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17 Mar 2008

Queimando Livros

Escrito por 

Por fim, lembremo-nos sempre que os livros são literalmente como pessoas. São professores mortos, como nos ensina Mortimer Adler e, por isso mesmo, eternos. Destruí-los com o nosso desprezo é destruir o que há demais significativo em nossa história.

"Para o triunfo do mal basta que os bons fiquem de braços cruzados". (Edmund Burke)

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Tive a grata felicidade de, neste sábado, participar de uma profícua discussão após a exibição do filme Fahrenheit 451 de François Truffaut, baseado na obra de Ray Bradbury. A discussão fora tão fértil, e o tempo tão escasso, que senti-me obrigado a ter de tecer alguns outros comentários através destas linhas. Porém, não sobre o filme, mas sim, a partir dele e das advertências que este nos faz através de seu enredo.

A sociedade futura imaginária descrita na película é um lugar onde os livros são proibidos por serem considerados uma forma de “propaganda da infelicidade”, visto que, “não se deveria prevalecer nenhuma diferença entre as pessoas” neste estado totalitário hipotético. Para combater este mal é criada uma corporação de bombeiros que tem por missão encontrar, apreender e queimar todos os livros a uma temperatuda 451º fahrenheit.

Nesta sociedade, o diálogo entre as pessoas membros de uma família era praticamente inexistente. Estas, dialogavam basicamente com uma “família” que se fazia presente nos lares através de uma grande televisão afixada na parede da sala.

Ora, de modo similar a conclusão apresentada por Aldous Huxley em sua obra “O Regresso ao Admirável Mundo Novo”, creio que a sociedade hipotética de Ray Bradbury levada as telas por François Truffaut não é assim tão distante de nossa realidade presente.

Poxa vida, obviamente que as pessoas não apenas dialogam com ou através de uma televisão, mas suas vidas e a pauta de suas conversas praticamente é ditada pelas falas “familiares” da televisão, não é mesmo? Conversa vai, conversa vem, e o assunto na roda é aquilo que passou em tal canal, ou o programa do fulano de tal que entrevistou o sicrano, ou simplesmente a trama de uma novela ou de um reality show qualquer.

É incrível como as pessoas dão tamanha importância a assuntos tão banais. É assustador como nós transformamos a vida em sociedade em um simulacro patético e ululante, onde vagamos de nossas casas para os nossos locais de ocupação utilitária, com nossas almas preenchidas unicamente com o banal que invade as suas vistas nos coisificando.

Mas, e quanto a queima dos livros? O amigo pode até concluir neste primeiro momento que tal prática não existe em nossa sociedade. Que nós somos um aglomerado societal de desvairados, porém, não a este ponto. Ledo engano. Afirmamos isso porque há mais de uma maneira de você poder queimar livros.

Não estamos a nos referir uma queima ipsis literis. Estamos nos referindo as inumeráveis maneiras simbólicas de se praticar esse crime contra a Civilização que, por sua deixa, é tão letal para a alma humana quando o incinerar literal de uma biblioteca.

Uma forma muito simples é o gradativo desdém que vem se construindo em torno dos “grandes livros” em favor das obras comerciais que são escritas unicamente para atender os clamores volúveis de um público de leitores rasos por uma palavra de consolo. Não é à toa que livros de literatura simplória e manuais de auto-ajuda tomam conta das livrarias ocupando, inclusive, o lugar de Machado de Assis, Lima Barreto, Camilo Castelo Brando, cujas obras deveriam ser lidas e estudas em todas as Instituição de Ensino.

Tamanha é a aberração que toma conta de nossa sociedade que Universidades comercializam resumos das obras que irão ser cobradas em determinados vestibulares. Este ato bárbaro não é uma forma simbólica de se queimar um livro?

Doravante, lembro aqui o relato de uma mãe que havia inscrito a sua filha em um módulo de “educação liberal” com o filósofo Olavo de Carvalho. Após algum tempo, sua filha disse a professora do Colégio, onde ela estudava regularmente, que ela não iria ler o livro solicitado por ela, livro o qual, chamava-se “Memórias de um cabo de Vassoura”. E a professora perguntou a ela o que ela estava lendo e esta, respondeu: “O Vermelho e o Negro” de Stendhal.

A garotinha reencontrou o significado de uma “grande obra” e passou a se deleitar em suas laudas. Reencontro o qual o nosso sistema educacional não está muito interessando em realizar, aparentemente. Idem a sociedade como um todo.

Por fim, lembremo-nos sempre que os livros são literalmente como pessoas. São professores mortos, como nos ensina Mortimer Adler e, por isso mesmo, eternos. Destruí-los com o nosso desprezo é destruir o que há demais significativo em nossa história e, agindo desta forma, impossibilitamos que nossas almas possam se aproximar destes exemplos de grandeza em nome da preservação da pequenez de nossa existência.

"Para o triunfo do mal basta que os bons fiquem de braços cruzados". (Edmund Burke)

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Tive a grata felicidade de, neste sábado, participar de uma profícua discussão após a exibição do filme Fahrenheit 451 de François Truffaut, baseado na obra de Ray Bradbury. A discussão fora tão fértil, e o tempo tão escasso, que senti-me obrigado a ter de tecer alguns outros comentários através destas linhas. Porém, não sobre o filme, mas sim, a partir dele e das advertências que este nos faz através de seu enredo.

A sociedade futura imaginária descrita na película é um lugar onde os livros são proibidos por serem considerados uma forma de “propaganda da infelicidade”, visto que, “não se deveria prevalecer nenhuma diferença entre as pessoas” neste estado totalitário hipotético. Para combater este mal é criada uma corporação de bombeiros que tem por missão encontrar, apreender e queimar todos os livros a uma temperatuda 451º fahrenheit.

Nesta sociedade, o diálogo entre as pessoas membros de uma família era praticamente inexistente. Estas, dialogavam basicamente com uma “família” que se fazia presente nos lares através de uma grande televisão afixada na parede da sala.

Ora, de modo similar a conclusão apresentada por Aldous Huxley em sua obra “O Regresso ao Admirável Mundo Novo”, creio que a sociedade hipotética de Ray Bradbury levada as telas por François Truffaut não é assim tão distante de nossa realidade presente.

Poxa vida, obviamente que as pessoas não apenas dialogam com ou através de uma televisão, mas suas vidas e a pauta de suas conversas praticamente é ditada pelas falas “familiares” da televisão, não é mesmo? Conversa vai, conversa vem, e o assunto na roda é aquilo que passou em tal canal, ou o programa do fulano de tal que entrevistou o sicrano, ou simplesmente a trama de uma novela ou de um reality show qualquer.

É incrível como as pessoas dão tamanha importância a assuntos tão banais. É assustador como nós transformamos a vida em sociedade em um simulacro patético e ululante, onde vagamos de nossas casas para os nossos locais de ocupação utilitária, com nossas almas preenchidas unicamente com o banal que invade as suas vistas nos coisificando.

Mas, e quanto a queima dos livros? O amigo pode até concluir neste primeiro momento que tal prática não existe em nossa sociedade. Que nós somos um aglomerado societal de desvairados, porém, não a este ponto. Ledo engano. Afirmamos isso porque há mais de uma maneira de você poder queimar livros.

Não estamos a nos referir uma queima ipsis literis. Estamos nos referindo as inumeráveis maneiras simbólicas de se praticar esse crime contra a Civilização que, por sua deixa, é tão letal para a alma humana quando o incinerar literal de uma biblioteca.

Uma forma muito simples é o gradativo desdém que vem se construindo em torno dos “grandes livros” em favor das obras comerciais que são escritas unicamente para atender os clamores volúveis de um público de leitores rasos por uma palavra de consolo. Não é à toa que livros de literatura simplória e manuais de auto-ajuda tomam conta das livrarias ocupando, inclusive, o lugar de Machado de Assis, Lima Barreto, Camilo Castelo Brando, cujas obras deveriam ser lidas e estudas em todas as Instituição de Ensino.

Tamanha é a aberração que toma conta de nossa sociedade que Universidades comercializam resumos das obras que irão ser cobradas em determinados vestibulares. Este ato bárbaro não é uma forma simbólica de se queimar um livro?

Doravante, lembro aqui o relato de uma mãe que havia inscrito a sua filha em um módulo de “educação liberal” com o filósofo Olavo de Carvalho. Após algum tempo, sua filha disse a professora do Colégio, onde ela estudava regularmente, que ela não iria ler o livro solicitado por ela, livro o qual, chamava-se “Memórias de um cabo de Vassoura”. E a professora perguntou a ela o que ela estava lendo e esta, respondeu: “O Vermelho e o Negro” de Stendhal.

A garotinha reencontrou o significado de uma “grande obra” e passou a se deleitar em suas laudas. Reencontro o qual o nosso sistema educacional não está muito interessando em realizar, aparentemente. Idem a sociedade como um todo.

Por fim, lembremo-nos sempre que os livros são literalmente como pessoas. São professores mortos, como nos ensina Mortimer Adler e, por isso mesmo, eternos. Destruí-los com o nosso desprezo é destruir o que há demais significativo em nossa história e, agindo desta forma, impossibilitamos que nossas almas possam se aproximar destes exemplos de grandeza em nome da preservação da pequenez de nossa existência.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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