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18 Jan 2008

O Que é Iluminismo? (Was Ist Aufklärung?*) - Parte I

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Segundo pensamos, estes e outros pensadores iluministas têm muito mais em comum do que “uma certa atitude de espírito inspirada no método científico”, como já propusemos na nossa Introdução.

A pergunta acima pode receber uma resposta breve ou longa. De acordo com a primeira, basta dizer que Aufklärung é uma palavra alemã geralmente traduzida por “esclarecimento”, assim como Erklärung costuma ser traduzida por “explicação”. Contudo, quando à primeira palavra é acrescentado um artigo definido - Die Aufklärung - e é usada para designar um período da história situado aproximadamente entre l715 e 1789 (Duby, 1995, p.476), costuma ser traduzida em francês por L’Âge des Lumières ou simplesmente Les Lumières, e em inglês por The Enlightenment. De acordo com o Webster College (1962, p.482), o verbo to enlighten quer dizer: (l ) “oferecer a luz do fato ou do conhecimento a alguém, (2) “revelar verdades para alguém” e (3) “dotar alguém de discernimento”. Como vemos, o verbo to enlighten não difere muito do verbo aufklären, assim como a expressão The Enlightenment também não difere muito de Die Aufklärung.

De acordo com o Larrousse Classique (1957, p.585). “illuminisme” é definido como “doctrine de certains mystiques”, coisa que nada tem a ver com o português “iluminismo” ou “O Iluminismo”. Confessamos ignorar completamente a razão pela qual a referida época da história costuma ser assim chamada na nossa língua, mas não vemos nenhuma razão para substitui-la por “O Esclarecimento” [ou “A Elucidação”, para estar de acordo com o gênero de Die Aufklärung assim como não vemos nenhuma razão para substituir a expressão “razão social” por “nome da firma”, uma vez que a primeira foi tão consagrada pelo uso na linguagem jurídica quanto “Iluminismo” o foi na linguagem filosófica. Referindo-se à época da história demarcada por ele mesmo entre 1715 e 1789, diz o conhecido historiador G. Duby:

A Idade das Luzes (Les Lumières) não constitui propriamente falando uma filosofia, se entendemos por isto uma filosofia sistemática, coerente e exclusiva. Tantos os filósofos, quantas as filosofias, poder-se-ia dizer. Fontenelle é um mecanicista, Voltaire um teista inquieto; Helvetius é um materialista” egoísta”, Diderot um materialista hipermoralista; Buffon é um naturalista, La Mettrie é um médico, d’Alembert um geômetra e Montesquieu um jurista. Mas todos têm em comum uma certa atitude de espírito buscando - na investigação empírica das coisas - suas correlações até então obscurecidas pelos “preconceitos”, para alcançar explicações novas e mais profundas. A Idade das Luzes é uma inteligência renovada, um esclarecimento novo. O agente deste esclarecimento não é a fé, mas a razão verdadeiramente iluminadora (véritablement illuminatrice), daí o nome desta mesma Idade.(Duby, 1995, p.493).

Segundo pensamos, estes e outros pensadores iluministas têm muito mais em comum do que “uma certa atitude de espírito inspirada no método científico”, como já propusemos na nossa Introdução. Mas essa passagem de Duby em que ele fala explicitamente de uma “razão verdadeiramente iluminadora” serve para mostrar que a expressão portuguesa “O Iluminismo”, apesar de não corresponder ao sentido de “illuminisme”, não está tão longe do sentido de L’Âge des Lumières, Les Lumières, Die Aufklärung ou The Enlightenment.

Desse modo, em vez de encetar uma penosa hermenêutica da palavra Aufklärung, tendo como pressuposto supostas densidade e profundidade metafísicas da língua de Goethe - para alguns fanáticos, a única capaz de expressar a recôndita essência do Ser, além da língua grega - pensamos que é muito mais proveitoso indagar se ocorreu na Prússia ou em algum principado germânico (na época não existia “Alemanha”) um movimento de idéias comparável ao Iluminismo Francês e ao Iluminismo Escocês. A maioria dos historiadores das idéias costuma fornecer uma resposta positiva e aponta como grandes expoentes G .W. Leibniz ( 1646-1716 ), C. Wolf ( 1679-1754) e I. Kant (1724-1804) .De nossa parte, pensamos que somente este último pode ser considerado um filósofo afinado com as idéias básicas sustentadas pelos filósofos iluministas, caso se prefira: “elucidado-res” ou “esclarecedores”, franceses e escoceses.

Tal como Descartes, Leibniz foi um grande matemático e deu importantes contribuições para o conhecimento neste domínio do saber. Leibniz e Newton - um trabalhando sem conhecer o trabalho do outro - chegaram por diferentes caminhos à descoberta ou à invenção do cálculo infinitesimal. As investigações leibnizianas sobre a algebrização da lógica - cujos textos só foram descobertos no início do século XX - transformaram seu autor em um dos pioneiros da lógica simbólica ou matemática, que constitui hoje um importante domínio de pesquisa. Todavia, o que está em jogo para decidir se Leibniz deve ser considerado um pensador iluminista ou um precursor deste mesmo não é a sua atividade como matemático, porém sua visão filosófica. Esta, quando bem examinada, não permite considerá-lo como um membro da família dos iluministas.

Tal como Bacon, Leibniz era conservador no que diz respeito à teoria e à prática políticas: defendia o status quo do poder absolutista. Diferentemente de Bacon, no entanto, Leibniz não rejeitava radicalmente o pensamento metafísico e teológico da tradição escolástica, porquanto ainda estava bastante preso a ele (apesar de apresentar grande originalidade sob diversos aspectos) e, diferentemente de Bacon, não encarou o conhecimento científico-tecnológico como agente transformador da sociedade, nem se preocupou com a erradicação dos preconceitos legados pela tradição.

O movimento racionalista se desenvolveu no continente europeu a partir do século XVII (Descartes, Malebranche, Spinoza e Leibniz), ao mesmo tempo em que o movimento empirista se desenvolvia na Inglaterra (F. Bacon, Hobbes, Locke e Berkeley) a partir desse mesmo século, porém tinha ali mesmo suas raízes desde o século XIII (R. Bacon, R. Grosseteste, G. de Ockham). O racionalismo sofreu influências muito mais fortes da metafísica e da teologia católicas e muito mais fracas das conquistas da ciência experimental e da tecnologia então nascentes. Mas no caso do empirismo ocorreu justamente o contrário.

Enquanto os filósofos continentais tinham excelente formação matemática e estavam profundamente envolvidos com um background dominado pelo pensamento católico, os filósofos britânicos não tinham nenhuma formação matemática, porém formações em domínios articulados com a experiência, para os quais esta era fundamental. Bacon tinha uma formação jurídica, ao passo que Hobbes e Locke não só estudaram como praticavam medicina. E além disso, os empiristas, a partir de Hobbes, estavam profundamente envolvidos com um background dominado pela Reforma Protestante. Segundo pensamos, estas diferenças entre o contexto continental e o britânico são cruciais para as respectivas estruturações e visões de mundo dos dois grandes movimentos do século XVII.

(continua)

__________________________

* O texto acima é uma interpretação do famoso artigo de Immanuel Kant Beantwortung der Frage: was ist Auflärung? [Em resposta à questão: O que é iluminismo?] e faz parte de nosso livro inédito: A Superação da Imaturidade: de Francis Bacon à Revolução Americana.

A pergunta acima pode receber uma resposta breve ou longa. De acordo com a primeira, basta dizer que Aufklärung é uma palavra alemã geralmente traduzida por “esclarecimento”, assim como Erklärung costuma ser traduzida por “explicação”. Contudo, quando à primeira palavra é acrescentado um artigo definido - Die Aufklärung - e é usada para designar um período da história situado aproximadamente entre l715 e 1789 (Duby, 1995, p.476), costuma ser traduzida em francês por L’Âge des Lumières ou simplesmente Les Lumières, e em inglês por The Enlightenment. De acordo com o Webster College (1962, p.482), o verbo to enlighten quer dizer: (l ) “oferecer a luz do fato ou do conhecimento a alguém, (2) “revelar verdades para alguém” e (3) “dotar alguém de discernimento”. Como vemos, o verbo to enlighten não difere muito do verbo aufklären, assim como a expressão The Enlightenment também não difere muito de Die Aufklärung.

De acordo com o Larrousse Classique (1957, p.585). “illuminisme” é definido como “doctrine de certains mystiques”, coisa que nada tem a ver com o português “iluminismo” ou “O Iluminismo”. Confessamos ignorar completamente a razão pela qual a referida época da história costuma ser assim chamada na nossa língua, mas não vemos nenhuma razão para substitui-la por “O Esclarecimento” [ou “A Elucidação”, para estar de acordo com o gênero de Die Aufklärung assim como não vemos nenhuma razão para substituir a expressão “razão social” por “nome da firma”, uma vez que a primeira foi tão consagrada pelo uso na linguagem jurídica quanto “Iluminismo” o foi na linguagem filosófica. Referindo-se à época da história demarcada por ele mesmo entre 1715 e 1789, diz o conhecido historiador G. Duby:

A Idade das Luzes (Les Lumières) não constitui propriamente falando uma filosofia, se entendemos por isto uma filosofia sistemática, coerente e exclusiva. Tantos os filósofos, quantas as filosofias, poder-se-ia dizer. Fontenelle é um mecanicista, Voltaire um teista inquieto; Helvetius é um materialista” egoísta”, Diderot um materialista hipermoralista; Buffon é um naturalista, La Mettrie é um médico, d’Alembert um geômetra e Montesquieu um jurista. Mas todos têm em comum uma certa atitude de espírito buscando - na investigação empírica das coisas - suas correlações até então obscurecidas pelos “preconceitos”, para alcançar explicações novas e mais profundas. A Idade das Luzes é uma inteligência renovada, um esclarecimento novo. O agente deste esclarecimento não é a fé, mas a razão verdadeiramente iluminadora (véritablement illuminatrice), daí o nome desta mesma Idade.(Duby, 1995, p.493).

Segundo pensamos, estes e outros pensadores iluministas têm muito mais em comum do que “uma certa atitude de espírito inspirada no método científico”, como já propusemos na nossa Introdução. Mas essa passagem de Duby em que ele fala explicitamente de uma “razão verdadeiramente iluminadora” serve para mostrar que a expressão portuguesa “O Iluminismo”, apesar de não corresponder ao sentido de “illuminisme”, não está tão longe do sentido de L’Âge des Lumières, Les Lumières, Die Aufklärung ou The Enlightenment.

Desse modo, em vez de encetar uma penosa hermenêutica da palavra Aufklärung, tendo como pressuposto supostas densidade e profundidade metafísicas da língua de Goethe - para alguns fanáticos, a única capaz de expressar a recôndita essência do Ser, além da língua grega - pensamos que é muito mais proveitoso indagar se ocorreu na Prússia ou em algum principado germânico (na época não existia “Alemanha”) um movimento de idéias comparável ao Iluminismo Francês e ao Iluminismo Escocês. A maioria dos historiadores das idéias costuma fornecer uma resposta positiva e aponta como grandes expoentes G .W. Leibniz ( 1646-1716 ), C. Wolf ( 1679-1754) e I. Kant (1724-1804) .De nossa parte, pensamos que somente este último pode ser considerado um filósofo afinado com as idéias básicas sustentadas pelos filósofos iluministas, caso se prefira: “elucidado-res” ou “esclarecedores”, franceses e escoceses.

Tal como Descartes, Leibniz foi um grande matemático e deu importantes contribuições para o conhecimento neste domínio do saber. Leibniz e Newton - um trabalhando sem conhecer o trabalho do outro - chegaram por diferentes caminhos à descoberta ou à invenção do cálculo infinitesimal. As investigações leibnizianas sobre a algebrização da lógica - cujos textos só foram descobertos no início do século XX - transformaram seu autor em um dos pioneiros da lógica simbólica ou matemática, que constitui hoje um importante domínio de pesquisa. Todavia, o que está em jogo para decidir se Leibniz deve ser considerado um pensador iluminista ou um precursor deste mesmo não é a sua atividade como matemático, porém sua visão filosófica. Esta, quando bem examinada, não permite considerá-lo como um membro da família dos iluministas.

Tal como Bacon, Leibniz era conservador no que diz respeito à teoria e à prática políticas: defendia o status quo do poder absolutista. Diferentemente de Bacon, no entanto, Leibniz não rejeitava radicalmente o pensamento metafísico e teológico da tradição escolástica, porquanto ainda estava bastante preso a ele (apesar de apresentar grande originalidade sob diversos aspectos) e, diferentemente de Bacon, não encarou o conhecimento científico-tecnológico como agente transformador da sociedade, nem se preocupou com a erradicação dos preconceitos legados pela tradição.

O movimento racionalista se desenvolveu no continente europeu a partir do século XVII (Descartes, Malebranche, Spinoza e Leibniz), ao mesmo tempo em que o movimento empirista se desenvolvia na Inglaterra (F. Bacon, Hobbes, Locke e Berkeley) a partir desse mesmo século, porém tinha ali mesmo suas raízes desde o século XIII (R. Bacon, R. Grosseteste, G. de Ockham). O racionalismo sofreu influências muito mais fortes da metafísica e da teologia católicas e muito mais fracas das conquistas da ciência experimental e da tecnologia então nascentes. Mas no caso do empirismo ocorreu justamente o contrário.

Enquanto os filósofos continentais tinham excelente formação matemática e estavam profundamente envolvidos com um background dominado pelo pensamento católico, os filósofos britânicos não tinham nenhuma formação matemática, porém formações em domínios articulados com a experiência, para os quais esta era fundamental. Bacon tinha uma formação jurídica, ao passo que Hobbes e Locke não só estudaram como praticavam medicina. E além disso, os empiristas, a partir de Hobbes, estavam profundamente envolvidos com um background dominado pela Reforma Protestante. Segundo pensamos, estas diferenças entre o contexto continental e o britânico são cruciais para as respectivas estruturações e visões de mundo dos dois grandes movimentos do século XVII.

(continua)

__________________________

* O texto acima é uma interpretação do famoso artigo de Immanuel Kant Beantwortung der Frage: was ist Auflärung? [Em resposta à questão: O que é iluminismo?] e faz parte de nosso livro inédito: A Superação da Imaturidade: de Francis Bacon à Revolução Americana.

Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

1 Comentário

  • Link do comentário FRANCISCO DE LIMA GOMES Terça, 12 Maio 2015 21:28 postado por FRANCISCO DE LIMA GOMES

    Caro Mario Guerreiro,

    Gostaria de saber como chegar ao:

    1) O Que é Iluminismo? (Was Ist Aufklärung?*) - Parte II
    2) A destruição do senso comum pela filosofia de Gramsci (segunda parte);
    3) A destruição do senso comum pela filosofia de Gramsci (primeira parte);
    4) A Superação da Imaturidade: de Francis Bacon à Revolução Americana. Uma nova visão do Iluminismo

    Por favor, se souber me informe.

    Francisco Gomes

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