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31 Jul 2004

Ainda os Ateus

Escrito por 

Quis dizer que a militância atéia só tem substância negando a Tradição, em si ela não é nada, e sua causa comum é destruir os valores judaico-cristãos, fundamento de toda a nossa civilização.

Nunca em minha curta vida de articulista de opinião tive um texto tão apaixonadamente elogiado e criticado como o meu “Os ateus”.  Como pude ver, o tema é, de fato, explosivo. Se eu tivesse colocado a minha argumentação sob a ótica do religioso, provavelmente o artigo teria sido ignorado, mas parece que falar dos ateus enquanto tal torna as coisas mais quentes. E – diga-se – os que mais me contestaram foram aqueles que se denominam liberais. Revelaram um desconforto insuspeito com a etiqueta, é como se fosse um segredo. Isso é um assunto que precisa ser discutido.

Lembrando que decidi enfrentar o tema porque venho da leitura sucessiva de dois belos livros. Um deles o Fédon, de Platão (Brasília, Editora UNB, 2000), o último e talvez mais importante dos diálogos que tratam das últimas horas de Sócrates, no qual a questão da eternidade da alma e da presença divina é enfatizada pelo grande filósofo. O outro, o ensaio antropológico magnífico de René Girard “Eu via satanás cair do céu como um raio” (Portugal, Instituto Piaget, 2002), no qual ele mostra a coerência interna das Escrituras, focando nos Evangelhos. O próprio título do livro é uma passagem do Evangelho de Lucas (10,18). Portanto, o primeiro é um livro muito antigo, pagão, e outro recente, cristão, tratando com muita coerência sobre o mesmo tema. A Eternidade é uma descoberta filosófica de maturidade, consistindo a sua negação numa demonstração de imaturidade.

Como eu próprio me declaro liberal e tenho muitos amigos nesse meio, cristãos, judeus e ateus principalmente, causava-me certo desconforto fazer generalizações sobre os ateus, freqüentemente identificados com a causa socialista. É óbvio que essa é uma redução que contraria os fatos: há ateus de vários tipos, como procurei argumentar naquele texto. Desconfio que o pavio ficou curto quando identifiquei o parentesco próximo dos militantes ateístas de todas as origens e sua ação deletéria para a sociedade ocidental. Quis dizer que a militância atéia só tem substância negando a Tradição, em si ela não é nada, e sua causa comum é destruir os valores judaico-cristãos, fundamento de toda a nossa civilização. Pecado maior cometi quando associei essa “crença” com o relativismo moral pagão, fonte da decadência e da violência presentes em nosso meio. Desabou o céu (terá sido o inferno?) sobre mim.

[Essa realidade de decadência foi bem retratada na obra do diretor Martin Scorcese, Vivendo no limite, filme pelo qual tenho grande apreço. Crônica dos tempos melhor será difícil de fazer].

Devo dizer que nenhum dos leitores socialistas protestou contra a taxonomia proposta, sintoma de que a etiqueta de ateu não os incomoda, muito pelo contrário. O ateísmo é, de fato, a sua razão de ser, a sua bandeira de luta, o que os faz viver. Já os liberais ateus ficaram indignados, como se eu tivesse violado o seu segredo. Penso que a reação mostra que, no fundo, percebem que há uma inconsistência filosófica abissal entre a militância atéia e a substância do liberalismo. Entendo que são incompatíveis. A reação irada mostra que toquei no nervo dolorido.

Lamento pelos amigos a quem incomodei, mas nada supera a discussão dos fatos. E o ateísmo militante dos liberais faz tanto mal ao Ocidente quanto o seu congênere socialista. Talvez venha dessa constatação a ira tamanha a que fui exposto. Prefiro, todavia, enfrentá-la a negar a realidade. É um princípio de honestidade intelectual, sem a qual não poderíamos apreender a realidade.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:20
José Nivaldo Cordeiro

José Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas na FGV-SP. Cristão, liberal e democrata, acredita que o papel do Estado deve se cingir a garantia da ordem pública. Professa a idéia de que a liberdade, a riqueza e a prosperidade devem ser conquistadas mediante esforço pessoal, afastando coletivismos e a intervenção estatal nas vidas dos cidadãos.

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