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19 Jul 2004

Abaixo do Reino de Tonga

Escrito por 

O Brasil caiu no ranking do índice de desenvolvimento humano da ONU, e o governo Lula, mais uma vez culpa a tal herança maldita.

No O Estado de S. Paulo de 15 de julho, duas manchetes de capa chamavam atenção e traduziam notícias positivas. A primeira já era suficiente para elevar o ânimo dos leitores: “Emprego na indústria tem aumento recorde”.

Vou ao caderno B para completar a leitura e vejo que os dados auspiciosos procedem da indústria paulista, estando ligados ao setor de exportação. Na verdade, o crescimento de maio foi liderado pelo Amazonas, mas lá a produção é local e concentrada em poucos produtos e, por isso, Isabella Nunes Pereira, gerente do IBGE, destacou São Paulo como “uma síntese do que ocorreu na indústria brasileira em maio”. Somente São Paulo foi responsável por 43% da produção nacional.

Viva São Paulo! Ainda bem que temos São Paulo! E é uma rematada estupidez daqueles pouco dotados das luzes da compreensão, dizer que São Paulo traduz o imperialismo interno. Este jargão esquerdista apenas confirma nossa inarredável vocação para o atraso, nossa aristofobia ou medo dos melhores. Como mineira que vive há tempos no Paraná, digo e afirmo que São Paulo, nos tempos que correm, é o que resta para que se tenha algum sentimento de orgulho pelo Brasil, sem deixar de mencionar o Rio Grande do Sul que impressiona pela organização, seriedade e preparo do seu empresariado.

No Paraná, como no restante do País, vale a propaganda.  Alardeia-se pela TV que o governador criou nesse Estado, mais empregos do que em todo território nacional. Será? Se foi, talvez tenha a ver com uma estória ocorrida em Londrina, onde a propaganda é tambémlargamente usada.

A estória é a de uma jovem que se submete a uma entrevista para obter emprego. Disse ela ao entrevistador, que numa loja de calçados onde trabalhou chegou a ganhar mil reais por mês, mas que aceitava os quatrocentos reais oferecidos pela empresa porque sua situação era desesperada e precisava sobreviver. A resposta que recebeu foi a seguinte: “Bem, já que você precisa tanto do emprego o terá, mas vamos lhe pagar o salário mínimo”.

Se fosse o salário mínimo prometido pelo PT quando era oposição, quem sabe daria para a jovem tomar uma refeição por dia. Mas ela receberá o mínimo “possível”, a que se submeteu diante da falta de outras oportunidades mais dignas de sobrevivência. Um salário mínimo, diga-se de passagem, que não fica muito distante dos demais salários pagos às classes médias, nas quais estão muitos dos que se sacrificaram e se esforçaram para fazer um curso superior, mas que chegam a entrar em longas filas para disputar uma vaga de gari. Este é o Brasil, esta é a mentalidade herdada e mantida. Esta é a maneira de ofertar emprego até porquê, pequenos e médios empresários não conseguem pagar mais porque estão sufocados por juros, taxas, impostos e burocracia asfixiante. Emprego bom só no Estado e para quem tem lado.

A segunda notícia positiva era um tanto incompreensível: “Brasil melhora, mas cai em ranking mundial”. Isso, que poderia equivaler ao “tá ruim, mas tá bom”, letra de uma música, era apenas a chamada para o resultado do Índice de Desenvolvimento das Nações Unidas (IDH).

Segundo os dados apresentados pelo levantamento, o Brasil continua entre os países de desenvolvimento humano médio e passou da 65ª posição para a 72ª, entre 175 países e 2 territórios, ficando abaixo da colocação que se encontrava no começo dos anos 90. De acordo com o IDH estamos abaixo dos seguintes países: Macedônia, Panamá, Bielo-Rússia, Tonga, Ilha Maurício, Albânia, Bósnia-Herzegovina, Suriname, Venezuela, Romênia, Ucrânia e Santa Lúcia.  Em 34º lugar entre os países de desenvolvimento elevado, fulgura a Argentina, que jogou água na fervura do Mercosul, o antídoto da Alca para o governo Lula.

Para variar, culpou-se o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso pela nossa queda no ranking do IDH. Só faltou dizer-se que a derrota que o Paraguai infringiu ao Brasil na disputa da Copa América, foi culpa de FHC. Para os tucanos o resultado traduziu manipulação dos dados da educação, feita pelo governo em curso.

Quanto Rolf kuntz, no jornal acima citado, raciocina que a recuperação que vem ocorrendo na economia se deve “a manutenção de políticas já delineadas no governo anterior”. Acrescenta o jornalista, que “o feito mais notável do governo atual, até agora, foi a preservação de um legado aproveitável”.

Resta, portanto, ao governo Lula, continuar aproveitando a herança bendita. Caso contrário, na próxima avaliação do IDH poderemos ficar bem mais abaixo do Reino de Tonga.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:21
Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

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