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26 Nov 2007

A Petrobras e o Gás Fugaz

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Quem tem o hábito de acompanhar a nossa economia, seja por masoquismo ou por obrigação profissional, acaba aprendendo, a duras penas, que é racionalmente mais indicado acreditar no Saci Pererê do que nos governos “deste país”.

Quem tem o hábito de acompanhar a nossa economia, seja por masoquismo ou por obrigação profissional (naturalmente, faço parte do segundo grupo), acaba aprendendo, a duras penas, que é racionalmente mais indicado acreditar no Saci Pererê do que nos governos “deste país”. Sucedem-se as gerações e a “coisa” – os casuísmos crônicos e a absoluta falta de respeito para com os cidadãos – repete-se ad nauseam, como codas (trechos de composições musicais repisados indefinidamente) mal executadas.

Eis alguns exemplos que confirmam a falta completa de credibilidade plantada e colhida por nossos governos: os incentivos ao uso do álcool em veículos automotores, em resposta à primeira crise do petróleo, nos anos 70; os pacotes econômicos que se sucederam de 1986 até 1991, com cinco congelamentos de preços que deixaram um rastro sem lastro de “atrasados”, que os governos até hoje regateiam em pagar; as chamadas precatórias, que os governantes caras-de-pau, afrontando a própria Constituição, insistem em postergar sem honrar; e a alegada “transitoriedade” do IMF (imposto sobre movimentações financeiras), que se transformou na CPMF. Em todos esses casos, quem acreditou nas promessas dos homens ditos públicos, danou-se ou, como dizem os nordestinos, “lascou-se”...

A mais recente manifestação de casuísmo lesivo a consumidores e produtores é a proposta do governo do Rio de retirar os incentivos ao uso do GNV em veículos automotores, com a supressão do desconto de 75% do IPVA, aliás, por si só, outro exemplo de mentira sob a forma de imposto, haja vista a buraqueira de nossas ruas e estradas.

Pobre de quem acredita nos governos brasileiros! O apóstolo São Paulo, ao propagar o cristianismo, já ensinava aos coríntios que, quando a trombeta toca um som incerto e indefinido, ninguém se apresta para o combate, mas os ouvidos de nosso povo parecem ser moucos ao conselho do grande santo... Ora a trombeta governamental soa um toque de avançar e todos arremetem no sentido indicado; ora, quase simultaneamente, emite um recuar que deixa perplexos os gentios, ou seja, nos deixa atônitos... Gente, assim não dá! Avançar ou recuar? Gás ou gasolina? Ou álcool? Quando nossos governantes abandonarão os casuísmos e manterão a palavra? Quando o seu “sim” passará a ser sim e o seu “não” a ser não, para que a confiança que a população neles precisa depositar seja restabelecida?

O que os levou, para além da simples ecologia, a uma opção que nos tornaria sabidamente reféns dos humores e rumores de um país instável, como sempre foi e é a Bolívia? O que os fez aceitarem com passividade de ovelha a caminho do matadouro, quando a peça de museu que ora governa os bolivianos ocupou as instalações da Petrobras – cidadela dos ditos “nacionalistas” -, aquela real ofensa aos interesses do Brasil? Por que nossos nacionaleiros fariseus fizeram vista grossa à atitude de Morales? Por que a estatal do petróleo, cujas diretorias sempre foram escaladas mediante rateio político, agora dá para trás em relação ao gás? Por que o seu presidente, quando o exército boliviano ocupou as instalações da empresa, afirmou e reafirmou que não faltaria gás e que o seu preço não subiria e agora a empresa anuncia um reajuste de 15% a 25% (?) nos próximos dois anos? Por que o governo Lula insiste em negociar e tratar como “companheiros” quem nos prejudica? E se faltar o gás, que fomos obrigados a usar em nossas casas e incentivados a utilizar em nossos veículos e indústria? Para que serve, enfim, o povo, além de dar votos?

Retrato típico de um país onde quase tudo o que o governo faz – inclusive incentivar o gás - é fugaz é a pergunta que me dirigiu aquele taxista que faz ponto na UERJ, ao saber das restrições ao GNV: e agora, professor, como é que eu fico?

Quem tem o hábito de acompanhar a nossa economia, seja por masoquismo ou por obrigação profissional (naturalmente, faço parte do segundo grupo), acaba aprendendo, a duras penas, que é racionalmente mais indicado acreditar no Saci Pererê do que nos governos “deste país”. Sucedem-se as gerações e a “coisa” – os casuísmos crônicos e a absoluta falta de respeito para com os cidadãos – repete-se ad nauseam, como codas (trechos de composições musicais repisados indefinidamente) mal executadas.

Eis alguns exemplos que confirmam a falta completa de credibilidade plantada e colhida por nossos governos: os incentivos ao uso do álcool em veículos automotores, em resposta à primeira crise do petróleo, nos anos 70; os pacotes econômicos que se sucederam de 1986 até 1991, com cinco congelamentos de preços que deixaram um rastro sem lastro de “atrasados”, que os governos até hoje regateiam em pagar; as chamadas precatórias, que os governantes caras-de-pau, afrontando a própria Constituição, insistem em postergar sem honrar; e a alegada “transitoriedade” do IMF (imposto sobre movimentações financeiras), que se transformou na CPMF. Em todos esses casos, quem acreditou nas promessas dos homens ditos públicos, danou-se ou, como dizem os nordestinos, “lascou-se”...

A mais recente manifestação de casuísmo lesivo a consumidores e produtores é a proposta do governo do Rio de retirar os incentivos ao uso do GNV em veículos automotores, com a supressão do desconto de 75% do IPVA, aliás, por si só, outro exemplo de mentira sob a forma de imposto, haja vista a buraqueira de nossas ruas e estradas.

Pobre de quem acredita nos governos brasileiros! O apóstolo São Paulo, ao propagar o cristianismo, já ensinava aos coríntios que, quando a trombeta toca um som incerto e indefinido, ninguém se apresta para o combate, mas os ouvidos de nosso povo parecem ser moucos ao conselho do grande santo... Ora a trombeta governamental soa um toque de avançar e todos arremetem no sentido indicado; ora, quase simultaneamente, emite um recuar que deixa perplexos os gentios, ou seja, nos deixa atônitos... Gente, assim não dá! Avançar ou recuar? Gás ou gasolina? Ou álcool? Quando nossos governantes abandonarão os casuísmos e manterão a palavra? Quando o seu “sim” passará a ser sim e o seu “não” a ser não, para que a confiança que a população neles precisa depositar seja restabelecida?

O que os levou, para além da simples ecologia, a uma opção que nos tornaria sabidamente reféns dos humores e rumores de um país instável, como sempre foi e é a Bolívia? O que os fez aceitarem com passividade de ovelha a caminho do matadouro, quando a peça de museu que ora governa os bolivianos ocupou as instalações da Petrobras – cidadela dos ditos “nacionalistas” -, aquela real ofensa aos interesses do Brasil? Por que nossos nacionaleiros fariseus fizeram vista grossa à atitude de Morales? Por que a estatal do petróleo, cujas diretorias sempre foram escaladas mediante rateio político, agora dá para trás em relação ao gás? Por que o seu presidente, quando o exército boliviano ocupou as instalações da empresa, afirmou e reafirmou que não faltaria gás e que o seu preço não subiria e agora a empresa anuncia um reajuste de 15% a 25% (?) nos próximos dois anos? Por que o governo Lula insiste em negociar e tratar como “companheiros” quem nos prejudica? E se faltar o gás, que fomos obrigados a usar em nossas casas e incentivados a utilizar em nossos veículos e indústria? Para que serve, enfim, o povo, além de dar votos?

Retrato típico de um país onde quase tudo o que o governo faz – inclusive incentivar o gás - é fugaz é a pergunta que me dirigiu aquele taxista que faz ponto na UERJ, ao saber das restrições ao GNV: e agora, professor, como é que eu fico?

Ubiratan Iorio

UBIRATAN IORIO, Doutor em Economia EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969).Vice-Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ(2000/2003), Vice-Diretor da FCE/UERJ (1996/1999), Professor Adjunto do Departamento de Análise Econômica da FCE/UERJ, Professor do Mestrado da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC, Professor dos Cursos Especiais (MBA) da Fundação Getulio Vargas e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Coordenador da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC (1995/1998), Pesquisador do IBMEC (1982/1994), Economista do IBRE/FGV (1973/1982), funcionário do Banco Central do Brasil (1966/1973). Livros publicados: "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira" (Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1997, 2ª ed.); "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" (Banco Central/IBMEC, Brasília, 1985); "Macroeconomia e Política Macroeconômica" (IBMEC, Rio de Janeiro, 1984). Articulista de Economia do Jornal do Brasil (desde 2003), do jornal O DIA (1998/2001), cerca de duzentos artigos publicados em jornais e revistas. Consultor de diversas instituições.

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