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13 Jul 2004

Haiti e Propaganda

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Com o objetivo de manipular a opinião pública os jornais apresentam notícias positivas, enquanto na TV o reforço da ilusão se intensifica junto às grandes massas. É preciso gerar a sensação de que estamos tendo finalmente o espetáculo do crescimento, prometido e não havido no ano passado e, assim, dados indicam o aumento da produção industrial e a diminuição do desemprego.

Neste mundo globalizado a propaganda governamental tem investido pesadamente não só para nos convencer de que tudo vai bem nas vastidões pátrias, como no sentido de demonstrar a grandeza, a generosidade e o poder do presidente da República perante o mundo. Com isso se tenta elevar a auto-estima do brasileiro, ao mesmo tempo em que a argamassa ideológica do nacionalismo busca cimentar o prestígio do mais alto mandatário diante do seu povo.

Com o objetivo de manipular a opinião pública os jornais apresentam notícias positivas, enquanto na TV o reforço da ilusão se intensifica junto às grandes massas. É preciso gerar a sensação de que estamos tendo finalmente o espetáculo do crescimento, prometido e não havido no ano passado e, assim, dados indicam o aumento da produção industrial e a diminuição do desemprego. Sobre inflação, percebida por qualquer dona de casa, é dito que está dentro das metas previstas. Comemora-se o recorde das exportações baseadas, sobretudo, no agronegócio, sem nenhuma alusão ao recorde de invasões do MST e movimentos congêneres. Programas sociais a serem realizados no futuro aparentam ser retumbante sucesso do presente. E se alguém já disse que a estatística é uma forma nobre de mentira, números e mais números conferem a certeza da qual poucos duvidam. Obviamente, são excluídos ou omitidos índices desagradáveis, como os relativos ao aumento dos impostos, do custo de vida, da queda do poder aquisitivo, ou demais indicadores que não combinem com o prestígio do presidente e de seu governo.

Naturalmente os especialistas em propaganda sabem que para a conservação do poder é necessário manter o povo entretido e iludido. O entretenimento, que desde tempos mais remotos foi fornecido pelo esporte, hoje é reforçado consideravelmente pelo circo eletrônico da televisão. Desse modo, a realidade que é dura demais, sem sonhos e sem esperanças, é substituída por mentiras bem formuladas, “cientificamente” comprovadas, magistralmente apresentadas em arroubos de oratória que indicam um futuro radioso. Como disse Napoleão Bonaparte: “Só se conduz um povo mostrando-lhe um porvir: um chefe é um mercador de esperanças”.

Mas a propaganda do atual governo visa ultrapassar as fronteiras nacionais. Em 2003, esse objetivo contou com a novidade, com a lenda, com o folclore que ornamentaram a figura do presidente sempre em movimento em intermináveis viagens. Já no ano em curso, o acúmulo de disparates retóricos, a desorganização administrativa, os programas sociais não cumpridos começam a indicar a governantes e a investidores de outros países os limites entre o que aqui se fala e o que faz. Desse modo, os chineses que embargaram nossa soja também disseram que sem infra-estrutura não há comércio possível. Os russos chegaram a embargar a carne. A reunião de cúpula dos presidentes do Mercosul, que seria mais um evento para confirmar a suposta liderança latino-americana do presidente Luiz Inácio, fez água a partir das medidas restritivas do governo argentino com relação a produtos brasileiros. E mesmo as inúmeras e custosas viagens internacionais do presidente e suas comitivas, ainda não apresentaram resultados.

Mas sempre a propaganda pode investir em algo e, assim, emerge o Haiti. A partir da obsessiva idéia do governo brasileiro de ocupar um assento no Conselho de Segurança da ONU, foi enviado ao país mais pobre do Hemisfério Ocidental o contingente de soldados que integram a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti. Mas isso não basta e o ministro da Defesa, José Viegas, quer mais que simples policiamento. Ele afirmou que é necessário transcender o papel do Brasil previsto na resolução da ONU e promover a recuperação social e econômica do Haiti.  Idéia generosa, sem dúvida e de intenso efeito propagandístico, mas parece que o ministro esqueceu de que, antes de mais nada, deveria sugerir a recuperação das FFAA que se encontram sucateadas e com seus integrantes em situação de penúria haitiana.

Quanto ao padre haitiano, Pierre Toussand Roy, que mora no Brasil e acompanhou a comitiva que recentemente visitou seu país, pediu que lá se aplicasse o fundo de combate à pobreza que ainda jaz nas sugestões do presidente Luiz Inácio a governantes estrangeiros.Talvez o bondoso padre não saiba que, invés de caridade, os haitianos só têm pedido aos soldados brasileiros algo que na verdade estes não podem lhes dar: trabalho. E isso é exatamente o que também no Brasil se pede e não se tem. O resto é propaganda.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:22
Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

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