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25 Jan 2008

Breves Notas Sobre o Renascimento

Escrito por 

Muito se fala da dita obscuridade da Idade Média. Esta praticamente é colocada como uma espécie de modelo de tudo que há de retrógrado na história da civilização Ocidental.

"O mais importante da vida não é saberes onde estás, mas sim para onde vais". (Johann Goethe)

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Muito se fala da dita obscuridade da Idade Média. Esta praticamente é colocada como uma espécie de modelo de tudo que há de retrógrado na história da civilização Ocidental. Tal imagem tem tamanha amplitude que qualquer Zé Mané tagarelante fica a recitar loas sobre o quanto esta época era sombria e o quanto o Renascimento trouxe de melhoras para todos. Todavia, em que medida afirmar tal dito seria correto?

Na medida turva, sim. Na reta, nem tanto. Vamos por partes. Primeiramente, quando as pessoas se referem os indivíduos que viviam no medievo o fazem como se estes fossem um aglomerado de elementos supersticiosos. Por sua deixa, o historiador medievalista Jacques Le Goff, descorda e, inclusive aponta-nos que os homens e mulheres deste período eram muito mais racionais e sinceros em suas crenças e práticas do que nós, homens modernos (LE GOFF; [s/d]).

Se um homem medieval testemunha-se a forma como as pessoas dos dias hodiernos procuram qualquer cartomante, numerólogos, livros de auto-ajuda chinfrins e toda parafernália de má fé e picaretagem frente a qualquer dúvida existencial.

Os homens do medievo ficariam simplesmente abismados. Alias, ficariam catatônicas vendo como nós damos ouvido as nossas celebridades de cabeça oca, encasteladas em suas torres de vaidade, opinando sobre temas basilares que elas não compreendem nadica de nada. Mas, por terem um pernão, umas trocentas plásticas, ou terem um monte de estúpidos que gritam os seus nomes em shows, imaginam ter uma espécie de autoridade moral supra-temporal.

Quanto ao Renascimento Cultural. Todos lembram do que aprenderam nos manuais de história quanto a apresentação deste movimento que tinha o intento de fazer renascer a arte greco-latina e blablabla. Entretanto, vocês já pararam e refletiram sobre “o que” da antiguidade clássica estes artistas fizeram renascer? E mais! Vocês já pensaram, por um minutinho que fosse, o que os Renascentistas, com a sua “nova arte”, deixaram morrer?

Ora, o que se tentou fazer renascer no século XVI da arte grego-latina não foi o que havia de mais profundo na antiguidade clássica européia, mas sim e apenas, o que havia de superficial e rezo nestas culturas. O que era apenas voltado para o ser exterior e, por essa razão, acabou se tornando uma expressão artificiosa, pois as formas renascidas já a muito séculos havia perdido a sua verdadeira vida (GUÉNON; 2000).

Doravante, a vida intelectual que se formou na baixa Idade Média foi sendo substituída por uma limitação do conhecimento de ordem inferior, onde estudos meramente empíricos sem a mínima consistência em um conjunto de princípios foram se assenhoreando do universo intelectual. A ciência foi, gradativamente, se tornando uma coleção colossal de detalhes insignificantes e de hipóteses estapafúrdias que são solapadas a todo o tempo por novas hipóteses do mesmo gênero (GUÉNON; 2000).

Os acadêmicos escolásticos, com a sua dedicação exclusiva para os estudos, com sua vida voltada toda para a investigação e reflexão acabaram sendo substituídos por uma nossa casta de intelectuais que, em sua maioria absoluta, não passava de intelectuais que viviam as margens ou dentro das cortes européias e a serviço delas.

A imagem do acadêmico independente que havia nascido com a UNIVERSITAS MAGISTRORUM ET SCHOLIARUM, a corporação de estudantes e professores ávidos por aprender foi perdendo o seu espaço para essa nova turba. Foi justamente por volta dos séculos XVI e XVII que forças externas às Universidades acabaram por solapar as mesmas e o núcleo de sua vida intelectual (CARVALHO; 1998) o que, por sua deixa, permitiu a ascensão deste novo modelo de intelectual cortesão do poder que veio substituir o fiel peregrino da verdade.

Quanto ao humanismo, este restringiu toda atividade intelectual ao que fosse apenas humano ou inferior ao humano, não mais aceitando a existência de uma ordem superior, como se estivem a apartar-se dos céus para que assim o homem pudesse de um modo melhor brincar de Deus e dominar a terra. Isso sem falar que muitos destes humanistas trocavam o culto cristão por antigos cultos solares pagãos (SANTOS; 1997). Sinceramente: não consigo ver nenhuma melhora nisso.

Outro ponto importante, meus caros, a ser destacado. Onde vocês acham que os artistas renascentistas e escritores humanistas encontraram as obras do período clássico? Estavam bem protegidas, conservadas e muitíssimas delas traduzidas para o latim nos monastérios. Estas não estavam escondidas como faz-se parecer em filmes como “O nome da Rosa”, mas sim, protegidas. Meus caros, se os monges não tivessem tomado a bendita atitude de proteger estas obras, provavelmente elas teriam sido todas destruídas e queimadas no correr da Alta Idade Média (séc. V – IX).

Este período, a Alta Idade Média, tinha sido uma época de grande instabilidade política devido à queda do Império Romano do Ocidente. Por essa razão, novos reinos se formavam a todo o momento criando uma forte instabilidade da imagem e das funções do poder temporal.

A única instituição que se apresentava perene era a Santa Madre Igreja que chamou para si inúmeras responsabilidades que antes eram do Estado Romano. Se ela não tivesse assumido esta função e preservado o que sobrou dos idos clássicos, nada teria sobrado para se fazer “renascer”.

E o que é mais interessante nisso tudo é que são os próprios Renascentistas que cunharam a expressão “Idade das Trevas” a este período da história do Ocidente. Alias, também são eles que cunharam o termo Idade Média como sendo um tempo médio entre duas grandes épocas: a Antiguidade Clássica e a Modernidade Nascente.

Por fim, se fôssemos nos referir a uma época como idade das trevas, teria que ser com relação aos dias atuais. Ora, como podemos chamar uma época que possui todos os meios técnicos que permitem o fácil acesso a bens culturais e, mesmo assim, apenas se apetece do que é vulgo e raso? Que nome melhor para estes dias em que as pessoas, por não terem mais nenhuma referência civilizacional, se deixam guiar por qualquer pachorra midiática ou meramente imediatista e materialista?

Então, viva a modernidade e sua ignóbil vitória de Pírrica. Viva ao homem moderno que em meio a sua confusão existencial e cognitiva, por medida de segurança, prefere se apegar a velhos clichês para assim poder melhor se esquivar da dura verdade sobre nós.

 

Referências

CARVALHO, Olavo de. Crise da universidade ou eclipse da consciência? [27/07/1998]. Disponível na Internet: http://olavodecarvalho.org.

GUÉNON, René. La crisis del mundo moderno (1927). Textos Tradicionales: E-book em formato Word, [2000]. Disponível na Internet: http://www.euskalnet.net/graal/

Jacques Lê Goff diz ter confiança no século XXI. Entrevista a Laurent Theis: Le Point, [s/d]. Disponível na Internet: http://dartagnanzanela.k6.com.br.

SANTOS, Patrícia Lessa dos. No caldeirão dos bruxos: a filosofia herética de Giordano Bruno. Campinas: 1997. Dissertação (Mestrado em Educação na Área de Filosofia e História da Educação) - Faculdade de Educação, UNICAMP.

"O mais importante da vida não é saberes onde estás, mas sim para onde vais". (Johann Goethe)

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Muito se fala da dita obscuridade da Idade Média. Esta praticamente é colocada como uma espécie de modelo de tudo que há de retrógrado na história da civilização Ocidental. Tal imagem tem tamanha amplitude que qualquer Zé Mané tagarelante fica a recitar loas sobre o quanto esta época era sombria e o quanto o Renascimento trouxe de melhoras para todos. Todavia, em que medida afirmar tal dito seria correto?

Na medida turva, sim. Na reta, nem tanto. Vamos por partes. Primeiramente, quando as pessoas se referem os indivíduos que viviam no medievo o fazem como se estes fossem um aglomerado de elementos supersticiosos. Por sua deixa, o historiador medievalista Jacques Le Goff, descorda e, inclusive aponta-nos que os homens e mulheres deste período eram muito mais racionais e sinceros em suas crenças e práticas do que nós, homens modernos (LE GOFF; [s/d]).

Se um homem medieval testemunha-se a forma como as pessoas dos dias hodiernos procuram qualquer cartomante, numerólogos, livros de auto-ajuda chinfrins e toda parafernália de má fé e picaretagem frente a qualquer dúvida existencial.

Os homens do medievo ficariam simplesmente abismados. Alias, ficariam catatônicas vendo como nós damos ouvido as nossas celebridades de cabeça oca, encasteladas em suas torres de vaidade, opinando sobre temas basilares que elas não compreendem nadica de nada. Mas, por terem um pernão, umas trocentas plásticas, ou terem um monte de estúpidos que gritam os seus nomes em shows, imaginam ter uma espécie de autoridade moral supra-temporal.

Quanto ao Renascimento Cultural. Todos lembram do que aprenderam nos manuais de história quanto a apresentação deste movimento que tinha o intento de fazer renascer a arte greco-latina e blablabla. Entretanto, vocês já pararam e refletiram sobre “o que” da antiguidade clássica estes artistas fizeram renascer? E mais! Vocês já pensaram, por um minutinho que fosse, o que os Renascentistas, com a sua “nova arte”, deixaram morrer?

Ora, o que se tentou fazer renascer no século XVI da arte grego-latina não foi o que havia de mais profundo na antiguidade clássica européia, mas sim e apenas, o que havia de superficial e rezo nestas culturas. O que era apenas voltado para o ser exterior e, por essa razão, acabou se tornando uma expressão artificiosa, pois as formas renascidas já a muito séculos havia perdido a sua verdadeira vida (GUÉNON; 2000).

Doravante, a vida intelectual que se formou na baixa Idade Média foi sendo substituída por uma limitação do conhecimento de ordem inferior, onde estudos meramente empíricos sem a mínima consistência em um conjunto de princípios foram se assenhoreando do universo intelectual. A ciência foi, gradativamente, se tornando uma coleção colossal de detalhes insignificantes e de hipóteses estapafúrdias que são solapadas a todo o tempo por novas hipóteses do mesmo gênero (GUÉNON; 2000).

Os acadêmicos escolásticos, com a sua dedicação exclusiva para os estudos, com sua vida voltada toda para a investigação e reflexão acabaram sendo substituídos por uma nossa casta de intelectuais que, em sua maioria absoluta, não passava de intelectuais que viviam as margens ou dentro das cortes européias e a serviço delas.

A imagem do acadêmico independente que havia nascido com a UNIVERSITAS MAGISTRORUM ET SCHOLIARUM, a corporação de estudantes e professores ávidos por aprender foi perdendo o seu espaço para essa nova turba. Foi justamente por volta dos séculos XVI e XVII que forças externas às Universidades acabaram por solapar as mesmas e o núcleo de sua vida intelectual (CARVALHO; 1998) o que, por sua deixa, permitiu a ascensão deste novo modelo de intelectual cortesão do poder que veio substituir o fiel peregrino da verdade.

Quanto ao humanismo, este restringiu toda atividade intelectual ao que fosse apenas humano ou inferior ao humano, não mais aceitando a existência de uma ordem superior, como se estivem a apartar-se dos céus para que assim o homem pudesse de um modo melhor brincar de Deus e dominar a terra. Isso sem falar que muitos destes humanistas trocavam o culto cristão por antigos cultos solares pagãos (SANTOS; 1997). Sinceramente: não consigo ver nenhuma melhora nisso.

Outro ponto importante, meus caros, a ser destacado. Onde vocês acham que os artistas renascentistas e escritores humanistas encontraram as obras do período clássico? Estavam bem protegidas, conservadas e muitíssimas delas traduzidas para o latim nos monastérios. Estas não estavam escondidas como faz-se parecer em filmes como “O nome da Rosa”, mas sim, protegidas. Meus caros, se os monges não tivessem tomado a bendita atitude de proteger estas obras, provavelmente elas teriam sido todas destruídas e queimadas no correr da Alta Idade Média (séc. V – IX).

Este período, a Alta Idade Média, tinha sido uma época de grande instabilidade política devido à queda do Império Romano do Ocidente. Por essa razão, novos reinos se formavam a todo o momento criando uma forte instabilidade da imagem e das funções do poder temporal.

A única instituição que se apresentava perene era a Santa Madre Igreja que chamou para si inúmeras responsabilidades que antes eram do Estado Romano. Se ela não tivesse assumido esta função e preservado o que sobrou dos idos clássicos, nada teria sobrado para se fazer “renascer”.

E o que é mais interessante nisso tudo é que são os próprios Renascentistas que cunharam a expressão “Idade das Trevas” a este período da história do Ocidente. Alias, também são eles que cunharam o termo Idade Média como sendo um tempo médio entre duas grandes épocas: a Antiguidade Clássica e a Modernidade Nascente.

Por fim, se fôssemos nos referir a uma época como idade das trevas, teria que ser com relação aos dias atuais. Ora, como podemos chamar uma época que possui todos os meios técnicos que permitem o fácil acesso a bens culturais e, mesmo assim, apenas se apetece do que é vulgo e raso? Que nome melhor para estes dias em que as pessoas, por não terem mais nenhuma referência civilizacional, se deixam guiar por qualquer pachorra midiática ou meramente imediatista e materialista?

Então, viva a modernidade e sua ignóbil vitória de Pírrica. Viva ao homem moderno que em meio a sua confusão existencial e cognitiva, por medida de segurança, prefere se apegar a velhos clichês para assim poder melhor se esquivar da dura verdade sobre nós.

 

Referências

CARVALHO, Olavo de. Crise da universidade ou eclipse da consciência? [27/07/1998]. Disponível na Internet: http://olavodecarvalho.org.

GUÉNON, René. La crisis del mundo moderno (1927). Textos Tradicionales: E-book em formato Word, [2000]. Disponível na Internet: http://www.euskalnet.net/graal/

Jacques Lê Goff diz ter confiança no século XXI. Entrevista a Laurent Theis: Le Point, [s/d]. Disponível na Internet: http://dartagnanzanela.k6.com.br.

SANTOS, Patrícia Lessa dos. No caldeirão dos bruxos: a filosofia herética de Giordano Bruno. Campinas: 1997. Dissertação (Mestrado em Educação na Área de Filosofia e História da Educação) - Faculdade de Educação, UNICAMP.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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