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06 Nov 2007

Será Que Pode Piorar?

Escrito por 

Decididamente, são de provocar desalento, o empenho na promoção do bem comum – missão, aliás, para a qual são eleitos - da esmagadora maioria de nossos ditos homens públicos.

Decididamente, são de provocar desalento, de um lado, o empenho na promoção do bem comum – missão, aliás, para a qual são eleitos - da esmagadora maioria de nossos ditos homens públicos e, de outro, o compromisso dos empresários no sentido de, mesmo buscando aumentar os lucros, atenderem aos interesses dos consumidores e não os lesarem. Para mostrar essa triste constatação, destaco cinco episódios recentes, pinçados do noticiário, os quatro primeiros no setor público e o último na iniciativa privada.

Protagonizou o primeiro o governador do Rio de Janeiro, ao defender a “discussão” sobre o aborto (embora se declare católico), sob o argumento de que, nas camadas pobres de nossa população, um nascituro seria, por definição, algo como um criminoso futuro. Será que não percebe que sua afirmação é prova inconteste da incompetência de seu governo? E que, ao propor o debate do assunto, além de associar automaticamente a delinqüência à pobreza – correlação, no mínimo, discutível -, está admitindo implicitamente que o Estado que governa como depositário da confiança dos eleitores fluminenses será incapaz de prover os bebês das famílias carentes de boa educação e saúde, que lhes permitiriam – amparados em bons princípios morais – tornarem-se fontes inexcedíveis de geração de produção e riqueza, pois, no mundo atual, o crescimento econômico depende do conhecimento, da inteligência e da criatividade humana, em um ambiente de liberdade de escolha? Quer dizer que, já que o Estado é incapaz de cumprir com os seus deveres para com as crianças, então a “solução” é impedir que nasçam, mesmo que isto constitua um crime claro de assassinato de indefesos?

O segundo veio do secretário municipal de transportes que, de acordo com a mídia, após os deslizamentos que mantiveram o túnel Rebouças fechado por alguns dias, provocando enormes transtornos à população carioca, sugeriu adotar-se no Rio o rodízio de automóveis, tal como se faz em São Paulo há alguns anos. Novamente, trata-se de um recibo da própria incompetência em proporcionar um sistema viário e de transportes de qualidade. Já que, portanto, isto não é possível, então que se privem os famigerados donos de automóveis, inimigos dos pobres - que pagam de impostos mais de 50% do preço de suas máquinas capitalistas e que anualmente são tungados pelo estapafúrdio IPVA -, de circularem pelas ruas com os seus carros, lançando-os às agruras do sistema de transporte coletivo, como expiação do pecado mortal de possuírem automóvel...

O terceiro partiu daqueles dois parlamentares do PT que sugeriram, no aniversário do presidente, a emenda constitucional com vistas à aprovação do terceiro mandato. Prefiro imaginar que tenha sido puro, reles e desprezível puxa-saquismo, para não pensar no pior, ou seja, em um movimento ensaiado dentro do governo para perpetuar Lula no Planalto, emulando o companheiro venezuelano. Prefiro, também, fingir-me de ingênuo e acreditar na sinceridade do presidente quando declarou que o terceiro mandato não seria democrático e de que seria cedo para pensar em 2010. Se dois mandatos consecutivos já são um absurdo – como atestam os exemplos de Fernando Henrique e do próprio Lula -, imaginem, agora, três!

O quarto foi o PSDB aceitar “negociar” a prorrogação da CPMF, de forma coerente com seu passado, porém lamentavelmente denotativa de que o partido tucano é a “oposição” que qualquer situação pede a Deus.

Juca Chaves, quando criticava o governo JK nos anos 50, cantava: “a mediocridade é um fato consumado/na sociedade, onde o ar é depravado”... Em 50 anos, as coisas só pioraram. Provam-no estes quatro episódios recolhidos ao acaso, mas suficientes para mostrarem que o reservatório moral de nossos políticos está com um nível perigosamente baixo, clamando por uma forte chuva para recompô-lo, a boa chuva da verdadeira ética, aquela que ensina que a função de um homem público, por definição, só faz sentido quando serve ao público.

O quinto episódio, ocorrido no setor empresarial da economia, é um crime hediondo. Falsificar leite, adicionando-lhe água oxigenada, soda cáustica e outros “ingredientes”, ou bebidas alcoólicas, acrescentando-lhes álcool apropriado para automóveis, são práticas que, de tão asquerosas, repugnantes e repulsivas, levam qualquer pessoa normal a indagar se seriam mesmo verdadeiras. Mas, infelizmente, são. O que se pode fazer, a não ser, primeiro, exigir que os responsáveis sejam exemplarmente punidos e, segundo – já que vivemos em país em que a tiririca da impunidade invade quase todos os jardins – acompanhar o caso, para verificar se haverá mesmo punição?

De positivo nesse último exemplo – se é que se pode dizer que possa conter algo de positivo – é que ilustra perfeita e irrefutavelmente, o quão errados estão os libertários, quando afirmam que os mercados é que devem determinar o que é “moral” ou “imoral”... Como seria bom se todos se convencessem do fato, inerente à própria condição humana, de que o sistema econômico e o político é que devem subordinar-se aos princípios de boa moral, e não o oposto!

Todos esses lamentáveis fatos, acrescidos de uma miríade de outros semelhantes, dentro ou fora do âmbito do Estado, atestam que a ética e os princípios morais da tradição judaico-cristã andam, infelizmente, esquecidos.

Será que pode piorar?

Decididamente, são de provocar desalento, de um lado, o empenho na promoção do bem comum – missão, aliás, para a qual são eleitos - da esmagadora maioria de nossos ditos homens públicos e, de outro, o compromisso dos empresários no sentido de, mesmo buscando aumentar os lucros, atenderem aos interesses dos consumidores e não os lesarem. Para mostrar essa triste constatação, destaco cinco episódios recentes, pinçados do noticiário, os quatro primeiros no setor público e o último na iniciativa privada.

Protagonizou o primeiro o governador do Rio de Janeiro, ao defender a “discussão” sobre o aborto (embora se declare católico), sob o argumento de que, nas camadas pobres de nossa população, um nascituro seria, por definição, algo como um criminoso futuro. Será que não percebe que sua afirmação é prova inconteste da incompetência de seu governo? E que, ao propor o debate do assunto, além de associar automaticamente a delinqüência à pobreza – correlação, no mínimo, discutível -, está admitindo implicitamente que o Estado que governa como depositário da confiança dos eleitores fluminenses será incapaz de prover os bebês das famílias carentes de boa educação e saúde, que lhes permitiriam – amparados em bons princípios morais – tornarem-se fontes inexcedíveis de geração de produção e riqueza, pois, no mundo atual, o crescimento econômico depende do conhecimento, da inteligência e da criatividade humana, em um ambiente de liberdade de escolha? Quer dizer que, já que o Estado é incapaz de cumprir com os seus deveres para com as crianças, então a “solução” é impedir que nasçam, mesmo que isto constitua um crime claro de assassinato de indefesos?

O segundo veio do secretário municipal de transportes que, de acordo com a mídia, após os deslizamentos que mantiveram o túnel Rebouças fechado por alguns dias, provocando enormes transtornos à população carioca, sugeriu adotar-se no Rio o rodízio de automóveis, tal como se faz em São Paulo há alguns anos. Novamente, trata-se de um recibo da própria incompetência em proporcionar um sistema viário e de transportes de qualidade. Já que, portanto, isto não é possível, então que se privem os famigerados donos de automóveis, inimigos dos pobres - que pagam de impostos mais de 50% do preço de suas máquinas capitalistas e que anualmente são tungados pelo estapafúrdio IPVA -, de circularem pelas ruas com os seus carros, lançando-os às agruras do sistema de transporte coletivo, como expiação do pecado mortal de possuírem automóvel...

O terceiro partiu daqueles dois parlamentares do PT que sugeriram, no aniversário do presidente, a emenda constitucional com vistas à aprovação do terceiro mandato. Prefiro imaginar que tenha sido puro, reles e desprezível puxa-saquismo, para não pensar no pior, ou seja, em um movimento ensaiado dentro do governo para perpetuar Lula no Planalto, emulando o companheiro venezuelano. Prefiro, também, fingir-me de ingênuo e acreditar na sinceridade do presidente quando declarou que o terceiro mandato não seria democrático e de que seria cedo para pensar em 2010. Se dois mandatos consecutivos já são um absurdo – como atestam os exemplos de Fernando Henrique e do próprio Lula -, imaginem, agora, três!

O quarto foi o PSDB aceitar “negociar” a prorrogação da CPMF, de forma coerente com seu passado, porém lamentavelmente denotativa de que o partido tucano é a “oposição” que qualquer situação pede a Deus.

Juca Chaves, quando criticava o governo JK nos anos 50, cantava: “a mediocridade é um fato consumado/na sociedade, onde o ar é depravado”... Em 50 anos, as coisas só pioraram. Provam-no estes quatro episódios recolhidos ao acaso, mas suficientes para mostrarem que o reservatório moral de nossos políticos está com um nível perigosamente baixo, clamando por uma forte chuva para recompô-lo, a boa chuva da verdadeira ética, aquela que ensina que a função de um homem público, por definição, só faz sentido quando serve ao público.

O quinto episódio, ocorrido no setor empresarial da economia, é um crime hediondo. Falsificar leite, adicionando-lhe água oxigenada, soda cáustica e outros “ingredientes”, ou bebidas alcoólicas, acrescentando-lhes álcool apropriado para automóveis, são práticas que, de tão asquerosas, repugnantes e repulsivas, levam qualquer pessoa normal a indagar se seriam mesmo verdadeiras. Mas, infelizmente, são. O que se pode fazer, a não ser, primeiro, exigir que os responsáveis sejam exemplarmente punidos e, segundo – já que vivemos em país em que a tiririca da impunidade invade quase todos os jardins – acompanhar o caso, para verificar se haverá mesmo punição?

De positivo nesse último exemplo – se é que se pode dizer que possa conter algo de positivo – é que ilustra perfeita e irrefutavelmente, o quão errados estão os libertários, quando afirmam que os mercados é que devem determinar o que é “moral” ou “imoral”... Como seria bom se todos se convencessem do fato, inerente à própria condição humana, de que o sistema econômico e o político é que devem subordinar-se aos princípios de boa moral, e não o oposto!

Todos esses lamentáveis fatos, acrescidos de uma miríade de outros semelhantes, dentro ou fora do âmbito do Estado, atestam que a ética e os princípios morais da tradição judaico-cristã andam, infelizmente, esquecidos.

Será que pode piorar?

Ubiratan Iorio

UBIRATAN IORIO, Doutor em Economia EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969).Vice-Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ(2000/2003), Vice-Diretor da FCE/UERJ (1996/1999), Professor Adjunto do Departamento de Análise Econômica da FCE/UERJ, Professor do Mestrado da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC, Professor dos Cursos Especiais (MBA) da Fundação Getulio Vargas e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Coordenador da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC (1995/1998), Pesquisador do IBMEC (1982/1994), Economista do IBRE/FGV (1973/1982), funcionário do Banco Central do Brasil (1966/1973). Livros publicados: "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira" (Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1997, 2ª ed.); "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" (Banco Central/IBMEC, Brasília, 1985); "Macroeconomia e Política Macroeconômica" (IBMEC, Rio de Janeiro, 1984). Articulista de Economia do Jornal do Brasil (desde 2003), do jornal O DIA (1998/2001), cerca de duzentos artigos publicados em jornais e revistas. Consultor de diversas instituições.

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