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17 Dez 2007

Um Deus à La Carte

Escrito por 

No Ocidente, temos hoje milhões de deuses, talvez mais que os milhões de deuses do Oriente. Uma cabeça, um deus.

Curioso para saber o que se fala a meu respeito, dei um googlada no universo blogueiro. Nossa, mudaram os tempos! Ninguém mais me chama de comunista, como já fui chamado em priscas eras. Muito menos de agente do DOPS, do SNI ou da CIA, epítetos aos quais também já fiz jus. Houve época em que me foi pespegada a alcunha Robin Hood às avessas, o que tira de todos e não dá nada a ninguém. Um publicitário teve inclusive um achado dos bons: Savonarola às avessas, que nos condena por não pecarmos.

Coisas da época da Guerra Fria. Mudam os tempos, mudam os insultos. Sou visto hoje, fundamentalmente como… ateu. Mais ainda, como ateu militante. Bom, ateu eu o sou desde meus tenros anos e não vejo isto como ofensa. Mas definir alguém como ateu é muito pobre. Significa apenas que a pessoa nega a existência de deus. Ora, uma negação não passa de uma negação. Não serve para definição. É algo como afirmar: o Cristaldo não gosta da literatura do Machado. Isto pouco ou nada diz a meu respeito. Se alguém dissesse que sou marxista ou anarquista, positivista ou espírita, tomista ou cartesiano, estaria de fato esboçando uma definição. Ocorre que não sou nada disto.

Em minhas universidades, estudei Filosofia. E principalmente História da Filosofia. Se foi estudando a Bíblia e História das Religiões que me tornei ateu, certamente foi a História da Filosofia que me afastou da filosofia. O sentido da vida é este, diz um pensador. Não, o sentido da vida é aquele, diz outro. Sem falar nos que pretendem – e entre eles me incluo – que a vida não tem sentido algum. Uns afirmam que a História ruma para lá. Já outros pensam que ruma para cá. Cada filósofo constrói seu sistema e busca legar um ismo ao pensamento humano. Ora, a vida é bem mais simples. O homem é um bicho que nasce, cresce e morre e fim de papo. Em meio a isso, trabalha e luta, constrói e destrói, faz pontes e poemas, romances e óperas, constrói cidades, barcos e aviões, sofre e se alegra, chora e ri, faz guerra e confraterniza… e vai pra tumba. Não vejo mistérios na vida. Os sistemas filosóficos só servem para confundir. Não tenho filosofia alguma.

Quanto ao ateu militante, é calúnia soez. Não sou militante de doutrina nenhuma, aliás não professo doutrina nenhuma nem nunca convidei ninguém a partilhar de minhas crenças. Apenas as exponho e não peço a quem quer que seja que me siga. Ateísmo não constitui doutrina, mas exige uma certa fortaleza de espírito. A maior parte das pessoas não consegue viver sem bengalas metafísicas. Jamais me ocorreria chutar a bengala de quem dela necessita para viver. Nunca disse a alguém: larga tua religião e vem gozar a vida.

Mas não renuncio ao direito de crítica às religiões. Assim como critiquei com veemência as ideologias deste século e do passado, critico as religiões e particularmente o catolicismo, que conheço melhor que muito bispo. A época, no entanto, é hostil a quem ousa criticar religiões. Sinal dos tempos: passei minha juventude discutindo com os comunistas. Hoje, meus desafetos são os cristãos. Se sentem mais donos da verdade que os comunistas. Na época da universidade, se disséssemos a um marxista que não éramos marxistas, ele nos olhava com piedade. “Esse pobre diabo não entendeu o sentido da História”. Com a Queda do Muro e o desmoronamento da União Soviética, o famoso sentido da História foi pras cucuias.

A bandeira dos fanáticos foi resgatada e passou a ser empunhada por católicos. A começar pelo atual papa, o Bento, que julga que fora do cristianismo não há salvação. Ser ateu, para muitos católicos contemporâneos, é sinônimo de ser analfabeto e nada entender do mundo.

Em minhas discussões, tenho ouvido argumentos que jamais imaginava ouvir. Tenho discutido com jovens que defendem – sem pejo algum – a Inquisição. Nem os padres de minha época de jovem ousaram tanto. Preferiam desviar do assunto. Já vi comunista defendendo matanças, mas nunca ouvi um comunista defender a tortura. Os comunistas sempre torturaram às escondidas, sinal que viam na tortura algo abjeto. A Inquisição louvava a tortura, como um instrumento para a salvação das almas. Os jovens defensores da Inquisição – e outros não tão jovens – consideram que a legalização da tortura pelos inquisidores foi um considerável avanço na área do Direito.

Nesses debates, tomei ciência de outros fatos não menos significativos. Descobri, por exemplo, que a maioria dos católicos pouco ou nada conhece da doutrina que professa. (Não por acaso, recente pesquisa feita na França revelou que apenas um católico em cada dois acredita em Deus). Eu, ateu – analfabeto por definição – preciso ensinar-lhes pacientemente os dogmas e sua história, o magistério da Igreja e os próprios fatos da Bíblia. Percebi que são raríssimos os católicos que um dia leram a Bíblia e mais raros ainda os que a lêem com isenção. Basta começarmos a citar os massacres de Jeová e não falta quem salte: estás citando fora do contexto. Mas que contexto, meu caro? Em que contexto é justificável genocídio, massacre de tribos, matança de inocentes?

Outra descoberta curiosa, que mereceria aliás um denso ensaio, é que voltamos definitivamente ao politeísmo. Monoteísmo não satisfaz. Os homens, lá no fundo, são nostálgicos do paganismo. Constantino percebeu isso quando os primeiros cristãos passaram a cultuar três deuses, o Pai, o Filho e o Paráclito. Conclamou então um concílio e, sob sua sombra, foi decretado o primeiro dogma da igreja nascente, o da Trindade. Ou seja, que o Pai e o Filho e o Paráclito, mesmo sendo três eram um só. Entenda como quiser. Mas creia. Pois é dogma e portanto ultrapassa o humano entendimento. É pegar ou largar.

Não adiantou. A Igreja criou os santos, uma forma de delegar deidade. Ao que tudo indica, os santos não foram suficientes para saciar a sede de deuses. Em meus debates, jamais discuti a existência ou não de deus. É beco sem saída. Uns querem provar deus a partir da fé, outros a partir da lógica e nunca se chega a conclusão alguma. O que questiono, isto sim, é em qual deus os crentes crêem. Pois só na Bíblia há vários. O Jeová que encerra o Velho Testamento não é o mesmo que o abre. No Gênesis, deus é bastante antropomórfico e chega a lutar a tapa com Jacó. Mais ainda: não era lá tão poderoso, pois sequer consegue vencer a luta. Há uma grande distância entre esse deus fajuto e o poderoso Senhor dos Exércitos, que manda matar, arrasar e não deixar vivo ser que respire.

Perguntando sobre em qual deus as pessoas acreditam, cheguei a uma descoberta surpreendente: os católicos – ou os que se dizem católicos – criaram deuses à la carte. Cada um tem um deus particular, reminiscência talvez dos manes, lares e pênates romanos. É um deus camarada, compreensivo, que mantém um papo ameno com quem o porta e sempre o absolve. Isso de punição é coisa do Livro antigo. Se você acha que só os antigos profetas tinham privilégio de conversar com deus, está muito enganado. Estes religiosos contemporâneos falam com deus a toda hora. No fundo, uma espécie de alter ego. As pessoas falam consigo próprias e consideram que estão falando com Deus.

No Ocidente, temos hoje milhões de deuses, talvez mais que os milhões de deuses do Oriente. Uma cabeça, um deus. Com uma diferença. Os milhões de deuses do Oriente têm existência oficial, enquanto que os milhões de deuses cultuados pelos crentes de cá têm existência mais ou menos clandestina. São deuses prêt-à-porter, cada um servindo como uma luva a seu portador. Assim, quando evoco o velho Jeová, que está na origem do cristianismo, sou visto como um perigoso ateu militante que quer minar as bases do Ocidente.

Ora, nada disso. Apenas estou conclamando os crentes à coerência, ou seja, à volta ao monoteísmo.

Curioso para saber o que se fala a meu respeito, dei um googlada no universo blogueiro. Nossa, mudaram os tempos! Ninguém mais me chama de comunista, como já fui chamado em priscas eras. Muito menos de agente do DOPS, do SNI ou da CIA, epítetos aos quais também já fiz jus. Houve época em que me foi pespegada a alcunha Robin Hood às avessas, o que tira de todos e não dá nada a ninguém. Um publicitário teve inclusive um achado dos bons: Savonarola às avessas, que nos condena por não pecarmos.

Coisas da época da Guerra Fria. Mudam os tempos, mudam os insultos. Sou visto hoje, fundamentalmente como… ateu. Mais ainda, como ateu militante. Bom, ateu eu o sou desde meus tenros anos e não vejo isto como ofensa. Mas definir alguém como ateu é muito pobre. Significa apenas que a pessoa nega a existência de deus. Ora, uma negação não passa de uma negação. Não serve para definição. É algo como afirmar: o Cristaldo não gosta da literatura do Machado. Isto pouco ou nada diz a meu respeito. Se alguém dissesse que sou marxista ou anarquista, positivista ou espírita, tomista ou cartesiano, estaria de fato esboçando uma definição. Ocorre que não sou nada disto.

Em minhas universidades, estudei Filosofia. E principalmente História da Filosofia. Se foi estudando a Bíblia e História das Religiões que me tornei ateu, certamente foi a História da Filosofia que me afastou da filosofia. O sentido da vida é este, diz um pensador. Não, o sentido da vida é aquele, diz outro. Sem falar nos que pretendem – e entre eles me incluo – que a vida não tem sentido algum. Uns afirmam que a História ruma para lá. Já outros pensam que ruma para cá. Cada filósofo constrói seu sistema e busca legar um ismo ao pensamento humano. Ora, a vida é bem mais simples. O homem é um bicho que nasce, cresce e morre e fim de papo. Em meio a isso, trabalha e luta, constrói e destrói, faz pontes e poemas, romances e óperas, constrói cidades, barcos e aviões, sofre e se alegra, chora e ri, faz guerra e confraterniza… e vai pra tumba. Não vejo mistérios na vida. Os sistemas filosóficos só servem para confundir. Não tenho filosofia alguma.

Quanto ao ateu militante, é calúnia soez. Não sou militante de doutrina nenhuma, aliás não professo doutrina nenhuma nem nunca convidei ninguém a partilhar de minhas crenças. Apenas as exponho e não peço a quem quer que seja que me siga. Ateísmo não constitui doutrina, mas exige uma certa fortaleza de espírito. A maior parte das pessoas não consegue viver sem bengalas metafísicas. Jamais me ocorreria chutar a bengala de quem dela necessita para viver. Nunca disse a alguém: larga tua religião e vem gozar a vida.

Mas não renuncio ao direito de crítica às religiões. Assim como critiquei com veemência as ideologias deste século e do passado, critico as religiões e particularmente o catolicismo, que conheço melhor que muito bispo. A época, no entanto, é hostil a quem ousa criticar religiões. Sinal dos tempos: passei minha juventude discutindo com os comunistas. Hoje, meus desafetos são os cristãos. Se sentem mais donos da verdade que os comunistas. Na época da universidade, se disséssemos a um marxista que não éramos marxistas, ele nos olhava com piedade. “Esse pobre diabo não entendeu o sentido da História”. Com a Queda do Muro e o desmoronamento da União Soviética, o famoso sentido da História foi pras cucuias.

A bandeira dos fanáticos foi resgatada e passou a ser empunhada por católicos. A começar pelo atual papa, o Bento, que julga que fora do cristianismo não há salvação. Ser ateu, para muitos católicos contemporâneos, é sinônimo de ser analfabeto e nada entender do mundo.

Em minhas discussões, tenho ouvido argumentos que jamais imaginava ouvir. Tenho discutido com jovens que defendem – sem pejo algum – a Inquisição. Nem os padres de minha época de jovem ousaram tanto. Preferiam desviar do assunto. Já vi comunista defendendo matanças, mas nunca ouvi um comunista defender a tortura. Os comunistas sempre torturaram às escondidas, sinal que viam na tortura algo abjeto. A Inquisição louvava a tortura, como um instrumento para a salvação das almas. Os jovens defensores da Inquisição – e outros não tão jovens – consideram que a legalização da tortura pelos inquisidores foi um considerável avanço na área do Direito.

Nesses debates, tomei ciência de outros fatos não menos significativos. Descobri, por exemplo, que a maioria dos católicos pouco ou nada conhece da doutrina que professa. (Não por acaso, recente pesquisa feita na França revelou que apenas um católico em cada dois acredita em Deus). Eu, ateu – analfabeto por definição – preciso ensinar-lhes pacientemente os dogmas e sua história, o magistério da Igreja e os próprios fatos da Bíblia. Percebi que são raríssimos os católicos que um dia leram a Bíblia e mais raros ainda os que a lêem com isenção. Basta começarmos a citar os massacres de Jeová e não falta quem salte: estás citando fora do contexto. Mas que contexto, meu caro? Em que contexto é justificável genocídio, massacre de tribos, matança de inocentes?

Outra descoberta curiosa, que mereceria aliás um denso ensaio, é que voltamos definitivamente ao politeísmo. Monoteísmo não satisfaz. Os homens, lá no fundo, são nostálgicos do paganismo. Constantino percebeu isso quando os primeiros cristãos passaram a cultuar três deuses, o Pai, o Filho e o Paráclito. Conclamou então um concílio e, sob sua sombra, foi decretado o primeiro dogma da igreja nascente, o da Trindade. Ou seja, que o Pai e o Filho e o Paráclito, mesmo sendo três eram um só. Entenda como quiser. Mas creia. Pois é dogma e portanto ultrapassa o humano entendimento. É pegar ou largar.

Não adiantou. A Igreja criou os santos, uma forma de delegar deidade. Ao que tudo indica, os santos não foram suficientes para saciar a sede de deuses. Em meus debates, jamais discuti a existência ou não de deus. É beco sem saída. Uns querem provar deus a partir da fé, outros a partir da lógica e nunca se chega a conclusão alguma. O que questiono, isto sim, é em qual deus os crentes crêem. Pois só na Bíblia há vários. O Jeová que encerra o Velho Testamento não é o mesmo que o abre. No Gênesis, deus é bastante antropomórfico e chega a lutar a tapa com Jacó. Mais ainda: não era lá tão poderoso, pois sequer consegue vencer a luta. Há uma grande distância entre esse deus fajuto e o poderoso Senhor dos Exércitos, que manda matar, arrasar e não deixar vivo ser que respire.

Perguntando sobre em qual deus as pessoas acreditam, cheguei a uma descoberta surpreendente: os católicos – ou os que se dizem católicos – criaram deuses à la carte. Cada um tem um deus particular, reminiscência talvez dos manes, lares e pênates romanos. É um deus camarada, compreensivo, que mantém um papo ameno com quem o porta e sempre o absolve. Isso de punição é coisa do Livro antigo. Se você acha que só os antigos profetas tinham privilégio de conversar com deus, está muito enganado. Estes religiosos contemporâneos falam com deus a toda hora. No fundo, uma espécie de alter ego. As pessoas falam consigo próprias e consideram que estão falando com Deus.

No Ocidente, temos hoje milhões de deuses, talvez mais que os milhões de deuses do Oriente. Uma cabeça, um deus. Com uma diferença. Os milhões de deuses do Oriente têm existência oficial, enquanto que os milhões de deuses cultuados pelos crentes de cá têm existência mais ou menos clandestina. São deuses prêt-à-porter, cada um servindo como uma luva a seu portador. Assim, quando evoco o velho Jeová, que está na origem do cristianismo, sou visto como um perigoso ateu militante que quer minar as bases do Ocidente.

Ora, nada disso. Apenas estou conclamando os crentes à coerência, ou seja, à volta ao monoteísmo.

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

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