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21 Fev 2008

A Revolta Contra a Consciência

Escrito por 

Alguns behavioristas preferem negar que são materialistas reducionistas, mas sua doutrina acaba levando à crença em outra forma de materialismo: o epifenomenalismo.

Liberdade significa responsabilidade; é por isso que tanta gente tem medo dela.” (George Bernard Shaw)

O atributo que define o homem, que o distingue de todas as demais espécies, é sua habilidade de raciocinar. Isso significa estender o campo de sua compreensão além dos concretos perceptuais imediatamente confrontando-o, ou seja, abstrair, integrar e assimilar princípios, compreender a realidade no nível conceitual da consciência. Para Nathaniel Branden, adepto do Objetivismo de Ayn Rand, a psicologia seria definida como “a ciência que estuda os atributos e características que o homem possui por virtude de sua faculdade racional”. Cada homem pode experimentar diretamente apenas a sua consciência, e a introspecção é a primeira fonte do conhecimento psicológico de alguém. As manifestações e expressões da atividade mental são os comportamentos. A consciência é quem regula a ação. Ela não pode ser totalmente entendida sem referência ao comportamento, e este não pode ser entendido sem referência à consciência: o homem não é um fantasma incorpóreo nem um robô autômato.

No entanto, muitas são as pessoas que atacam justamente este atributo fundamental do ser humano. Diferentes grupos se revoltam contra a consciência, tentando limitar seu poder ou mesmo anulá-lo por completo. Um dos casos mais extremos está no behaviorismo. Para seus seguidores, devemos dispensar o conceito de consciência, e estudar exclusivamente o comportamento do organismo, ou seja, restringir a psicologia ao estudo dos movimentos físicos. O behaviorismo radical é um materialismo explícito, sustentando que a mente é uma série de respostas corporais, tal como as reações musculares. A metodologia behaviorista implica que o organismo estudado pela psicologia é de tal forma que seu comportamento pode ser entendido sem referência à consciência. Isso é, segundo Branden, claramente uma posição metafísica.

Alguns behavioristas preferem negar que são materialistas reducionistas, mas sua doutrina acaba levando à crença em outra forma de materialismo: o epifenomenalismo. Esta doutrina assume que a consciência é meramente um subproduto acidental de processos físicos. Seus adeptos ficam numa posição delicada de ter que aceitar que a história da espécie humana seria exatamente a mesma se ninguém tivesse jamais tido consciência de algo, se ninguém tivesse tido percepções ou pensamentos. A diferença entre as duas vertentes do behaviorismo é nula, para efeitos práticos. Ambas concordam que a consciência é irrelevante para a psicologia e o comportamento. Eis a essência da posição deles, ainda que o behaviorista fique relutante em anunciar as conclusões a que suas teorias levam. Ele não se sente obrigado, por coerência, a declarar que, partindo de suas premissas de que a consciência é ilusória ou irrelevante para explicar os comportamentos, e que isso inclui o seu comportamento, nada do que ele possa pensar ou entender carrega qualquer relação causal com as coisas que ele faz ou as teorias que ele advoga. Quando alguém defende uma doutrina a qual prega que não há um papel fundamental da consciência no seu próprio comportamento, a tentação irresistível é concordar com ele. Só não é justo extrapolar isto para todos os homens!

O revolucionário americano Ethan Allen explicou o dilema de forma brilhante: “Aqueles que invalidam a razão devem seriamente considerar se estão argumentando contra a razão com ou sem razão. Se é com razão, eles estabelecem o princípio que se esforçam para derrubar; mas, se argumentam sem razão (o que, para ser coerentes consigo mesmos, deveriam fazer), ficam fora do alcance da convicção racional e não merecem uma argumentação racional”. Outro que expôs a contradição determinista foi Leonard Peikoff, um dos herdeiros intelectuais de Ayn Rand:

"Se a consciência do homem fosse automática, se ela reagisse de modo determinista a forças (exteriores ou interiores) que agem sobre ela, então, por definição, um homem não teria escolha no que se refere ao seu conteúdo mental; ele aceitaria tudo que tivesse de aceitar, todas as idéias que as forças determinantes engendrassem nele. Nesse caso, não se poderiam prescrever métodos para orientar o pensamento humano nem se poderia pedir a alguém que justificasse suas idéias; o tema da epistemologia seria inaplicável. Não se pode pedir a uma pessoa que altere ou justifique aquilo que é mentalmente inevitável. Por analogia, em termos físicos, não se pode pedir a alguém que altere ou justifique seu reflexo patelar. Quanto ao involuntário, não há outra alternativa senão submeter-se – fazer o que se deve fazer, seja lá o que for. [...] Uma validação de idéias é necessária e possível apenas porque a consciência humana é volitiva. Isso aplica-se a qualquer idéia, inclusive a defesa do livre-arbítrio: pedir prova do livre-arbítrio é pressupor a realidade do livre-arbítrio."

O ataque behaviorista à consciência representa meramente um extremo de uma tendência mais geral na psicologia moderna e na filosofia: a tendência de considerar a consciência ou mente com uma hostilidade suspeita, como um fenômeno perturbador, distante do campo do conhecimento científico. Por séculos, os místicos alegaram que o fenômeno da consciência estava fora do alcance da razão e da ciência. Os apóstolos modernos da “ciência” anti-mente concordam. Enquanto proclamam ser expoentes da razão, acabam defendendo explicações místicas sobre a consciência, cedendo uma vitória aos místicos que nem eles poderiam ter sonhado. Ambos os lados mantêm algo em comum: a revolta contra a consciência, o ataque à razão humana.

Creio que o principal motivador por trás dessas doutrinas contra a consciência está no medo de assumir as rédeas da própria vida, a responsabilidade pelos próprios atos. Responsabilidade significa habilidade de resposta, e isso gera um fardo para muitos, pois joga o peso das escolhas no ombro do indivíduo. Assumir que “entre o estímulo e a resposta, o homem tem a liberdade de escolha”, como disse Viktor Fankl, mesmo sendo torturado por nazistas, implica na necessidade de enfrentar suas escolhas e, portanto, seus resultados. Claro que o ambiente, o contexto, a cultura, a família e também a genética influenciam estas escolhas. É óbvio que o nosso livre-arbítrio enfrenta certos obstáculos externos. Mas negar essa liberdade de escolha é algo totalmente absurdo. É uma fuga covarde, típica dos que temem olhar para trás e reconhecer seus erros, para poder mudar o destino à frente, fazendo novas escolhas.

Não faz sequer sentido cair numa crença determinista e continuar um debate. Se nossas ações são determinadas por algum fator exógeno qualquer, sem nossa possibilidade de escolher o rumo, então fim de papo, nada mais é possível de se debater racionalmente. Afinal, tudo está determinado mesmo. O determinismo é algo totalmente irracional. Quem nega o poder da escolha racional humana, não pode alegar jamais estar com a razão. Ele não teria como saber, segundo a sua própria crença. Como Peikoff explica, "quando um determinista afirma que o homem é determinado por certos fatores, isto aplica-se também a todas as idéias do homem, inclusive sua própria defesa do determinismo". Como qualquer rejeição de um axioma filosófico, o determinismo se auto-refuta. Não faria sentido também falar em moralidade, já que ninguém teria escolha, nem o estuprador nem o sujeito íntegro. Ambos seriam como são apenas porque tinham que ser assim. O determinismo é a morte da moralidade. Surge de cara a incômoda questão: que tipo de gente pode querer defender o determinismo? Somente aquele coitado que abomina sua própria mente e a moralidade no mundo, ou seja, o ser irracional e imoral. O determinismo é uma fuga.

Pessoas admiráveis aceitam que são os responsáveis por suas escolhas na vida. Entendem, naturalmente, que sofrem influências externas, que o meio-ambiente e a genética exercem seus papéis, que dependendo do contexto, o grau de liberdade de escolha é reduzido. Sabem que para algumas pessoas as escolhas são feitas numa situação mais difícil. Mas são pessoas que não fogem de suas responsabilidades. Só há mérito mesmo onde há escolha. Valorizamos justamente aquilo que escolhemos. Quando partimos para uma fuga desesperada rumo ao determinismo, eximindo-nos de responsabilidade, estamos a um passo do abismo. Não é digno de admiração aquele que acredita que somos como somos simplesmente porque assim tínhamos que ser, negando o poder da consciência, das nossas escolhas racionais. Quem encara o ser humano como uma simples marionete, reagindo de forma inconsciente a todos os impulsos externos, um verdadeiro cão de Pavlov, está dando um atestado e tanto sobre a sua própria pessoa. A revolta contra a consciência é a reação de seres covardes diante do medo de aceitar a liberdade humana. E eles escolheram isso!

Liberdade significa responsabilidade; é por isso que tanta gente tem medo dela.” (George Bernard Shaw)

O atributo que define o homem, que o distingue de todas as demais espécies, é sua habilidade de raciocinar. Isso significa estender o campo de sua compreensão além dos concretos perceptuais imediatamente confrontando-o, ou seja, abstrair, integrar e assimilar princípios, compreender a realidade no nível conceitual da consciência. Para Nathaniel Branden, adepto do Objetivismo de Ayn Rand, a psicologia seria definida como “a ciência que estuda os atributos e características que o homem possui por virtude de sua faculdade racional”. Cada homem pode experimentar diretamente apenas a sua consciência, e a introspecção é a primeira fonte do conhecimento psicológico de alguém. As manifestações e expressões da atividade mental são os comportamentos. A consciência é quem regula a ação. Ela não pode ser totalmente entendida sem referência ao comportamento, e este não pode ser entendido sem referência à consciência: o homem não é um fantasma incorpóreo nem um robô autômato.

No entanto, muitas são as pessoas que atacam justamente este atributo fundamental do ser humano. Diferentes grupos se revoltam contra a consciência, tentando limitar seu poder ou mesmo anulá-lo por completo. Um dos casos mais extremos está no behaviorismo. Para seus seguidores, devemos dispensar o conceito de consciência, e estudar exclusivamente o comportamento do organismo, ou seja, restringir a psicologia ao estudo dos movimentos físicos. O behaviorismo radical é um materialismo explícito, sustentando que a mente é uma série de respostas corporais, tal como as reações musculares. A metodologia behaviorista implica que o organismo estudado pela psicologia é de tal forma que seu comportamento pode ser entendido sem referência à consciência. Isso é, segundo Branden, claramente uma posição metafísica.

Alguns behavioristas preferem negar que são materialistas reducionistas, mas sua doutrina acaba levando à crença em outra forma de materialismo: o epifenomenalismo. Esta doutrina assume que a consciência é meramente um subproduto acidental de processos físicos. Seus adeptos ficam numa posição delicada de ter que aceitar que a história da espécie humana seria exatamente a mesma se ninguém tivesse jamais tido consciência de algo, se ninguém tivesse tido percepções ou pensamentos. A diferença entre as duas vertentes do behaviorismo é nula, para efeitos práticos. Ambas concordam que a consciência é irrelevante para a psicologia e o comportamento. Eis a essência da posição deles, ainda que o behaviorista fique relutante em anunciar as conclusões a que suas teorias levam. Ele não se sente obrigado, por coerência, a declarar que, partindo de suas premissas de que a consciência é ilusória ou irrelevante para explicar os comportamentos, e que isso inclui o seu comportamento, nada do que ele possa pensar ou entender carrega qualquer relação causal com as coisas que ele faz ou as teorias que ele advoga. Quando alguém defende uma doutrina a qual prega que não há um papel fundamental da consciência no seu próprio comportamento, a tentação irresistível é concordar com ele. Só não é justo extrapolar isto para todos os homens!

O revolucionário americano Ethan Allen explicou o dilema de forma brilhante: “Aqueles que invalidam a razão devem seriamente considerar se estão argumentando contra a razão com ou sem razão. Se é com razão, eles estabelecem o princípio que se esforçam para derrubar; mas, se argumentam sem razão (o que, para ser coerentes consigo mesmos, deveriam fazer), ficam fora do alcance da convicção racional e não merecem uma argumentação racional”. Outro que expôs a contradição determinista foi Leonard Peikoff, um dos herdeiros intelectuais de Ayn Rand:

"Se a consciência do homem fosse automática, se ela reagisse de modo determinista a forças (exteriores ou interiores) que agem sobre ela, então, por definição, um homem não teria escolha no que se refere ao seu conteúdo mental; ele aceitaria tudo que tivesse de aceitar, todas as idéias que as forças determinantes engendrassem nele. Nesse caso, não se poderiam prescrever métodos para orientar o pensamento humano nem se poderia pedir a alguém que justificasse suas idéias; o tema da epistemologia seria inaplicável. Não se pode pedir a uma pessoa que altere ou justifique aquilo que é mentalmente inevitável. Por analogia, em termos físicos, não se pode pedir a alguém que altere ou justifique seu reflexo patelar. Quanto ao involuntário, não há outra alternativa senão submeter-se – fazer o que se deve fazer, seja lá o que for. [...] Uma validação de idéias é necessária e possível apenas porque a consciência humana é volitiva. Isso aplica-se a qualquer idéia, inclusive a defesa do livre-arbítrio: pedir prova do livre-arbítrio é pressupor a realidade do livre-arbítrio."

O ataque behaviorista à consciência representa meramente um extremo de uma tendência mais geral na psicologia moderna e na filosofia: a tendência de considerar a consciência ou mente com uma hostilidade suspeita, como um fenômeno perturbador, distante do campo do conhecimento científico. Por séculos, os místicos alegaram que o fenômeno da consciência estava fora do alcance da razão e da ciência. Os apóstolos modernos da “ciência” anti-mente concordam. Enquanto proclamam ser expoentes da razão, acabam defendendo explicações místicas sobre a consciência, cedendo uma vitória aos místicos que nem eles poderiam ter sonhado. Ambos os lados mantêm algo em comum: a revolta contra a consciência, o ataque à razão humana.

Creio que o principal motivador por trás dessas doutrinas contra a consciência está no medo de assumir as rédeas da própria vida, a responsabilidade pelos próprios atos. Responsabilidade significa habilidade de resposta, e isso gera um fardo para muitos, pois joga o peso das escolhas no ombro do indivíduo. Assumir que “entre o estímulo e a resposta, o homem tem a liberdade de escolha”, como disse Viktor Fankl, mesmo sendo torturado por nazistas, implica na necessidade de enfrentar suas escolhas e, portanto, seus resultados. Claro que o ambiente, o contexto, a cultura, a família e também a genética influenciam estas escolhas. É óbvio que o nosso livre-arbítrio enfrenta certos obstáculos externos. Mas negar essa liberdade de escolha é algo totalmente absurdo. É uma fuga covarde, típica dos que temem olhar para trás e reconhecer seus erros, para poder mudar o destino à frente, fazendo novas escolhas.

Não faz sequer sentido cair numa crença determinista e continuar um debate. Se nossas ações são determinadas por algum fator exógeno qualquer, sem nossa possibilidade de escolher o rumo, então fim de papo, nada mais é possível de se debater racionalmente. Afinal, tudo está determinado mesmo. O determinismo é algo totalmente irracional. Quem nega o poder da escolha racional humana, não pode alegar jamais estar com a razão. Ele não teria como saber, segundo a sua própria crença. Como Peikoff explica, "quando um determinista afirma que o homem é determinado por certos fatores, isto aplica-se também a todas as idéias do homem, inclusive sua própria defesa do determinismo". Como qualquer rejeição de um axioma filosófico, o determinismo se auto-refuta. Não faria sentido também falar em moralidade, já que ninguém teria escolha, nem o estuprador nem o sujeito íntegro. Ambos seriam como são apenas porque tinham que ser assim. O determinismo é a morte da moralidade. Surge de cara a incômoda questão: que tipo de gente pode querer defender o determinismo? Somente aquele coitado que abomina sua própria mente e a moralidade no mundo, ou seja, o ser irracional e imoral. O determinismo é uma fuga.

Pessoas admiráveis aceitam que são os responsáveis por suas escolhas na vida. Entendem, naturalmente, que sofrem influências externas, que o meio-ambiente e a genética exercem seus papéis, que dependendo do contexto, o grau de liberdade de escolha é reduzido. Sabem que para algumas pessoas as escolhas são feitas numa situação mais difícil. Mas são pessoas que não fogem de suas responsabilidades. Só há mérito mesmo onde há escolha. Valorizamos justamente aquilo que escolhemos. Quando partimos para uma fuga desesperada rumo ao determinismo, eximindo-nos de responsabilidade, estamos a um passo do abismo. Não é digno de admiração aquele que acredita que somos como somos simplesmente porque assim tínhamos que ser, negando o poder da consciência, das nossas escolhas racionais. Quem encara o ser humano como uma simples marionete, reagindo de forma inconsciente a todos os impulsos externos, um verdadeiro cão de Pavlov, está dando um atestado e tanto sobre a sua própria pessoa. A revolta contra a consciência é a reação de seres covardes diante do medo de aceitar a liberdade humana. E eles escolheram isso!

Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino é economista formado pela PUC-RJ, com MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha desde 1997 no mercado financeiro, como analista de empresas e administrador de portfolio. É autor do livro "Prisioneiros da Liberdade", da editora Soler.

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