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01 Nov 2007

Melhor Napalm

Escrito por 

As esquerdas são divertidas. Sempre defenderam a bandidagem, alegando que a criminalidade é decorrência da miséria.

As esquerdas são divertidas. Sempre defenderam a bandidagem, alegando que a criminalidade é decorrência da miséria. Quando o governador Sérgio Cabral Filho, do Rio de Janeiro, defende o aborto como método de redução da violência no Estado e diz que a favela da Rocinha, na zona sul, é uma "fábrica de produzir marginal", é um deus-nos-acuda. Cabral apoiou-se no livro Freakonomics, dos americanos Steven Levitt e Stephen J. Dubner, que relacionam a legalização do aborto nos Estados Unidos à queda da criminalidade em áreas pobres, embora ressaltem que essa associação suscita um debate ético.

Segundo o Estado de São Paulo, entidades não-governamentais e moradores de favelas acusaram o governador de criminalizar a miséria e de distorcer o discurso do movimento pró-aborto, que defende a interrupção da gravidez como direito da mulher de ter autonomia sobre seu corpo, não como forma de combate à violência.

"Com essas declarações o governo escancara que defende a criminalização da pobreza. Como o Estado não tem política para incorporar o pobre, melhor que nem nasça. A política é de extermínio", disse Camilla Ribeiro, da ONG Justiça Global. "Para os mais ricos, o Estado se faz protetor; para os mais pobres, predador. Para se justificar, faz uma representação do favelado como o outro, de onde emana todo o mal", afirmou o professor Rodrigo Torquato da Silva, morador da Rocinha há 36 anos.

Segundo Adriana Gragnani, do núcleo de Estudos da Mulher e Relações de Gênero da Universidade de São Paulo, Cabral baseou-se em idéias ultrapassadas, dos anos 60. "Essa tese de diminuir o número de pobres para combater a violência, seja por aborto ou contraceptivos, é antiga. Na verdade você diminui a pobreza elevando o nível de vida da população".

Ora, vamos aos fatos. Nem de longe me ocorre defender a visão das esquerdas, de que a criminalidade é fator decorrente exclusivamente da miséria. Criminosos, os temos em todas as classes sociais, da mesma forma que pessoas honestas às quais jamais ocorreu cometer crimes para levar vida melhor. Mas é óbvio que as favelas são fábricas de marginais. Fabricam marginais a tal ponto que nem a polícia consegue entrar nos morros, a não ser que com muitos homens e armamento pesado. Desde há muito as favelas brasileiras são verdadeiros bantustões, onde estão confinadas populações majoritariamente negras, de modo geral a serviço do tráfico, ou pelo menos como muralha de proteção ao tráfico. Os bantustões foram pseudo-estados criados pelo regime do apartheid na África do Sul, de forma a manter os negros fora dos bairros e terras brancas, mas suficientemente perto delas para servirem de fontes de mão-de-obra barata. No Brasil, esta mão-de-obra inativa foi açambarcada pelo tráfego.

São as classes altas as maiores responsáveis pelo consumo de drogas? Sem dúvida. Mas quem as fornece é a favela. Também é óbvio que a miséria e a prolificidade desvairada favorece a criminalidade. Se uma família pode sustentar uma criança e tem no entanto sete ou oito, é óbvio que a maioria, senão todos, irão para a escola das ruas. Nesta escola não se aprende exatamente etiqueta e bons modos.

Aí surge a televisão como elemento catalisador da violência. A telinha está ao alcance de qualquer marginal e analfabeto e exibe, sem pudor algum, um mundo de sonho, maravilhas tecnológicas, ambientes luxuosos e mulheres sensuais. Que resta ao pobre diabo que perambula pelas ruas senão o ressentimento? O tráfico é uma saída ao alcance de sua mão. Paga melhor do que recebem muitos profissionais liberais e não exige maiores qualificações. É claro que a favela é uma fábrica de delinqüentes.

Desde há muito defendo a idéia de que o luxo e ostentação exibidos pela televisão constitui uma das principais causas da violência no país. A telinha promete o paraíso e o pobre diabo habita no inferno. "Eu também quero", dirá o pobre diabo. Ocorre que ele não tem como comprar. Então mata e rouba.

Que fazer? Censurar a televisão? Nada disso. O que urge - e que a meu ver jamais acontecerá no Brasil - é eliminar a miséria do país. Não digo a pobreza, mas a miséria. Não sou adepto da igualdade social. Os revolucionários de 89 não me consultaram - e nem mesmo consultaram os franceses - quando empunharam como bandeira Liberté, Egalité, Fraternité. Liberdade e fraternidade, tudo bem. Já igualdade são outros quinhentos. Pobres e ricos sempre existirão em todos os países do mundo. O que não pode existir é homens e mulheres, velhos e crianças, jogados à intempérie das ruas, morando em condições mais do que precárias e comendo mal e sem satisfazer o estômago. Gente que se refugia no sono e mesmo com o ruído do tráfego faz força para não acordar. Porque acordar é ter de enfrentar a realidade.

Há um setor da opinião pública que não gosta de ouvir verdades. Um dia antes das declarações de Sérgio Cabral, o secretário da Segurança, José Beltrame, disse que "um tiro em Copacabana é uma coisa e na favela da Coréia é outra". Foi outro deus-nos-acuda. Mas é óbvio que um tiro em Copacabana é uma coisa e na favela é outra. Da mesma forma que o massacre de dez mil pessoas em Darfur é uma coisa e a morte de um soldado em Israel é outra. Como um acidente de metrô com dois ou três feridos em Berlim ou Paris é uma coisa e uma tragédia com ônibus ou trens que mate uma centena de pessoas na Índia ou no Paquistão é outra.

Ao Ocidente, tanto faz como tanto fez que centenas ou milhares de pessoas morram na África ou no Oriente. Já a morte de um soldado em Israel ou um pequeno acidente de metrô na Europa, isto nos toca mais. Nenhum leitor tem dificuldade em admitir estas duas últimas proposições. Difícil é aceitar a primeira. Está muito próxima de nós e deixa transparecer a idéia de que não há tratamento igual para quem vive na favela e para quem vive em Copacabana.

Ora, é claro que não há. Que mais não seja, nas esquinas de Copacabana não há - pelo menos por enquanto - traficantes entrincheirados com armamento bélico de alto calibre à espreita dos policiais. No dia em que houver, e este dia talvez não esteja longe, um tiro em Copacabana será tão banal quanto um tiro na favela. As balas perdidas já estão preparando o clima para os dias futuros.

De fato, o aborto não é a solução. Aborto é meia-sola. Solução seria o planejamento familiar, a contenção da miséria. Mas também é difícil admitir que famílias de classes privilegiadas tenham acesso a aborto seguro, enquanto os pobres estão expostos à sanha de carniceiros. Os católicos são cegos e surdos à esta disparidade, preferem ver mulheres morrendo ou na cadeia em vez de terem direito a um aborto tranqüilo e obviamente se escandalizam quando surge alguém empunhando o óbvio em público.

Enquanto isto, a violência e a miséria são nosso quinhão. A diminuição da natalidade pode até diminuir o tráfico. Mas jamais acabará com o tráfico. O traficante circula no morro como peixe dentro d'água.

Se algum governador quiser acabar definitivamente com o tráfico nas favelas, a meu ver só há uma solução: napalm.

As esquerdas são divertidas. Sempre defenderam a bandidagem, alegando que a criminalidade é decorrência da miséria. Quando o governador Sérgio Cabral Filho, do Rio de Janeiro, defende o aborto como método de redução da violência no Estado e diz que a favela da Rocinha, na zona sul, é uma "fábrica de produzir marginal", é um deus-nos-acuda. Cabral apoiou-se no livro Freakonomics, dos americanos Steven Levitt e Stephen J. Dubner, que relacionam a legalização do aborto nos Estados Unidos à queda da criminalidade em áreas pobres, embora ressaltem que essa associação suscita um debate ético.

Segundo o Estado de São Paulo, entidades não-governamentais e moradores de favelas acusaram o governador de criminalizar a miséria e de distorcer o discurso do movimento pró-aborto, que defende a interrupção da gravidez como direito da mulher de ter autonomia sobre seu corpo, não como forma de combate à violência.

"Com essas declarações o governo escancara que defende a criminalização da pobreza. Como o Estado não tem política para incorporar o pobre, melhor que nem nasça. A política é de extermínio", disse Camilla Ribeiro, da ONG Justiça Global. "Para os mais ricos, o Estado se faz protetor; para os mais pobres, predador. Para se justificar, faz uma representação do favelado como o outro, de onde emana todo o mal", afirmou o professor Rodrigo Torquato da Silva, morador da Rocinha há 36 anos.

Segundo Adriana Gragnani, do núcleo de Estudos da Mulher e Relações de Gênero da Universidade de São Paulo, Cabral baseou-se em idéias ultrapassadas, dos anos 60. "Essa tese de diminuir o número de pobres para combater a violência, seja por aborto ou contraceptivos, é antiga. Na verdade você diminui a pobreza elevando o nível de vida da população".

Ora, vamos aos fatos. Nem de longe me ocorre defender a visão das esquerdas, de que a criminalidade é fator decorrente exclusivamente da miséria. Criminosos, os temos em todas as classes sociais, da mesma forma que pessoas honestas às quais jamais ocorreu cometer crimes para levar vida melhor. Mas é óbvio que as favelas são fábricas de marginais. Fabricam marginais a tal ponto que nem a polícia consegue entrar nos morros, a não ser que com muitos homens e armamento pesado. Desde há muito as favelas brasileiras são verdadeiros bantustões, onde estão confinadas populações majoritariamente negras, de modo geral a serviço do tráfico, ou pelo menos como muralha de proteção ao tráfico. Os bantustões foram pseudo-estados criados pelo regime do apartheid na África do Sul, de forma a manter os negros fora dos bairros e terras brancas, mas suficientemente perto delas para servirem de fontes de mão-de-obra barata. No Brasil, esta mão-de-obra inativa foi açambarcada pelo tráfego.

São as classes altas as maiores responsáveis pelo consumo de drogas? Sem dúvida. Mas quem as fornece é a favela. Também é óbvio que a miséria e a prolificidade desvairada favorece a criminalidade. Se uma família pode sustentar uma criança e tem no entanto sete ou oito, é óbvio que a maioria, senão todos, irão para a escola das ruas. Nesta escola não se aprende exatamente etiqueta e bons modos.

Aí surge a televisão como elemento catalisador da violência. A telinha está ao alcance de qualquer marginal e analfabeto e exibe, sem pudor algum, um mundo de sonho, maravilhas tecnológicas, ambientes luxuosos e mulheres sensuais. Que resta ao pobre diabo que perambula pelas ruas senão o ressentimento? O tráfico é uma saída ao alcance de sua mão. Paga melhor do que recebem muitos profissionais liberais e não exige maiores qualificações. É claro que a favela é uma fábrica de delinqüentes.

Desde há muito defendo a idéia de que o luxo e ostentação exibidos pela televisão constitui uma das principais causas da violência no país. A telinha promete o paraíso e o pobre diabo habita no inferno. "Eu também quero", dirá o pobre diabo. Ocorre que ele não tem como comprar. Então mata e rouba.

Que fazer? Censurar a televisão? Nada disso. O que urge - e que a meu ver jamais acontecerá no Brasil - é eliminar a miséria do país. Não digo a pobreza, mas a miséria. Não sou adepto da igualdade social. Os revolucionários de 89 não me consultaram - e nem mesmo consultaram os franceses - quando empunharam como bandeira Liberté, Egalité, Fraternité. Liberdade e fraternidade, tudo bem. Já igualdade são outros quinhentos. Pobres e ricos sempre existirão em todos os países do mundo. O que não pode existir é homens e mulheres, velhos e crianças, jogados à intempérie das ruas, morando em condições mais do que precárias e comendo mal e sem satisfazer o estômago. Gente que se refugia no sono e mesmo com o ruído do tráfego faz força para não acordar. Porque acordar é ter de enfrentar a realidade.

Há um setor da opinião pública que não gosta de ouvir verdades. Um dia antes das declarações de Sérgio Cabral, o secretário da Segurança, José Beltrame, disse que "um tiro em Copacabana é uma coisa e na favela da Coréia é outra". Foi outro deus-nos-acuda. Mas é óbvio que um tiro em Copacabana é uma coisa e na favela é outra. Da mesma forma que o massacre de dez mil pessoas em Darfur é uma coisa e a morte de um soldado em Israel é outra. Como um acidente de metrô com dois ou três feridos em Berlim ou Paris é uma coisa e uma tragédia com ônibus ou trens que mate uma centena de pessoas na Índia ou no Paquistão é outra.

Ao Ocidente, tanto faz como tanto fez que centenas ou milhares de pessoas morram na África ou no Oriente. Já a morte de um soldado em Israel ou um pequeno acidente de metrô na Europa, isto nos toca mais. Nenhum leitor tem dificuldade em admitir estas duas últimas proposições. Difícil é aceitar a primeira. Está muito próxima de nós e deixa transparecer a idéia de que não há tratamento igual para quem vive na favela e para quem vive em Copacabana.

Ora, é claro que não há. Que mais não seja, nas esquinas de Copacabana não há - pelo menos por enquanto - traficantes entrincheirados com armamento bélico de alto calibre à espreita dos policiais. No dia em que houver, e este dia talvez não esteja longe, um tiro em Copacabana será tão banal quanto um tiro na favela. As balas perdidas já estão preparando o clima para os dias futuros.

De fato, o aborto não é a solução. Aborto é meia-sola. Solução seria o planejamento familiar, a contenção da miséria. Mas também é difícil admitir que famílias de classes privilegiadas tenham acesso a aborto seguro, enquanto os pobres estão expostos à sanha de carniceiros. Os católicos são cegos e surdos à esta disparidade, preferem ver mulheres morrendo ou na cadeia em vez de terem direito a um aborto tranqüilo e obviamente se escandalizam quando surge alguém empunhando o óbvio em público.

Enquanto isto, a violência e a miséria são nosso quinhão. A diminuição da natalidade pode até diminuir o tráfico. Mas jamais acabará com o tráfico. O traficante circula no morro como peixe dentro d'água.

Se algum governador quiser acabar definitivamente com o tráfico nas favelas, a meu ver só há uma solução: napalm.

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

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