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14 Jul 2004

Os Homens de Zapatero

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ZP tem muitos desafios. Entre eles está herdar a Espanha de Aznar, um modelo de sucesso econômico liberal incontestável, e tentar modificar sua estrutura econômica.

Madri lentamente se acostuma com a profunda mudança ocorrida na política nacional desde 14 de março de 2004, dia em que os espanhóis devolveram o poder ao PSOE, mediante a eleição de José Luis Rodríguez Zapatero para o cargo de Chefe de Governo. Este câmbio é lento em função dos próprios espanhóis, que não elegeram a agenda de Zapatero, mas levaram o líder socialista ao poder em razão do medo provocado pelos atentados de 11 de março. Entretanto, este talvez seja o principal obstáculo do líder socialista, ou seja, implementar uma agenda intervencionista para uma população, que na sua maioria, já internalizou e aprovou as medidas e políticas liberalizantes implementadas nos oitos anos de governo conservador de José María Aznar.

Zapatero, ou simplesmente ZP, como é chamado pela imprensa local, possui também um outro problema: a falta de uma clara agenda de desenvolvimento para a Espanha. Isto se deve, em larga medida, ao fato de ZP ter chegado ao poder de maneira súbita, talvez até inesperada para os próprios membros do PSOE, afinal de contas, se os atentados de 11 de março (11-M) não tivessem ocorrido, tudo leva a crer que o até então franco favorito, Mariano Rajoy, do PP, teria sido eleito para a Chefia de Governo. A saída de ZP foi buscar no passado alguma experiência para guiar La Moncloa. Assim, para o cargo de vice, que hoje acumula também com o Ministério da Economia e Fazenda, foi convocado Pedro Solbes Mira, um dos homens fortes do governo, que já havia ocupado a mesma pasta no último termo do socialista Felipe González, que dirigiu a Espanha de dezembro de 1982 a março de 1996.

Além de Pedro Solbes Mira, vários outros nomes que figuram no governo de ZP também fizeram parte, em algum momento, de algum dos termos de González frente à Chefia do Conselho de Ministros espanhol, como o ministro da Justiça Juan Fernando López Aguilar. Entretanto, sem dúvida o nome mais emblemático por trás do PSOE é Alfredo Pérez Rubalcava, geralmente tratado pelas iniciais APR, e conhecido nas esferas políticas madrilenhas como “El Malvado” Rubalcava. Homem de confiança de ZP e chamado de o grande sobrevivente do “Felipismo”, segundo analistas espanhóis, foi o principal articulador da vitória do PSOE em março, assegurando o impacto de 11-M perante a opinião pública e os dividendos eleitorais que o massacre terrorista poderia angariar para a vitória de ZP. Aqui em Madri, muito ainda se comenta sobre um possível vazamento de informações do CNI (Centro Nacional de Inteligência) para Rubalcava, à época vice-coordenador eleitoral dos socialistas, que assim pode manipular os fatos de acordo com os interesses da calle Ferraz (sede do PSOE).

O poder de Rubalcava realmente não pode ser subestimado, uma vez que foi responsável por uma espécie de conspiração contra o já cambaleante e corrupto último termo de González, do qual também participava, em 1995. Sua postura no episódio foi classificada como um ato do “malvado Fouché” (hábil político francês que tinha a capacidade de desaparecer nos momentos de tormenta e reaparecer sempre do lado vencedor), pois soube deixar o poder no momento certo, depois de usufruir suas benesses por mais de uma década.

ZP tem muitos desafios. Entre eles está herdar a Espanha de Aznar, um modelo de sucesso econômico liberal incontestável, e tentar modificar sua estrutura econômica. Além disto, deverá lidar com a pressão interna do PSOE e seus cardeais na busca por espaços políticos. Por fim, o grande desafio: mudar a concepção de Estado dos espanhóis sedimentada por oito anos do Partido Popular no poder. Como Aznar enfatiza, o PP trabalhou com a opção de mudar a Espanha no longo prazo, sedimentar novos valores, por meio de um partido forte. Este trabalho resultou na sua própria eleição em 1996 e na consolidação das teses do PP pelos espanhóis nos anos subseqüentes. Para que o governo do PSOE deixe de ser apenas um acidente de percurso, potencializado pelos atentados de 11-M, muito ainda deve ser trabalhado. ZP tem muito trabalho pela frente.

Artigo redigido em 02.07.2004
Em Madri, Espanha.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:21
Márcio Coimbra

Márcio Chalegre Coimbra, é advogado, sócio da Governale - Políticas Públicas e Relações Institucionais (www.governale.com.br). Habilitado em Direito Mercantil pela Unisinos. Professor de Direito Constitucional e Internacional do UniCEUB – Centro Universitário de Brasília. PIL pela Harvard Law School. MBA em Direito Econômico pela Fundação Getúlio Vargas. Especialista em Direito Internacional pela UFRGS. Vice-Presidente do Conil-Conselho Nacional dos Institutos Liberais pelo Distrito Federal. Sócio do IEE - Instituto de Estudos Empresariais. É editor do site Parlata (www.parlata.com.br) articulista semanal do site www.diegocasagrande.com.br e www.direito.com.br. Tem artigos e entrevistas publicadas em diversos sites nacionais e estrangeiros (www.urgente24.tv e www.hacer.org) e jornais brasileiros como Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Zero Hora, Jornal de Brasília, Correio Braziliense, O Estado do Maranhão, Diário Catarinense, Gazeta do Paraná, O Tempo (MG), Hoje em Dia, Jornal do Tocantins, Correio da Paraíba e A Gazeta do Acre. É autor do livro “A Recuperação da Empresa: Regimes Jurídicos brasileiro e norte-americano”, Ed. Síntese - IOB Thomson (www.sintese.com).

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