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06 Nov 2007

Fossem as Coisas Só de Cama...

Escrito por 

Em qualquer denúncia contra a polícia ou contra funcionários da FEBEM, a razão sempre esteve com os menores. Exceto agora. Ao denunciar Anderson Marcos Batista, de 25 anos, Lancellotti declarou ter sido extorquido em 50 mil reais.

O padre Júlio Lancelotti falou pela primeira vez, nesta sexta-feira, desde as denúncias de que teria sofrido extorsão de ex-interno da Febem (atual Fundação Casa). Ele negou as acusações de corrupção de menores e do desvio de dinheiro de ONGs para pagar as supostas extorsões. Lancelotti falou a um público de 200 pessoas da paróquia São Miguel, na zona leste de São Paulo, que prestaram solidariedade ao religioso em frente à casa dele.

Falou, mas não convenceu. Para o padre Júlio Lancellotti, os meninos de rua e menores infratores sempre gozaram de fé pública. Em qualquer denúncia contra a polícia ou contra funcionários da FEBEM, a razão sempre esteve com os menores. Exceto agora. Ao denunciar Anderson Marcos Batista, de 25 anos, Lancellotti declarou ter sido extorquido em 50 mil reais. Ao surgirem à tona alguns mimos feitos a seu pupilo, como um Mitsubishi Pajero e outros carros, o padre tentou uma conta de chegar: teria sido extorquido em 80 mil reais. Sua defesa, mais prudente, propõe um elastério maior: 150 mil reais. Batista não deixa por menos: foram cerca de 800 mil reais. Atribui essa benevolência toda a favores sexuais prestados ao padre.

Pela primeira vez na história da imprensa, um egresso da FEBEM deixa de ter razão. Os defensores dos ditos direitos humanos e apoiadores incondicionais do padre desmentem Batista e o acusam de estar tentando lavar dinheiro oriundo do tráfico de drogas. Batista tem um argumento considerável em mãos. Em declarações à polícia, disse poder dar detalhes físicos do corpo do padre.

Quando estourou a affaire – por iniciativa do padre, diga-se de passagem – pensei com meus botões: trata-se de um caso óbvio de chantagem sexual. Homem algum, em sã consciência, vai repassar tal montante de dinheiro a um marginal só porque este marginal o ameaça de denunciá-lo por abuso sexual. Assim sendo, a vida seria bem mais fácil para todos os marginais. A menos, é claro, que o abuso tenha ocorrido. Se abuso houve, é claro que não foi um só. Um sacerdote com a sexualidade à flor da pele, tendo à sua disposição um serralho todo, não iria se contentar com um só concubino. O segundo já surgiu. Chama-se Marcos José de Lima e vive do tráfico.

No ano passado, Lancellotti procurou por duas vezes a polícia para denunciá-lo por chantagem. Em depoimento às autoridades policiais, em setembro passado, Lima disse que sempre recebia dinheiro do sacerdote e que este o ajudava por ter com ele um relacionamento sexual. O montante em dinheiro desta outra chantagem ainda desconhecemos. Se bem conheço os bois com que lavro, outros casos surgirão. Uma testemunha, por enquanto sob sigilo, já declarou ter visto o santo homem aos beijos e abraços com outro menor.

Que temos a ver com a sexualidade deste cidadão? Com a sexualidade do cidadão Lancellotti, a rigor, nada. Homossexualismo é atitude hoje apenas condenada por moralistas psicologicamente perturbados, tipo Olavo de Carvalho ou Julio Severo, que ainda não fizeram as pazes com o próprio sexo. Práticas homossexuais não constituem crime para nosso Código Penal, exceto quando envolvem violência ou menores. O que parece ser o caso. Se assim se for, a sociedade toda tem muito a ver com a sexualidade do cidadão Lancellotti.

Já o padre Lancellotti é um caso à parte. Os sacerdotes católicos contemporâneos parecem ter esquecido que, por ocasião de suas ordenações, fizeram três votos, sendo um deles o de castidade. Um padre, a rigor, não pode sequer masturbar-se. Está pecando contra a castidade. Certo, pecado não é crime. O Código Penal não contempla a figura do pecado. Mas estamos falando de outra instância, a religiosa. De acordo com a doutrina comum dos teólogos, o voto é um ato de culto a Deus. O Código Canônico o define como a promessa deliberada e livre de um bem possível e melhor, feita a Deus – não aos homens – que deve ser cumprida em razão da virtude da religião.

Segundo meu dicionário de Direito Canônico, existe verdadeiro voto quando aquele que o emite é sujeito capaz, com conhecimento suficiente daquilo que promete e liberdade para fazê-lo. É claro que, no momento de sua ordenação, padre Lancellotti dispunha desses requisitos. Igualmente, requer-se que o prometido não seja um simples desejo ou um vago propósito, mas uma promessa que comporte a obrigação de cumpri-la. Não terá sido por vagos propósitos que o vovente Lancellotti emitiu seu voto de castidade. A promessa deve ser feita em honra de Deus, enquanto supremo Senhor de todas as criaturas, quer dizer, que constitua um ato de latria.

Largo meu dicionário e pego meu Código de Direito Canônico, Can. 1191 - § 1. Votum, idest promissio deliberata ac libera Deo facta de bono possibili et meliore, ex virtute religionis impleri debet.

Traduzindo: O voto, isto é, a promessa deliberada e livre de um bem possível e melhor, feita a Deus, deve ser cumprido em razão da virtude da religião.

Ou seja: do ponto de vista penal, nada temos a ver com a vida sexual do padre. Desde que esta sexualidade se exerça com adultos, é claro. Já do ponto de vista canônico, o padre Lancellotti cometeu uma inominável ofensa ao Deus a quem jurou castidade.

As coisas de cama são segredo de quem ama – poetava Carlos Drummond, outro come-quieto, como bom mineiro que era. Fossem as coisas apenas de cama, os feitos de São Lancellotti seriam da órbita exclusiva de canonistas e teólogos. Ocorre que a affaire envolve altas somas de dinheiro, somas às quais o padre não teria acesso com seus magros ganhos. Como lidava com ONGs, fica mais ou menos evidente de onde saiu a grana que tão felizes deve ter feito Batista e Lima. O sigilo fiscal do padre deve ser quebrado e as próximas semanas nos prometem dados no mínimo surpreendentes.

A corrupção, ao que tudo indica, vazou dos corredores do Congresso e agora inunda as naves das catedrais. Como São Lancellotti é militante das esquerdas e apóia incondicionalmente o PT, diversos movimentos ligados ao obscurantismo fazem sua defesa incondicional. Fosse um padre ou militante da Opus Dei o alvo destas acusações, já teria sido jogado à fogueira pela imprensa.

O padre Júlio Lancelotti falou pela primeira vez, nesta sexta-feira, desde as denúncias de que teria sofrido extorsão de ex-interno da Febem (atual Fundação Casa). Ele negou as acusações de corrupção de menores e do desvio de dinheiro de ONGs para pagar as supostas extorsões. Lancelotti falou a um público de 200 pessoas da paróquia São Miguel, na zona leste de São Paulo, que prestaram solidariedade ao religioso em frente à casa dele.

Falou, mas não convenceu. Para o padre Júlio Lancellotti, os meninos de rua e menores infratores sempre gozaram de fé pública. Em qualquer denúncia contra a polícia ou contra funcionários da FEBEM, a razão sempre esteve com os menores. Exceto agora. Ao denunciar Anderson Marcos Batista, de 25 anos, Lancellotti declarou ter sido extorquido em 50 mil reais. Ao surgirem à tona alguns mimos feitos a seu pupilo, como um Mitsubishi Pajero e outros carros, o padre tentou uma conta de chegar: teria sido extorquido em 80 mil reais. Sua defesa, mais prudente, propõe um elastério maior: 150 mil reais. Batista não deixa por menos: foram cerca de 800 mil reais. Atribui essa benevolência toda a favores sexuais prestados ao padre.

Pela primeira vez na história da imprensa, um egresso da FEBEM deixa de ter razão. Os defensores dos ditos direitos humanos e apoiadores incondicionais do padre desmentem Batista e o acusam de estar tentando lavar dinheiro oriundo do tráfico de drogas. Batista tem um argumento considerável em mãos. Em declarações à polícia, disse poder dar detalhes físicos do corpo do padre.

Quando estourou a affaire – por iniciativa do padre, diga-se de passagem – pensei com meus botões: trata-se de um caso óbvio de chantagem sexual. Homem algum, em sã consciência, vai repassar tal montante de dinheiro a um marginal só porque este marginal o ameaça de denunciá-lo por abuso sexual. Assim sendo, a vida seria bem mais fácil para todos os marginais. A menos, é claro, que o abuso tenha ocorrido. Se abuso houve, é claro que não foi um só. Um sacerdote com a sexualidade à flor da pele, tendo à sua disposição um serralho todo, não iria se contentar com um só concubino. O segundo já surgiu. Chama-se Marcos José de Lima e vive do tráfico.

No ano passado, Lancellotti procurou por duas vezes a polícia para denunciá-lo por chantagem. Em depoimento às autoridades policiais, em setembro passado, Lima disse que sempre recebia dinheiro do sacerdote e que este o ajudava por ter com ele um relacionamento sexual. O montante em dinheiro desta outra chantagem ainda desconhecemos. Se bem conheço os bois com que lavro, outros casos surgirão. Uma testemunha, por enquanto sob sigilo, já declarou ter visto o santo homem aos beijos e abraços com outro menor.

Que temos a ver com a sexualidade deste cidadão? Com a sexualidade do cidadão Lancellotti, a rigor, nada. Homossexualismo é atitude hoje apenas condenada por moralistas psicologicamente perturbados, tipo Olavo de Carvalho ou Julio Severo, que ainda não fizeram as pazes com o próprio sexo. Práticas homossexuais não constituem crime para nosso Código Penal, exceto quando envolvem violência ou menores. O que parece ser o caso. Se assim se for, a sociedade toda tem muito a ver com a sexualidade do cidadão Lancellotti.

Já o padre Lancellotti é um caso à parte. Os sacerdotes católicos contemporâneos parecem ter esquecido que, por ocasião de suas ordenações, fizeram três votos, sendo um deles o de castidade. Um padre, a rigor, não pode sequer masturbar-se. Está pecando contra a castidade. Certo, pecado não é crime. O Código Penal não contempla a figura do pecado. Mas estamos falando de outra instância, a religiosa. De acordo com a doutrina comum dos teólogos, o voto é um ato de culto a Deus. O Código Canônico o define como a promessa deliberada e livre de um bem possível e melhor, feita a Deus – não aos homens – que deve ser cumprida em razão da virtude da religião.

Segundo meu dicionário de Direito Canônico, existe verdadeiro voto quando aquele que o emite é sujeito capaz, com conhecimento suficiente daquilo que promete e liberdade para fazê-lo. É claro que, no momento de sua ordenação, padre Lancellotti dispunha desses requisitos. Igualmente, requer-se que o prometido não seja um simples desejo ou um vago propósito, mas uma promessa que comporte a obrigação de cumpri-la. Não terá sido por vagos propósitos que o vovente Lancellotti emitiu seu voto de castidade. A promessa deve ser feita em honra de Deus, enquanto supremo Senhor de todas as criaturas, quer dizer, que constitua um ato de latria.

Largo meu dicionário e pego meu Código de Direito Canônico, Can. 1191 - § 1. Votum, idest promissio deliberata ac libera Deo facta de bono possibili et meliore, ex virtute religionis impleri debet.

Traduzindo: O voto, isto é, a promessa deliberada e livre de um bem possível e melhor, feita a Deus, deve ser cumprido em razão da virtude da religião.

Ou seja: do ponto de vista penal, nada temos a ver com a vida sexual do padre. Desde que esta sexualidade se exerça com adultos, é claro. Já do ponto de vista canônico, o padre Lancellotti cometeu uma inominável ofensa ao Deus a quem jurou castidade.

As coisas de cama são segredo de quem ama – poetava Carlos Drummond, outro come-quieto, como bom mineiro que era. Fossem as coisas apenas de cama, os feitos de São Lancellotti seriam da órbita exclusiva de canonistas e teólogos. Ocorre que a affaire envolve altas somas de dinheiro, somas às quais o padre não teria acesso com seus magros ganhos. Como lidava com ONGs, fica mais ou menos evidente de onde saiu a grana que tão felizes deve ter feito Batista e Lima. O sigilo fiscal do padre deve ser quebrado e as próximas semanas nos prometem dados no mínimo surpreendentes.

A corrupção, ao que tudo indica, vazou dos corredores do Congresso e agora inunda as naves das catedrais. Como São Lancellotti é militante das esquerdas e apóia incondicionalmente o PT, diversos movimentos ligados ao obscurantismo fazem sua defesa incondicional. Fosse um padre ou militante da Opus Dei o alvo destas acusações, já teria sido jogado à fogueira pela imprensa.

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

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