Sex11152019

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

26 Jul 2004

Grandes Ilusões, Terríveis Frustrações

Escrito por 

Há no Brasil uma ânsia muito grande por melhorias. Só que é forte a tendência a acreditar em soluções mágicas. É diminuta a consciência de que só se consegue aperfeiçoar o todo atuando com competência sobre as partes.

Há no Brasil uma ânsia muito grande por melhorias. Só que é forte a tendência a acreditar em soluções mágicas. É diminuta a consciência de que só se consegue aperfeiçoar o todo atuando com competência sobre as partes. A despeito de vivermos nos municípios, nas manchetes de todos os dias aparecemos como reféns do Governo Central. O País precisa urgentemente de um genuíno federalismo. O que de excelência nele existe é fruto de iniciativas isoladas. O sucesso é quase sempre solitário. O êxito, para ser vigoroso e duradouro, precisa se reproduzir em cadeia. Nossa sociedade precisa parar de prestar atenção no ramerrame ideológico para se deixar contaminar pelas boas idéias e pelas ações que dão bons frutos. Ficar de forma lamurienta reclamando da realidade e esperando a utopia não melhora nada. O sucesso localizado precisa entrar em rede com o resto. Só assim os avanços serão globais a ponto de se criar um clima contagiante de progresso econômico e social.

O bom funcionamento macroscópico é resultado da eficiência com que se lida com os desafios setoriais. Os desequilíbrios estruturais são em boa parte equacionáveis por meio da atuação regional eficiente. O preocupante é que o governo e o povo acreditam que o todo é maior que a soma das partes. Sem bons governos locais e cidadãos com mentalidade municipalista não há solução objetiva para o varejão dos problemas que aflige o cotidiano dos brasileiros. Sem que se rompa o pacto que os maus governantes fazem com os mal-feitores e os fora-da-lei em geral o retrocesso social será cada vez maior. O que pode haver, por exemplo, de pior que a ocupação selvagem do solo urbano com a complacência das autoridades?

Há no Brasil uma predileção pelos grandes projetos em detrimento das reformas gradualistas. Prefere-se o grandiloqüente que nunca sai do papel ao trabalho miúdo que se dedica a um problema de cada vez. As pequenas dificuldades que atormentam o cidadão no dia-a-dia são negligenciadas. Daí a indigência administrativa ser a tônica. Cada governo faz tabula rasa de quase tudo que foi feito antes. Não há efeito cumulativo no enfrentamento dos tormentos da vida coletiva. É tanta a empáfia do “queremos mudar tudo isso que está aí” que se desqualifica o reformismo que se propõe a sanar disfunções localizadas. Não por acaso, deprecia-se como tecnocrata o administrador público que se devota à desobstrução dos gargalos. Prefere-se a retórica pretensiosa aos resultados específicos - mensuráveis. O pouco - aos poucos - é desprezado. É tudo ou nada: é paraíso ou inferno. Exemplo: ou é perfeita a distribuição de renda ou se justifica a violência como fruto do Sistema. Em vez de se tentar melhorar de forma realista o que se tem, investe-se no ideal incerto. A cantilena do “outro mundo é possível” só serve para abandonar à própria sorte o sofrido mundo de todos os dias. E o trágico é que, nas mãos dos dogmáticos, a busca da perfeição utópica acaba servindo de pretexto para justificar a tirania e a matança ideológica. Deste perigo o Brasil não está livre...

Uma sociedade que não se formou, como é o caso da nossa, pela luta de afirmação dos direitos dos indivíduos contra a concentração de poderes e funções nas mãos do Estado tende a fazer uma enorme confusão entre o público e o privado. E apresenta uma terrível ambivalência de sentimentos: exibe uma profunda desconfiança em relação a seus governantes, pessoalmente considerados, e um fascínio oculto pelo governo abstratamente tomado. Espera tanto dos governantes que tende a escolher demagogos e populistas. Não por acaso, cada governo se inicia cercado de grandes e irrealistas expectativas. Muitos esperam que faça milagre, que mude o curso da história. A popularidade é tão artificialmente inflada que acaba sendo inevitável a frustração. É esse governismo – a excessiva valorização da ação dos governantes – que tem atrofiado as iniciativas das pessoas e deixado a sociedade sem viço.
Na média, o brasileiro mostra pouco envolvimento com princípios universais. Pouco reage a confiscos, à dupla tributação, a leis disparatadas que tratam desigualmente as pessoas, muitas vezes a pretexto de corrigir distorções e desigualdades. Atentados aos bolsos alheios são amplamente aceitos sob a alegação de que é justo tirar de quem tem. Invertendo-se a meritocracia, vagas nas universidades são subtraídas dos mais capacitados para beneficiar aqueles que, pobres, foram obrigados a estudar na fraca escola pública. Governos podem sangrar à vontade a sociedade, sem a contrapartida de serviços de qualidade, porque a culpa de tudo é do capitalismo - dos empresários e de sua incontida ganância.

Os metalúrgicos recentemente protestaram contra a falta de correção do tabela do imposto de renda porque isso diretamente os afetava. Não há, entretanto, clamor da cidadania contra a voracidade tributaria em geral. Cada grupo só olha para seu umbigo. O debate intelectual é tão rasteiro que se caracteriza como neoliberais até políticas macroeconômicas intervencionistas. O Brasil é um país de mentalidade socialista que tem governos que assim se vêem. Como não dá para aumentar muito mais a carga tributária, sem matar a galinha dos ovos de ouro, para cair no socialismo real o que falta é a guinada que promoverá a estatização dos meios de produção e a abolição da propriedade privada. Os direitos sobre eles tem sido cada vez mais restringidos sem que a maioria note ou se choque com isso...

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:20
Alberto Oliva

Filósofo, escritor e professor da UFRJ. Mestre em Comunicação e Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor-palestrante da EGN (Escola de Guerra Naval) e da ECEME (Escola de Comando e Estado-maior). Pesquisador 1-A do CNPq. É articulista do Jornal de Tarde desde 1993. Possui sigficativas publicações como "Liberdade e Conhecimento", "Ciência e Sociedade. Do Consenso à Revolução", "A Solidão da Cidadania", "Entre o Dogmatismo Arrogante e o Desespero Cético" e "Ciência e Ideologia".

Deixe um comentário

Informações marcadas com (*) são obrigatórias. Código HTML básico é permitido.

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.