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19 Jul 2004

O Mal-Estar da Esquerda

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Vamos para a terceira década perdida, a caminho da quarta. Enquanto não tivermos uma revolução liberal e federalista no Brasil, faremos o caminho dos caranguejos, isto é, caminhando para trás.

Verdades: 1- A economia é regida pela lei da escassez, que só pôde ser minimizada com o advento do capitalismo. Onde o capitalismo não surgiu ou desapareceu, o modo de vida das pessoas se assemelha àquele vivido pela Europa na Idade Média ou mesmo em momento anterior. Há muitas comunidades vivendo no neolítico; 2- A liberdade é produto da sociedade capitalista. As formas de governo que regem as sociedades não capitalistas variam, mas nenhuma garante as liberdades individuais e os direitos humanos. O totalitarismo historicamente tem sido uma reação contra a modernidade do capitalismo; 3- A esquerda na oposição sempre discursou como se tivesse os meios para suplantar a lei da escassez. Chegando ao poder, teve que se curvar ao princípio de realidade e usar a racionalidade das leis econômicas para administrar o Estado. Foi assim na Europa, tem sido assim no Brasil, é assim em toda parte; 4- Esse discurso da esquerda, eficiente para chegar ao poder, mostrou-se uma armadilha para os novos governantes, pois tiveram que desmentir, palavra a palavra, décadas de parolagem falsificada.

Digo isso para comentar as entrevistas que a Folha de São Paulo de hoje trouxe a público, feita com o filósofo Paulo Arantes, comentando o governo Lula. A seguinte declaração do filósofo sumariza o mal-estar dos pensadores de esquerda: “O ajuste intelectual tucano-petista é a incorporação da estupidez marxo-progressista ao atual consentimento coletivo na injustiça e no sofrimento das populações, na expansão da tolerância com o intolerável, conforme foi se avolumando a maré sinistra das vulnerabilidades”.

Analisemos. Não há nenhum consentimento coletivo na injustiça e no sofrimento das populações. O que intelectuais como Arantes não conseguem perceber, cegos pela ideologia que coloca o Estado acima dos indivíduos e do mercado, é que pobreza e sofrimento humanos sempre estiveram aí e apenas com o desenvolvimento do capitalismo é que puderam ser minorados. Na verdade, o que tem retardo esse processo de enriquecimento coletivo no Brasil é o Estado, conduzido desde sempre pelos que acreditam em Marx, Lênin et caterva. A injustiça está sendo produzida na melhor das intenções, pois se usam os piores meios, aqueles que as negam.

Arantes e seus amigos são incapazes de fazerem uma verdadeira autocrítica, pois isso equivaleria a uma confissão de burrice praticada entusiasticamente por anos e anos de cátedra e de pregação na imprensa. Seria o reconhecimento do próprio fracasso, um jogar na lixeira de todo o pseudoconhecimento amealhado no meio universitário. Seria um começar de novo para quem ficou caquético defendendo falsas idéias. É preciso entender que é muito difícil fazer isso, haveria que ter muita humildade e desprendimento de espírito, o que não é comum nesse meio. É mais cômodo ficar vituperando os pares intelectuais por se mostrarem incapazes de produzir teorias compatíveis com a realidade do exercício do poder.

O fato é que as falsas teorias de esquerda não descrevem a realidade como ela é, mas como ela gostaria que fosse. Edificam construção nas nuvens e pretendem, a partir dessa falsificação, governar o mundo, resgatar os pobres. É claro que não poderia dar certo. Tiveram que beijar a cruz da racionalidade, tomando de empréstimo o conhecimento perene desenvolvido pelos autores liberais. Diga-se, todavia, que isso não os torna liberais, apenas torna-os parasitas intelectuais de seus adversários ideológicos. Continuam de esquerda como sempre foram, isto é, acreditando que é possível implantar a igualdade econômica e que o Estado seria o grande instrumento para esse fim. No poder, todavia, não sabem como colocar essas idéias de jerico em prática. Ainda bem, porque seria a implantação do caos.

Vamos para a terceira década perdida, a caminho da quarta. Enquanto não tivermos uma revolução liberal e federalista no Brasil, faremos o caminho dos caranguejos, isto é, caminhando para trás. Pelo menos não teremos mais que agüentar a catilinária mistificadora dos ideólogos de esquerda, agora definitivamente desacreditada. Lula, de fato, é um brasileiro igualzinho a qualquer outro não liberal, uma vez no poder.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:21
José Nivaldo Cordeiro

José Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas na FGV-SP. Cristão, liberal e democrata, acredita que o papel do Estado deve se cingir a garantia da ordem pública. Professa a idéia de que a liberdade, a riqueza e a prosperidade devem ser conquistadas mediante esforço pessoal, afastando coletivismos e a intervenção estatal nas vidas dos cidadãos.

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