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27 Jul 2004

Porque Não Temos Auto-Estima

Escrito por 

Mas “o tempo não pára” e mais de um ano e meio já se vai desde a gloriosa entronização do ungido eleitoralmente. Na área social promessas não cumpridas. Na macroeconomia a cópia bem mais ortodoxa do governo anterior, criticado implacavelmente pelos companheiros durante oito anos.

Somos um povo que ri e chora com facilidade, passando rapidamente da euforia à depressão, sendo que nossas reações com relação ao país oscilam da mesma forma. Basta ganhar no futebol, de preferência a Copa do Mundo, para ficarmos de alma lavada, mas qualquer revertério na economia faz baixar o sol da meia-noite sobre nossos estreitos horizontes. Por conta dessas oscilações de humor, no dia da vitória do atual presidente da República, 53 milhões em ação ou eleitores que não tiveram medo de serem felizes foram tomados por intensa euforia. Quanto à posse, teve qualquer coisa de Queda da Bastilha tupiniquim, pois afinal um homem de esquerda, saído das hostes do povo, chegava ao poder depois de um discurso messiânico que durara vinte anos. E apesar do empresariado não só ter votado, mas investido pesadamente no candidato de terno Armani como o deles, que aprendera falar manso e amenizara o discurso, Brasília se enfeitou de bandeiras vermelhas que sinalizavam o triunfo do proletariado contra a burguesia, o fim do odioso capitalismo, a extirpação do lucro esse pecado do mundo. Havia naquele dia um clima de redenção que perdurou enquanto o presidente, comparado a Jesus Cristo ou D. Sebastião, podia se atirar nos braços do povo que o saudava em triunfo. Ele era o salvador em meio às massas, a garantia de que o Estado, pai amantíssimo, asseguraria a felicidade de seus filhos, sobretudo a dos mais desvalidos. Estes podiam contar com trabalho, jamais voltariam a passar fome e os sem-terra teriam as terras que quisessem, pois só um governo popular de esquerda, genuinamente nacionalista e impregnado da mística revolucionária, poderia assegurar, finalmente, a felicidade geral da Nação.

Mas “o tempo não pára” e mais de um ano e meio já se vai desde a gloriosa entronização do ungido eleitoralmente. Na área social promessas não cumpridas. Na macroeconomia a cópia bem mais ortodoxa do governo anterior, criticado implacavelmente pelos companheiros durante oito anos. Impostos e mais impostos e o leão rugindo com a maior goela escancarada de toda História. Taxas. Aumentos de energia, água, combustível, telefone, esses “luxos” de menor importância. Violência aumentando. Desemprego, em que pese a propaganda maciça e o martelar da “agenda positiva” nos meios de comunicação.Viagens e mais viagens do presidente e suas grandes e privilegiadas comitivas. Em meio a carências de toda espécie da população mais pobre, a compra de um avião de 57 milhões de dólares para emir nenhum botar defeito.

Agora o presidente já não vai às ruas. Fala em auditórios herméticos, assépticos, com platéias escolhidas e claque organizada. E se arrisca sair a céu aberto, encontra sempre manifestações contra seu governo. É verdade que o prestígio do presidente Luiz Inácio ainda é alto, pelo menos segundo pesquisas de opinião, mas algo não deve estar indo bem já que o governo precisou lançar uma campanha publicitária para elevar nossa auto-estima. Comparecendo ao lançamento da campanha, o presidente ressaltou a importância da religião, a necessidade de cultuarmos nossos valores pátrios e a família como base da sociedade. Nada de novo. Apenas uma versão do que vem sendo dito e que até pode ser contida na divisa: “Deus, Pátria e Família”. Tão pouco o presidente se absteve de passar pitos nos brasileiros que ficam só esperando que o Estado faça por eles, que têm baixa-estima, que possuem famílias como as do Cazuza que não sabem cuidar dos filhos. Por fim o presidente afirmou que nos faltam bons exemplos, desde os familiares até aqueles das autoridades governamentais.

De fato, faltam-nos bons exemplos, sobretudo nos tempos que correm, plenos de mediocridade e banalização, onde a política se torna cada vez mais um negócio particular e o bem comum apenas uma citação aristotélica perdida nas teias da ilusão. E somos como o personagem Cândido, de Voltaire, otimistas em excesso, nos comprazendo com nossa própria desgraça, rindo das pantomimas do circo Brasil, mas fazendo o papel de palhaços no picadeiro nacional. Depois choramos convulsivamente, sempre por algum motivo piegas. Na verdade, subsiste o que afirmou Oliveira Vianna: “O brasileiro é, politicamente, o homem individualista arrastado pela libido dominandi e conduzindo-se pela vida pública sem outro objetivo senão a satisfação dessa libido”. Nesse tipo de cultura em que vencem não os mais capazes, mas os mais espertos, não dá para se ufanar do país. Vivemos cheios da alegria fictícia de um eterno carnaval, sonhamos pacientemente com o futuro, mas nunca soubemos construir o presente. E é isso que precisamos aprender a fazer, sem o quê jamais haverá auto-estima elevada.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:20
Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

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