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21 Jul 2004

O Haiti É e Não É Aqui

Escrito por 

Se depender da Abin, está cancelado o jogo no Haiti. O presidente se sentiria mais seguro no meio de um tiroteio nas favelas do Rio do que na tribuna de honra no campo de Porto Príncipe. (O Globo, 10/7/2004).

Não é pequeno nem fugaz o desejo do governo brasileiro de ter um assento no Conselho de Segurança da ONU, coisa que certamente traria mais despesa para o combalido erário (acrescentar “público” é gerar um pleonasmo), mas em compensação traria inegável status de prestígio como líder incontestável do Terceiro Mundo. E como neste país status na sociedade e no mundo sempre foi muito mais ambicionado do que feijão na mesa e casa própria, Lulinha Paz e Amor não tem poupado esforços voando através dos céus africanos no restless sucatão (não sei se os gramáticos me permitem dizer “irrepousável”), fazendo visitinhas Khadafi na Líbia, a obscuros e inexpressivos países africanos e até mesmo tentando ensinar pingue-pongue aos chineses.

E tudo isto por uma única e singela razão: cabular votos de países do Terceiro Mundo, para que estes se sintam devidamente representados com o Brasil tendo um lugar no egrégio Conselho de Segurança da ONU em que o G-7 e a Rússia apitam o jogo e os demais se limitam a ficar sentados na arquibancada xingando a mãe do árbitro. Porém, se a meta visada é essa, nada mais coerente do que mandar tropas para o Haiti, malgrado a ONU só contribuir com 30% das despesas. Mas que mania esta minha de só ficar vendo despesas e não ter olhos para o grande investimento político... Não devo achar que o dinheiro é tudo, coisa que Oscar Wilde só se deu conta na maturidade. When I was young I thought that money was all, now I’m sure of it (Casso se queira: “Quando eu era jovem, eu pensava que o dinheiro tudo, agora estou certo disso”).

Porém, não satisfeito em ter mandado soldados para a terra de Papa Doc, Baby Doc e Aristide – por sinal já morreu ingloriosamente um e os demais estão tomando sopa quente em canícula senegalesca – o Brasil agora está pensando em realizar uma partida de futebol em Port au Prince entre a Seleção Canarinho - um dos justos orgulhos da pátria de chuteiras - e a Seleção do Haiti. Mas aqui entre nós e que ninguém nos ouça: para encarar aquele bando de pernas-de-pau, não precisava de um tiro de canhão para matar um mosquito: bastava mandar o famoso Íbis ou o Tabajara Foot-Ball Club dos cassetas e planetas. Ao saber da idéia, Lulinha Paz e Amor – como bom corinthiano e torcedor número 1 da gloriosa  Seleção Penta - disse que não perderia esse match por nada deste mundo. Disse até que fazia questão de convidar o Secretário Geral da ONU, Kofi Annan que, estadista sensato e prudente, gentilmente agradeceria o convite (só lamentando não poder comparecer ao evento).

Como hoje é sábado, tomei café, fui ao jornaleiro e comprei meu jornal. Percorro rapidamente as páginas numa primeira leitura e eis que me deparo com uma notinha no Nhenhenhém  do Jorge Bastos Moreno diretamente de Brasília

Bola Fora
Se depender da Abin, está cancelado o jogo no Haiti. O presidente se sentiria mais seguro no meio de um tiroteio nas favelas do Rio do que na tribuna de honra  no campo de Porto Príncipe. (O Globo, 10/7/2004).

Como se sabe, a ABIN é a Agência Brasileira de Inteligência que ocupou o lugar do SNI (Serviço Nacional de Informação) extinto no governo Collor. Entre suas atribuições está a de velar pela segurança nacional e, em particular, pela segurança do Supremo Mandatário da Nação. Todavia, após cuidadosa investigação das condições locais, seus especialistas chegaram à conclusão de que não seriam capazes de garantir a integridade física do Presidente no Estádio Nacional do Haiti, o que não é nenhum demérito para a ABIN, pois nem mesmo o serviço de segurança de George W. Bush, que tem até uma limousine antimíssil, seria capaz de garantir que ele sairia incólume de uma possível visita à terra de Papa Doc e os Ton-Ton Makut.

Tente imaginar, caro leitor... Lulinha Paz e Amor vibrando com um passeio da Seleção nos gramados imortais quando, de repente, e não mais que de repente, seu pescoço é atingido na veia jugular  por um dardo envenenado lançado por uma zarabatana que nem aquele que o Coringa lançou manualmente no pescoço de um incauto no filme do Batman. E ainda por cima deu uma filosofada: “The pen is mightier than the sword” (Caso se queira: “A pena é mais poderosa do que a espada”). Ou, coisa pior ainda, os caras fazem um bonequinho do Lula, vão espetando alfinetes no mesmo, mas não é acupuntura, porém vudu. E alto é este risco, principalmente após o Brasil ter feito o nono gol.

Fosse eu responsável pelo marquetingue da Seleção e proibiria taxativamente qualquer jogo com time de perebas, pois o lucro é duvidoso mas o prejuízo é certo. Se o time ganha, dirão: “Também... Com aquela porcaria daquele time até o Tabajara ganhava”. Se perde, dirão: “Tá vendo, Mané, a Seleção já tá perdendo até pro Haiti”.

Mas as coisas são dialéticas, caro leitor: tudo é e não é ao mesmo tempo. Do ponto de vista das generalizadas indigências material e mental, o Haiti é aqui, mas do ponto de vista da competência da EMBRAPA e da agroindústria brasileira, o Haiti não é aqui.

Que seria da nossa soja se não fossem as pesquisas da EMBRAPA? Que seria da nossa balança comercial se não fosse nossa potente e próspera agroindústria? O problema é que a primeira está seriamente ameaçada pelo desvairado empreguismo do PT, que despede técnicos altamente qualificados e bota “companheiros” nos seus lugares. E a segunda está não menos seriamente ameaçada pelas invasões dos sem-terra a latifúndios altamente produtivos. Querem mesmo é acabar com as poucas coisas que estão dando certo neste país. Só está faltando tirar o Palocci e o Meireles, e  botar nos seus lugares, o Celso Furtado e a Maria da Conceição Tavares. Roba da matti! (tradução: Ô louco, meu!).

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:21
Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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