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08 Mar 2008

O Que é Iluminiso? - Parte V

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Kant considera que a maioria dos indivíduos e dos povos “encara o passo à frente na direção da maturidade não só como um empreendimento difícil, mas também extremamente perigoso”.

Kant considera que a maioria dos indivíduos e dos povos “encara o passo à frente na direção da maturidade não só como um empreendimento difícil, mas também extremamente perigoso”. Assim sendo, eles passam a considerar menos arriscado e mais cômodo abrir mão voluntariamente da sua autodeterminação, para não ter de assumir a responsabilidade pelas decisões tomadas por eles - decisões estas que são voluntariamente entregues a outros.

A preguiça e a covardia são as razões pelas quais uma grande parte dos homens - mesmo quando a natureza os emancipou da tutela dos outros (naturaliter maiorennes) - permanecem alegremente imaturos para a vida. Pelas mesmas razões, torna-se demasiadamente fácil para os outros apresentarem-se como os seus guardiões. É conveniente e cômodo ser imaturo! Se eu disponho de um livro para ter compreensão no meu próprio lugar, de um guia espiritual para ter consciência por mim, de um médico para escolher minha dieta, não preciso fazer qualquer esforço. Não preciso pensar, à medida que posso pagar. Outros prontamente se encarregarão de fazer para mim a cansativa tarefa.(Kant, 1970, p.54).

Antes de qualquer coisa, é impressionante o caráter atual da passagem acima, pois vivemos em uma época em que a reflexão crítica torna-se cada vez mais uma “cansativa tarefa”, razão pela qual a maioria das pessoas abre mão desta prerrogativa e concede aos outros a tarefa de refletir e tirar conclusões por elas. Importante observar que nesta e em outras passagens, o que Kant está dizendo pretende ter validade tanto para o caráter dos indivíduos como para o dos povos. Como não podemos atribuir a Kant uma visão holista, o caráter de um povo nada mais é do que uma síntese enriquecida do dos indivíduos que o compõem, não uma entidade autônoma gozando de vida própria como “espírito absoluto” hegeliano ou a “consciência de classe” marxista.

Apesar de Kant ter feito duras críticas ao empirismo de modo geral e ao de Hume em particular, quando ele ultrapassou o domínio da razão pura e enveredou pelo da razão prática, se aproximou em muitos pontos dos pensamentos de Locke e de Hume. Sua manifesta ênfase no indivíduo humano é uma herança direta do empirismo e do liberalismo e uma herança indireta do luteranismo via pietismo, ao passo que sua valorização do papel do sentimento na vida moral, tanto pode ser creditada à influência de J.J. Rousseau (Cassirer, 1970) como às de D. Hume e A. Smith, que situavam o sentimento de compaixão ou solidariedade (sympathy) como a base da moralidade (Mercer, 1972, pp.118-134).

Assim como direitos e deveres, liberdade e responsabilidade são duas faces de uma mesma moeda. Não há como se fazer uma opção pela liberdade (entendida como autodeterminação) sem fazer uma opção pela responsabilidade (no sentido de assumir autoria por atos praticados). Neste sentido, não se pode exigir responsabilidade de um menor de idade, porque ele não goza da prerrogativa de determinar seu próprio rumo na vida; ele está sob a tutela dos seus responsáveis, que são obrigados a assumir a responsabilidade pelos atos praticados pelo seu tutelado.

A maioridade traz a inegável vantagem de emancipação da tutela paterna, mas em compensação traz também a desvantagem do ônus da responsabilidade. Plenamente distinta da maioridade, a maturidade consiste justamente em assumir tanto as vantagens como as desvantagens da liberdade enquanto autodeterminação.

Caso um indivíduo considere que as desvantagens são maiores do que as vantagens, ele abrirá mão prazerosamente da sua autodeterminação. Embora ele tenha se emancipado da tutela paterna por uma questão de idade biológica e cronológica (naturaliter maiorennes), isto não significa dizer que ele tenha assumido a sua autodeterminação, pois outros podem desempenhar o mesmo papel dos seus tutores paternos. Segue-se que, para Kant, a autodeterminação não é jamais uma inevitável contrapartida da maioridade, porém da maturidade.

Kant considera que é extremamente difícil para um indivíduo se insurgir contra seu comodismo e fazer um esforço no sentido de superar sua condição de imaturidade, que, tal como o hábito, acaba se tornando para ele uma segunda natureza. Como sua condição de imaturidade lhe fornece segurança, ou ao menos uma impressão de segurança, e parece ter o poder de eliminar possíveis riscos e dissabores, ele acaba se apegando fortemente a ela e se torna incapaz de fazer uso do seu próprio entendimento. Reiteramos: isto que Kant está dizendo vale tanto para o caráter dos indivíduos como para o dos povos. Daí a idéia de que - pensando em termos kantianos e levando em consideração a história universal - o Iluminismo representa a verdadeira Superação da Imaturidade.

Dogmas e fórmulas - estes instrumentos mecânicos para o uso, melhor dizendo: mau uso dos seus talentos naturais - são os grilhões da sua permanente imaturidade. E mesmo que ele os rompa, se sentirá inseguro para pular a menor das valas, pois se tornou desabituado a fazer exercícios desta natureza. Assim sendo, poucos homens - graças ao cultivo das suas próprias mentes - tiveram êxito na tarefa de emancipação da imaturidade e na de continuar ousadamente no seu caminho. (Kant, 1970, pp.54-5).

Kant considera que a maioria dos indivíduos e dos povos “encara o passo à frente na direção da maturidade não só como um empreendimento difícil, mas também extremamente perigoso”. Assim sendo, eles passam a considerar menos arriscado e mais cômodo abrir mão voluntariamente da sua autodeterminação, para não ter de assumir a responsabilidade pelas decisões tomadas por eles - decisões estas que são voluntariamente entregues a outros.

A preguiça e a covardia são as razões pelas quais uma grande parte dos homens - mesmo quando a natureza os emancipou da tutela dos outros (naturaliter maiorennes) - permanecem alegremente imaturos para a vida. Pelas mesmas razões, torna-se demasiadamente fácil para os outros apresentarem-se como os seus guardiões. É conveniente e cômodo ser imaturo! Se eu disponho de um livro para ter compreensão no meu próprio lugar, de um guia espiritual para ter consciência por mim, de um médico para escolher minha dieta, não preciso fazer qualquer esforço. Não preciso pensar, à medida que posso pagar. Outros prontamente se encarregarão de fazer para mim a cansativa tarefa.(Kant, 1970, p.54).

Antes de qualquer coisa, é impressionante o caráter atual da passagem acima, pois vivemos em uma época em que a reflexão crítica torna-se cada vez mais uma “cansativa tarefa”, razão pela qual a maioria das pessoas abre mão desta prerrogativa e concede aos outros a tarefa de refletir e tirar conclusões por elas. Importante observar que nesta e em outras passagens, o que Kant está dizendo pretende ter validade tanto para o caráter dos indivíduos como para o dos povos. Como não podemos atribuir a Kant uma visão holista, o caráter de um povo nada mais é do que uma síntese enriquecida do dos indivíduos que o compõem, não uma entidade autônoma gozando de vida própria como “espírito absoluto” hegeliano ou a “consciência de classe” marxista.

Apesar de Kant ter feito duras críticas ao empirismo de modo geral e ao de Hume em particular, quando ele ultrapassou o domínio da razão pura e enveredou pelo da razão prática, se aproximou em muitos pontos dos pensamentos de Locke e de Hume. Sua manifesta ênfase no indivíduo humano é uma herança direta do empirismo e do liberalismo e uma herança indireta do luteranismo via pietismo, ao passo que sua valorização do papel do sentimento na vida moral, tanto pode ser creditada à influência de J.J. Rousseau (Cassirer, 1970) como às de D. Hume e A. Smith, que situavam o sentimento de compaixão ou solidariedade (sympathy) como a base da moralidade (Mercer, 1972, pp.118-134).

Assim como direitos e deveres, liberdade e responsabilidade são duas faces de uma mesma moeda. Não há como se fazer uma opção pela liberdade (entendida como autodeterminação) sem fazer uma opção pela responsabilidade (no sentido de assumir autoria por atos praticados). Neste sentido, não se pode exigir responsabilidade de um menor de idade, porque ele não goza da prerrogativa de determinar seu próprio rumo na vida; ele está sob a tutela dos seus responsáveis, que são obrigados a assumir a responsabilidade pelos atos praticados pelo seu tutelado.

A maioridade traz a inegável vantagem de emancipação da tutela paterna, mas em compensação traz também a desvantagem do ônus da responsabilidade. Plenamente distinta da maioridade, a maturidade consiste justamente em assumir tanto as vantagens como as desvantagens da liberdade enquanto autodeterminação.

Caso um indivíduo considere que as desvantagens são maiores do que as vantagens, ele abrirá mão prazerosamente da sua autodeterminação. Embora ele tenha se emancipado da tutela paterna por uma questão de idade biológica e cronológica (naturaliter maiorennes), isto não significa dizer que ele tenha assumido a sua autodeterminação, pois outros podem desempenhar o mesmo papel dos seus tutores paternos. Segue-se que, para Kant, a autodeterminação não é jamais uma inevitável contrapartida da maioridade, porém da maturidade.

Kant considera que é extremamente difícil para um indivíduo se insurgir contra seu comodismo e fazer um esforço no sentido de superar sua condição de imaturidade, que, tal como o hábito, acaba se tornando para ele uma segunda natureza. Como sua condição de imaturidade lhe fornece segurança, ou ao menos uma impressão de segurança, e parece ter o poder de eliminar possíveis riscos e dissabores, ele acaba se apegando fortemente a ela e se torna incapaz de fazer uso do seu próprio entendimento. Reiteramos: isto que Kant está dizendo vale tanto para o caráter dos indivíduos como para o dos povos. Daí a idéia de que - pensando em termos kantianos e levando em consideração a história universal - o Iluminismo representa a verdadeira Superação da Imaturidade.

Dogmas e fórmulas - estes instrumentos mecânicos para o uso, melhor dizendo: mau uso dos seus talentos naturais - são os grilhões da sua permanente imaturidade. E mesmo que ele os rompa, se sentirá inseguro para pular a menor das valas, pois se tornou desabituado a fazer exercícios desta natureza. Assim sendo, poucos homens - graças ao cultivo das suas próprias mentes - tiveram êxito na tarefa de emancipação da imaturidade e na de continuar ousadamente no seu caminho. (Kant, 1970, pp.54-5).

Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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