, este parvo escrivinhador pensa que não, principalmente quando comparamos a nossa capacidade de suportar o silêncio com a capacidade que um homem de uma sociedade tradicional tinha. Se compararmos o equilíbrio de um monge com o de um homem dito ponderado.

Esta capacidade de poder conhecer sua humanidade em sua máxima integridade deveria ser a base de nossa formação, de nossa educação a nível institucional e pessoal. Todavia, nos esquivamos dessa perspectiva similar ao medonho ao fugir da Cruz.

A modernidade, enquanto projeto civilizacional, vem dia após dia a brutalizar a pessoa humana em um processo contínuo de fragmentação de si, transformando-nos em um amontoado de coisas que tem como única meta apetecer a sua própria volúpia, desviando a atenção frente a realidade da existência humana neste vale de lágrimas que é a vida fora da CIVITA DEI.

Tamanha a desumanização impingida que somos reduzidos a uma mera fração, a um número. E pior que nos orgulhamos que sabermos decor essa imagem distorcida de nós mesmos, seja ao informarmos o número de nosso CPF ou quando criança respondemos orgulhosos a chamada feita apenas com o nosso número que consta na lista.

Nos permitimos ser reduzidos. Alias, pedimos isso com todo a pequenez de nossa alma para assim podermos continuar nossa jornada sem eira ou beira em meio a turbulência da vida exterior, em meio a vácuo edificado em nosso interior em nome da tranqüilidade de espírito fingida, macaqueada ao som e no ritmo de uma sociedade que celebra a futilidade e a dissimulação como meta digna de ser almejada em uma vida.

Acertadamente, o filósofo Blaise Pascal, em sua obra PENSAMENTOS, nos lembra que nós reconheceríamos a infelicidade de um homem em sua incapacidade de suportar o silêncio. Lembrava-nos também que: “Não nos contentamos com a vida que temos em nós e em nosso ser: queremos viver na idéia dos outros uma vida imaginária e, para isso, esforçamo-nos por fingir. Trabalhamos incessantemente para embelezar e conservar nosso ser imaginário e negligenciamos o verdadeiro”.

Por fim, essa é a grande marca de nossa Civilização esvaziada de ser. Civilização essa, deformada por pessoas que não suportam sua realidade interior e, por isso, desviam o tempo todo os olhos de sua alma para todo e qualquer simulacro para assim poder melhor fingir contentamento, quando, no fundo, a única coisa que há realmente é um mórbido grito de desespero.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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