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06 Abr 2008

O Médico e o Monstro

Escrito por 

Quando um professor ministra uma lição ele está ministrando um receituário, uma disciplina para a cura de uma enfermidade que é o desconhecimento sobre aquele determinado assunto.

“A única boa educação é esta: estar o pai bastante seguro de uma verdade antes de transmiti-la ao seu filho”.
(G. K. Chesterton)

- - - - - - - - - -

Não. Este libelo não é sobre o clássico de Robert Louis Stevenson. Mas versaremos sobre o trato desproporcional que é dado ao trabalho de um educador nas analogias que são feitas entre o ofício do médico com o do professor.

Toda analogia pode ser proveitosa e nos auxiliar na reflexão sobre infindáveis temas desde que esta seja feita de maneira adequada e dentro das devidas medidas o que, por sua deixa, não ocorre com as comparações que são feitas entre as duas profissões.

É mais do que corriqueiro ouvirmos falar que o maior responsável pela reprovação do aluno são os benditos (talvez, não tanto) professores. Obviamente que nós temos a nossa medida de responsabilidade neste processo, porém, vamos nos permitir uma pequena comparação entre a educação e a medicina para compreendermos o quanto observações deste gênero são impróprias na maioria das vezes.

Quando um médico está tratando um paciente que esteja sofrendo de uma enfermidade qualquer, seja ela uma gastrite ou uma hemorróida, este lhe prescreve alguns medicamentos a serem tomados regularmente e uma disciplina que deverá, se possível, ser seguida a risca para que o elemento possa obter a cura.

Ou seja, se o indivíduo não seguir as recomendações feitas pelo seu médico dificilmente ele poderá alcançar a plenitude de sua saúde e, tal situação, de modo algum é responsabilidade do médico, mas sim, do próprio enfermo que não lhe deu ouvidos, correto?

Na educação não é muito diferente não, como muito bem nos lembra o finado educador estadunidense Mortimer J. Adler em seu ensaio “Doutor e Disciplina: A responsabilidade social do professor”, publicado em abril de 1952, no journal Higher Education.

Quando um professor ministra uma lição ele está ministrando um receituário, uma disciplina para a cura de uma enfermidade que é o desconhecimento sobre aquele determinado assunto. Se as suas orientações forem ouvidas e suas lições feitas com o devido zelo a probabilidade do aluno obter êxito será significativa. Todavia, se este não der ouvidos ou seu preceptor o resultado será um só: a danação serial, vulgo reprovação.

Mesmo assim, muitos teóricos da educação, burocratas e paupiteiros de plantão, similar a este que vos escreve, insistem que a responsabilidade pelo fracasso escolar seria fundamentalmente e unicamente do professor.

Sim, mas e quanto ao elemento vontade, onde fica? Sei que é praticamente um sacrilégio falarmos neste quesito, mas ela, a vontade e a sua antípoda, a má-vontade, existem. Se um paciente desiste de lutar contra a sua doença dificilmente o profissional da saúde poderá curá-lo, não é mesmo? Ele pode até tentar, mas a probabilidade do enfermo perecer continuará sendo elevadíssima.

E quando o “X” da questão é fracasso escolar nós também temos o elemento vontade (ou má-vontade) da parte do estudante que, muitas das vezes, é tão parca que chega a dar dó. Entretanto, o ânimo não é cultivável com um passar de mãos na cabeça e muito menos com um lavar de mãos cínico.

O ensinamento é um ungüento para o espírito e o aluno deve ter claro em seu horizonte que se este remédio não for assimilado dentro das normas apropriadas irá levá-lo a ter que arcar com determinadas conseqüências inerentes a apreensão ou não do conhecimento.

Por fim, não podemos nos esquecer de modo algum que mesmo considerações esparsas como esta não isentam o educador de sua responsabilidade frente ao fracasso da educação hodierna, pois este é um dos agentes do referido processo, mas não o único possível para ministrar este ungüento que é o saber. Ou vocês vão me dizer que a escola é o único espaço para isso?

“A única boa educação é esta: estar o pai bastante seguro de uma verdade antes de transmiti-la ao seu filho”.
(G. K. Chesterton)

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Não. Este libelo não é sobre o clássico de Robert Louis Stevenson. Mas versaremos sobre o trato desproporcional que é dado ao trabalho de um educador nas analogias que são feitas entre o ofício do médico com o do professor.

Toda analogia pode ser proveitosa e nos auxiliar na reflexão sobre infindáveis temas desde que esta seja feita de maneira adequada e dentro das devidas medidas o que, por sua deixa, não ocorre com as comparações que são feitas entre as duas profissões.

É mais do que corriqueiro ouvirmos falar que o maior responsável pela reprovação do aluno são os benditos (talvez, não tanto) professores. Obviamente que nós temos a nossa medida de responsabilidade neste processo, porém, vamos nos permitir uma pequena comparação entre a educação e a medicina para compreendermos o quanto observações deste gênero são impróprias na maioria das vezes.

Quando um médico está tratando um paciente que esteja sofrendo de uma enfermidade qualquer, seja ela uma gastrite ou uma hemorróida, este lhe prescreve alguns medicamentos a serem tomados regularmente e uma disciplina que deverá, se possível, ser seguida a risca para que o elemento possa obter a cura.

Ou seja, se o indivíduo não seguir as recomendações feitas pelo seu médico dificilmente ele poderá alcançar a plenitude de sua saúde e, tal situação, de modo algum é responsabilidade do médico, mas sim, do próprio enfermo que não lhe deu ouvidos, correto?

Na educação não é muito diferente não, como muito bem nos lembra o finado educador estadunidense Mortimer J. Adler em seu ensaio “Doutor e Disciplina: A responsabilidade social do professor”, publicado em abril de 1952, no journal Higher Education.

Quando um professor ministra uma lição ele está ministrando um receituário, uma disciplina para a cura de uma enfermidade que é o desconhecimento sobre aquele determinado assunto. Se as suas orientações forem ouvidas e suas lições feitas com o devido zelo a probabilidade do aluno obter êxito será significativa. Todavia, se este não der ouvidos ou seu preceptor o resultado será um só: a danação serial, vulgo reprovação.

Mesmo assim, muitos teóricos da educação, burocratas e paupiteiros de plantão, similar a este que vos escreve, insistem que a responsabilidade pelo fracasso escolar seria fundamentalmente e unicamente do professor.

Sim, mas e quanto ao elemento vontade, onde fica? Sei que é praticamente um sacrilégio falarmos neste quesito, mas ela, a vontade e a sua antípoda, a má-vontade, existem. Se um paciente desiste de lutar contra a sua doença dificilmente o profissional da saúde poderá curá-lo, não é mesmo? Ele pode até tentar, mas a probabilidade do enfermo perecer continuará sendo elevadíssima.

E quando o “X” da questão é fracasso escolar nós também temos o elemento vontade (ou má-vontade) da parte do estudante que, muitas das vezes, é tão parca que chega a dar dó. Entretanto, o ânimo não é cultivável com um passar de mãos na cabeça e muito menos com um lavar de mãos cínico.

O ensinamento é um ungüento para o espírito e o aluno deve ter claro em seu horizonte que se este remédio não for assimilado dentro das normas apropriadas irá levá-lo a ter que arcar com determinadas conseqüências inerentes a apreensão ou não do conhecimento.

Por fim, não podemos nos esquecer de modo algum que mesmo considerações esparsas como esta não isentam o educador de sua responsabilidade frente ao fracasso da educação hodierna, pois este é um dos agentes do referido processo, mas não o único possível para ministrar este ungüento que é o saber. Ou vocês vão me dizer que a escola é o único espaço para isso?

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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