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29 Nov 2007

Filho de Verissimo Verissiminho É

Escrito por 

Como seu pai, Luís Fernando quer fraudar o relato histórico, omitindo os crimes do comunismo. Filho de Verissimo, Verissiminho é.

Lá por 2003, comentei Lágrimas na Chuva, de Sérgio Faraco, editado no ano anterior em Porto Alegre. O livro relata período de pouco mais de ano vivido pelo autor em Moscou, em 1963 e 64. "Depois de uma série de conflitos com chefetes políticos ligados aos partidos brasileiro e soviético" – diz-nos o editor na orelha – "Faraco foi internado em regime de reclusão, sob pesada bateria de medicamentos, numa clínica de reeducação. Era este, na época, um procedimento de rotina em relação àqueles que se rebelavam contra o ultra-esquerdismo do Partido".

Ora, quais foram os gestos de rebeldia do heróico mártir gaúcho? Pelo que lemos em sua memória, foram basicamente duas atitudes: mantinha relações com uma russinha e insistia em escutar Wagner a todo volume em seu dormitório. Fora isso, em uma viagem à Armênia, demonstrou insólita coragem ao perguntar a um mandalete local como podiam avançar na automação do que quer que fosse, se as moradias não dispunham de vasos sanitários e as necessidades eram feitas nos quintais, em latrinas. A tradutora nem sabia o que era latrina. Ou seja, os armênios não haviam chegado sequer ao conceito de latrina. Em função disto, o rebelde escritor foi enviado a uma clínica de reeducação, onde dispunha de quarto individual, com chuveiro e vaso sanitário (um progresso em relação à Armênia) e mais uma enfermeira que vinha pegar-lhe a mãozinha quando deprimido. Gulag classe A, com direito a cafuné. Pra dissidente algum botar defeito.

Há quatro décadas, Faraco sentiu na carne o preço a ser pago, na União Soviética, por pequenas molecagens. Escritor, não lhe terá sido difícil imaginar o quanto custava qualquer discordância com a linha do Partido. Quarenta anos depois, já em idade provecta, a tardia madalena alegretense demonstrou sua coragem denunciando fato ocorrido nos 60. Seu depoimento, se feito na época, seria de extraordinário valor para sua geração. Seria o relato insuspeito de um militante comunista que, em sua viagem iniciática ao paraíso soviético, fora tratado como doente mental apenas por escapadelas a uma disciplina absurda, típica de seminários católicos. Seria oportuníssimo, logo após 64.

Isto foi o que comentei na ocasião. Mas a questão tinha implicações bem mais graves. Faraco relata que Erico Verissimo perguntou-lhe se não pensava escrever sobre sua estada na União Soviética. "Respondi que, de fato, tinha essa intenção, embora minha experiência não fosse edificante. Ele ficou pensativo, depois disse que, se era assim, talvez fosse ainda menos edificante narrá-la, enquanto vivíamos, no Brasil, sob uma ditadura militar. Ele tinha razão" – diz Faraco. Ora, os militares lutavam para que o Brasil não virasse o imenso gulag que o futuro escritor então testemunhara. Em função de um regime que jamais o pôs na prisão, mesmo sendo comunista, Faraco silencia sobre o regime comunista que o internou em um hospital psiquiátrico, mesmo sendo comunista.

A história se repete. Em 1929, o escritor romeno Panaïti Istrati publicou Vers l’autre flamme, primeira denúncia do stalinismo no Ocidente. Os originais deste livro levaram Romain Rolland, seu padrinho literário em Paris, a aconselhá-lo: "Isto será uma paulada a toda Rússia. Estas páginas são sagradas, elas devem ser consagradas nos arquivos da Revolução Eterna, em seu Livro de Ouro. Nós lhe estimamos ainda mais e lhe veneramos por tê-las escrito. Mas não as publique jamais". Istrati teve suas Obras Completas publicadas pela Gallimard, exceto Vers l’autre flamme. Que só foi republicado, na democrática Paris ... em 1980. Anos 60, Brasil. Erico Verissimo, conivente com a barbárie comunista, repassa a Faraco o covarde conselho.

Escritor, Faraco intuiu o que Erico há muito já intuíra. Se dissesse uma só palavrinha contra a Santa Madre Rússia, adeus editoras, adeus honras literárias, adeus imprensa amiga, adeus resenhas e teses universitárias. O gaúcho de Alegrete, que não teve sequer a hombridade de despedir-se da humilde moscovita que o aquecera nos seus dias cinzas às margens do Volga, baixa a crista. Mas seu livro tem um grande mérito: nos revela a cumplicidade com a tirania do escritor gaúcho tido como campeão da liberdade. Não por acaso, a universidade e imprensa gaúchas idolatram Erico.

Luis Fernando Verissimo, escrevi outro dia, ainda deve estar em estado de choque com a reportagem de Veja sobre os 40 anos da morte de Che Guevara. Pelo jeito, de fato está. No Estadão de quinta-feira passada, o filho do Erico se lamuria. Começa comentando o filme Viva Zapata, que termina com a morte do personagem numa emboscada dos 'federales'.

"O antigo aliado que o traiu, um intelectual vivido no filme por Joseph Wiseman, insiste para que os soldados não deixem escapar com vida o cavalo branco de Zapata. 'Matem o cavalo! Matem o cavalo!', grita, em vão. A última cena do filme é a do cavalo branco solto numa montanha, um símbolo não muito sutil do espírito que sobreviveu ao sacrifício do seu dono para inspirar outras gerações e outras revoltas. O intelectual entende que símbolos são perigosos e que não basta abater o homem para anular o exemplo. É preciso trucidar a sua memória, emporcalhar a sua legenda e apagar qualquer vestígio simbólico da sua rebeldia".

Armada a premissa maior do silogismo, o cronista marxista petista diz ao que vem:

"Parecido com o que está sendo feita entre nós com o Che Guevara, que, de acordo com a revisão atual, não só cheirava mal como era um péssimo caráter. É difícil entender por que estão tentando matar este particular cavalo branco agora. Se Che simbolizava alguma coisa, nos últimos anos, era a absorção de todas as formas de revolta pela cultura pop. O ex-ícone da esquerda era visto principalmente nas paredes e camisetas de gente que jamais sonharia em ir para as montanhas, a não ser pelo fondue de queijo. E no entanto o empenho em desmitificá-lo, e desmistificá-lo, é evidente. Do que será que estão com medo? O que assombra tanto o neomacarthismo, a ponto de atirarem com tanta fúria contra um defunto de 40 anos? Talvez seja o caso de rever o significado da figura do Che, e do seu exemplo de idealismo e inconformismo, entre as novas gerações. Talvez a direita esteja vendo um cavalo branco solto por aí que nós não vemos".

Ora, não é bem matar cavalos brancos o que se quer. O que está acontecendo é que, só agora, quarenta anos depois da morte do bandoleiro, estão surgindo jornalistas com suficiente coragem para revelar sua verdadeira face, a de um assassino frio a serviço de uma ideologia assassina. Da mesma forma, muito anos foram necessários para que viessem à tona as matanças de Stalin. E também as de Lênin. Estamos emergindo de um século em que a mentira teve plena vigência e celerados receberam honras de santos.

Por que tanto empenho em desmitificar e desmistificar Che? Porque desmitificar e desmistificar é necessário. Não é bom que a humanidade tenha por santos assassinos com as mãos sujas de sangue. É trabalho de todo historiador – e deveria também ser de todo jornalista – denunciar as mitificações e mistificações. Ninguém está com medo. Pelo contrário. O medo foi esconjurado e as novas gerações de jornalistas não têm porquê defender as bandeiras espúrias que renderam prestígio e fortuna aos velhos jornalistas. Ninguém está vendo cavalos brancos soltos por aí. O que está se vendo é o colossal embuste que há quatro décadas vem enganando gerações.

Como seu pai, Luís Fernando quer fraudar o relato histórico, omitindo os crimes do comunismo. Filho de Verissimo, Verissiminho é.

Lá por 2003, comentei Lágrimas na Chuva, de Sérgio Faraco, editado no ano anterior em Porto Alegre. O livro relata período de pouco mais de ano vivido pelo autor em Moscou, em 1963 e 64. "Depois de uma série de conflitos com chefetes políticos ligados aos partidos brasileiro e soviético" – diz-nos o editor na orelha – "Faraco foi internado em regime de reclusão, sob pesada bateria de medicamentos, numa clínica de reeducação. Era este, na época, um procedimento de rotina em relação àqueles que se rebelavam contra o ultra-esquerdismo do Partido".

Ora, quais foram os gestos de rebeldia do heróico mártir gaúcho? Pelo que lemos em sua memória, foram basicamente duas atitudes: mantinha relações com uma russinha e insistia em escutar Wagner a todo volume em seu dormitório. Fora isso, em uma viagem à Armênia, demonstrou insólita coragem ao perguntar a um mandalete local como podiam avançar na automação do que quer que fosse, se as moradias não dispunham de vasos sanitários e as necessidades eram feitas nos quintais, em latrinas. A tradutora nem sabia o que era latrina. Ou seja, os armênios não haviam chegado sequer ao conceito de latrina. Em função disto, o rebelde escritor foi enviado a uma clínica de reeducação, onde dispunha de quarto individual, com chuveiro e vaso sanitário (um progresso em relação à Armênia) e mais uma enfermeira que vinha pegar-lhe a mãozinha quando deprimido. Gulag classe A, com direito a cafuné. Pra dissidente algum botar defeito.

Há quatro décadas, Faraco sentiu na carne o preço a ser pago, na União Soviética, por pequenas molecagens. Escritor, não lhe terá sido difícil imaginar o quanto custava qualquer discordância com a linha do Partido. Quarenta anos depois, já em idade provecta, a tardia madalena alegretense demonstrou sua coragem denunciando fato ocorrido nos 60. Seu depoimento, se feito na época, seria de extraordinário valor para sua geração. Seria o relato insuspeito de um militante comunista que, em sua viagem iniciática ao paraíso soviético, fora tratado como doente mental apenas por escapadelas a uma disciplina absurda, típica de seminários católicos. Seria oportuníssimo, logo após 64.

Isto foi o que comentei na ocasião. Mas a questão tinha implicações bem mais graves. Faraco relata que Erico Verissimo perguntou-lhe se não pensava escrever sobre sua estada na União Soviética. "Respondi que, de fato, tinha essa intenção, embora minha experiência não fosse edificante. Ele ficou pensativo, depois disse que, se era assim, talvez fosse ainda menos edificante narrá-la, enquanto vivíamos, no Brasil, sob uma ditadura militar. Ele tinha razão" – diz Faraco. Ora, os militares lutavam para que o Brasil não virasse o imenso gulag que o futuro escritor então testemunhara. Em função de um regime que jamais o pôs na prisão, mesmo sendo comunista, Faraco silencia sobre o regime comunista que o internou em um hospital psiquiátrico, mesmo sendo comunista.

A história se repete. Em 1929, o escritor romeno Panaïti Istrati publicou Vers l’autre flamme, primeira denúncia do stalinismo no Ocidente. Os originais deste livro levaram Romain Rolland, seu padrinho literário em Paris, a aconselhá-lo: "Isto será uma paulada a toda Rússia. Estas páginas são sagradas, elas devem ser consagradas nos arquivos da Revolução Eterna, em seu Livro de Ouro. Nós lhe estimamos ainda mais e lhe veneramos por tê-las escrito. Mas não as publique jamais". Istrati teve suas Obras Completas publicadas pela Gallimard, exceto Vers l’autre flamme. Que só foi republicado, na democrática Paris ... em 1980. Anos 60, Brasil. Erico Verissimo, conivente com a barbárie comunista, repassa a Faraco o covarde conselho.

Escritor, Faraco intuiu o que Erico há muito já intuíra. Se dissesse uma só palavrinha contra a Santa Madre Rússia, adeus editoras, adeus honras literárias, adeus imprensa amiga, adeus resenhas e teses universitárias. O gaúcho de Alegrete, que não teve sequer a hombridade de despedir-se da humilde moscovita que o aquecera nos seus dias cinzas às margens do Volga, baixa a crista. Mas seu livro tem um grande mérito: nos revela a cumplicidade com a tirania do escritor gaúcho tido como campeão da liberdade. Não por acaso, a universidade e imprensa gaúchas idolatram Erico.

Luis Fernando Verissimo, escrevi outro dia, ainda deve estar em estado de choque com a reportagem de Veja sobre os 40 anos da morte de Che Guevara. Pelo jeito, de fato está. No Estadão de quinta-feira passada, o filho do Erico se lamuria. Começa comentando o filme Viva Zapata, que termina com a morte do personagem numa emboscada dos 'federales'.

"O antigo aliado que o traiu, um intelectual vivido no filme por Joseph Wiseman, insiste para que os soldados não deixem escapar com vida o cavalo branco de Zapata. 'Matem o cavalo! Matem o cavalo!', grita, em vão. A última cena do filme é a do cavalo branco solto numa montanha, um símbolo não muito sutil do espírito que sobreviveu ao sacrifício do seu dono para inspirar outras gerações e outras revoltas. O intelectual entende que símbolos são perigosos e que não basta abater o homem para anular o exemplo. É preciso trucidar a sua memória, emporcalhar a sua legenda e apagar qualquer vestígio simbólico da sua rebeldia".

Armada a premissa maior do silogismo, o cronista marxista petista diz ao que vem:

"Parecido com o que está sendo feita entre nós com o Che Guevara, que, de acordo com a revisão atual, não só cheirava mal como era um péssimo caráter. É difícil entender por que estão tentando matar este particular cavalo branco agora. Se Che simbolizava alguma coisa, nos últimos anos, era a absorção de todas as formas de revolta pela cultura pop. O ex-ícone da esquerda era visto principalmente nas paredes e camisetas de gente que jamais sonharia em ir para as montanhas, a não ser pelo fondue de queijo. E no entanto o empenho em desmitificá-lo, e desmistificá-lo, é evidente. Do que será que estão com medo? O que assombra tanto o neomacarthismo, a ponto de atirarem com tanta fúria contra um defunto de 40 anos? Talvez seja o caso de rever o significado da figura do Che, e do seu exemplo de idealismo e inconformismo, entre as novas gerações. Talvez a direita esteja vendo um cavalo branco solto por aí que nós não vemos".

Ora, não é bem matar cavalos brancos o que se quer. O que está acontecendo é que, só agora, quarenta anos depois da morte do bandoleiro, estão surgindo jornalistas com suficiente coragem para revelar sua verdadeira face, a de um assassino frio a serviço de uma ideologia assassina. Da mesma forma, muito anos foram necessários para que viessem à tona as matanças de Stalin. E também as de Lênin. Estamos emergindo de um século em que a mentira teve plena vigência e celerados receberam honras de santos.

Por que tanto empenho em desmitificar e desmistificar Che? Porque desmitificar e desmistificar é necessário. Não é bom que a humanidade tenha por santos assassinos com as mãos sujas de sangue. É trabalho de todo historiador – e deveria também ser de todo jornalista – denunciar as mitificações e mistificações. Ninguém está com medo. Pelo contrário. O medo foi esconjurado e as novas gerações de jornalistas não têm porquê defender as bandeiras espúrias que renderam prestígio e fortuna aos velhos jornalistas. Ninguém está vendo cavalos brancos soltos por aí. O que está se vendo é o colossal embuste que há quatro décadas vem enganando gerações.

Como seu pai, Luís Fernando quer fraudar o relato histórico, omitindo os crimes do comunismo. Filho de Verissimo, Verissiminho é.

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

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