Seg12102018

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

31 Out 2007

Aiatolás na mira

Escrito por 
Quando do impasse envolvendo 15 militares britânicos capturados pelo Irã chegou ao fim, nossa bem informada mídia não titubeou em assinalar uma vitória política de Ahmadinejad. Ainda considerou o desfecho como uma “surpreendente libertação” pelo presidente iraniano e focalizou a saída da crise como uma suposta negociação entre Londres e Teerã.
Quando do impasse envolvendo 15 militares britânicos capturados pelo Irã chegou ao fim, nossa bem informada mídia não titubeou em assinalar uma vitória política de Ahmadinejad. Ainda considerou o desfecho como uma “surpreendente libertação” pelo presidente iraniano e focalizou a saída da crise como uma suposta negociação entre Londres e Teerã.
E se o líder iraniano não desse o perdão?
Ninguém fica tão bonzinho da noite para o dia, ainda mais quando vocifera com beligerância contra aliados regionais do Ocidente, como é o caso de Israel e, na surdina usa o potencial atômico como arma de dissuasão. Exceto se tiver a suas margens porta-aviões inimigos armados até os dentes, como é o caso da fantástica embarcação USS Nimitz com poder de fogo suficiente para obliterar todo o Irã.
Segundo matéria do NewsMax.com, as forças americanas já estariam a postos para um possível ataque ao Irã. De acordo com Wayne White, ex-analista do Deptº de Estado americano para o Oriente Médio, não seria um “ataque cirúrgico”, mas uma guerra de anos. Uma operação com potencial suficiente para aniquilar submarinos, força aérea e, especialmente, os mísseis balísticos iranianos capazes de alvejar embarcações comerciais americanas no Golfo. Já, o envolvimento israelense neste possível conflito traria uma maior instabilidade regional permitindo uma retaliação vigorosa do Irã a um alvo mais fácil e maior. Tal cenário seria muito pior do que uma guerra civil iraquiana que se ocorresse, estaria confinada ao próprio país.
 
Embora o presidente Bush tenha se esforçado em torno de uma saída diplomática com o Irã, o cálculo estratégico através de uma guerra toma corpo. Esta não é uma preocupação exclusiva da administração Bush, seus aliados no Golfo também têm demonstrado preocupações crescentes com o aumento do poderio bélico iraniano, especialmente no quesito nuclear. Segundo o perito em Oriente Médio, Kenneth Katzman, a República Islâmica do Irã apresenta muitas vulnerabilidades capazes de ser exploradas o que torna sua posição reversível.
 
A visão que Teerã projeta sobre seu país é de uma “superpotência”, mas os vínculos que mantêm o país unido são fracos. Sua economia, por exemplo, é bastante “primitiva” e, exceto pelo petróleo, exporta praticamente nada. Mesmo o petróleo deve ter sua importância relativizada, pois sua capacidade de produção de hidrocarbonetos vem declinando rapidamente. Apesar de não poder prejudicar diretamente os EUA, isto é, em seu próprio território, o Irã se utiliza da capacidade de embargo econômico como blefe. Portanto, no curto prazo é mais promissor aos EUA aproveitar seu poder de barganha tanto quanto possível, do que enveredar para um confronto direto. As negociações devem ter prosseguimento.
 
Muito da vontade e força iraniana reflete a conjuntura do vizinho Iraque onde há muitos movimentos separatistas. Embora os motivos dos que entram para grupos dissidentes estejam calcados na religião, a força de suas cúpulas dirigentes vincula-se, como não poderia deixar de ser, ao petróleo. Os curdos, ao norte, estão se preparando para desenvolver a extração de modo independente a Bagdá. No artigo The Kurdish Oil Realitypublicado em Stratfor.com temos uma vaga noção, do complicado xadrez regional. O ministro do petróleo iraquiano afirmou ser inconstitucional a estratégia do Governo Regional Curdo (KRG) que já assinou acordos com companhias canadenses e americanas. Seu investimento nos campos setentrionais dará autonomia e capacidade de resistir à pressão da capital iraquiana, apesar de toda retórica de Washington em prol de um Iraque federado e unido. Enquanto a questão envolvendo a partilha do petróleo não estiver resolvida, o país não disporá de força nem capacidade de unificação real. Por outro lado é difícil para Washington pender claramente para um dos lados dentro do Iraque. Graças à aliança entre curdos e governo americano desde os anos 90 quando de sua união contra Saddam Hussein, uma relação favorável tem sido cultivada. Portanto, não é que os EUA não possam boicotar o plano autonomista dos curdos, apenas se torna inconveniente assumir algo sem um benefício visível e superior a seu custo político. O melhor é deixar rolar, lavando as mãos...
 
A posição curda parece ir contra os interesses sunitas, mas não porque estes controlem o petróleo iraquiano, pois, na verdade, a administração da produção do óleo iraquiano sequer é centralizada por eles. Localizada em região predominantemente sunita, fatores complicadores não faltam à Bagdá. Mais ao sul, os xiitas também almejam o controle sobre os campos de hidrocarbonetos meridionais. Se os curdos atingirem seu intento no norte do país, se abrirá um precedente perigoso ao poder central iraquiano em que poderá se perder, analogamente, o controle do sul. Provavelmente, os xiitas também irão querer sua independência administrativa e “autonomia federativa” aí não passará de um pobre eufemismo para um separatismo de fato.
 

Pode se tentar argumentar que a autonomia federativa é o melhor caminho... Sempre é, mas ao adotar este modelo antes de uma partilha regional do petróleo, o custo político pode ser muito maior do que se pretende como benefício. Dividindo o Iraque em três secções, o norte sob controle curdo, o centro com os sunitas e o sul sob o tacão xiita teremos mais “externalidades” que poderia compensar a empreitada. Além da perda do apoio sunita com a dispersão e autonomia das regiões petrolíferas ao sul e norte há o fator Turquia que incorpora parte do que se convencionou chamar “Curdistão” e, não há compensação alguma em agradar curdos se indispondo com uma velha aliada da OTAN. É neste contexto que se tem que avaliar o pedido de Bush e Rice contra o projeto do congresso americano pelo reconhecimento do massacre de 1,5 milhão de armênios pela Turquia entre 1915 e 1923. Com o mundo muçulmano em sua cola, os EUA não vão querer criar outro foco de antiamericanismo naquele país de suma importância estratégica com seus mais de 70 milhões de habitantes.

 

Entre os interesses turcos, sunitas, xiitas, iranianos e americanos está o Curdistão, uma pedra no sapato da estabilidade política regional.
 

 
Neste rearranjo geopolítico pró-separatista, Bagdá sairá perdedora, deixando de lucrar com o projeto autonomista e mais grave ainda, os xiitas tenderão a se aproximar do vizinho Irã, também xiita. Convém lembrar ainda que esta região faz fronteira com a Arábia Saudita, a principal fornecedora de petróleo aos EUA. Este cenário de um Iraque dividido, com uma federação capenga beneficiaria mais ao Irã do que o domínio sobre um Iraque unido. A aliança com uma região simpática, o sul xiita, lhe imporia menos sacrifícios (e gastos) do que um domínio ou ocupação extensiva. E, com o bônus, de conseguir uma “estrada” de livre acesso a possíveis e futuras incursões à Península Arábica.
 
O melhor para a política americana é não se meter em acrobacias diplomáticas para formatar uma outra arquitetura política regional “politicamente correta”. Quanto ao petróleo, o melhor também é deixar que os negócios sigam seu curso natural dando o tom para futuras estratégias, sem dirigismo nem obstrução por Washington.
 
Estratégia e logística têm a ver com uma forte dose de Realismo Político para não se cair no jogo argumentativo ideológico. Ou temos consciência disso ou passamos a vender desejos com o título de “análise”. Isto é muito mais freqüente do que se imagina... Não há mal nenhum em torcer por um dos lados desde que a torcida seja claramente discriminada como o que é, uma mera vontade. No entanto, quando não se tem consciência disto, a primeira conseqüência é ignorar como os inimigos de ontem podem se tornar os aliados de hoje (e vice-versa). Um exemplo do que digo está em Russian Roulette on Iran de Michael Rubin onde o autor sugere uma aliança de propósitos russo-iraniana em derrubar os EUA, ao mesmo tempo em que considera a “venalidade” russa. Ora! Ou é um ou é outro... “Aliança” para combater os EUA não é o objetivo, mas um meio necessário na atual estratégia russa. Se amanhã ou depois, o mercado guinar para outra região, Moscou abandonará Teerã e Damasco com a mesma desfaçatez que hoje adota sua flexibilidade para tratar os inimigos de Washington. Os russos (assim como quaisquer outros) querem a farinha para o seu pirão primeiro. Claro que nem se importam se os EUA foram atacados e fizeram acordos com Teerã menos de um mês após o 11 de Setembro. Sugerir o contrário não passa de um argumento sentimental... O que tem a ver os aiatolás com a al Qaeda e os talebãs? Para estes, o verdadeiro islamismo é o da facção waabita de bin Laden que trata o xiismo dos aiatolás como falso. Querer colocar tudo no mesmo saco é o primeiro passo para não saber contra quem se luta. Se os EUA têm oposição ao Irã (e por certo que têm) deve ser diferenciado de quem perpetrou o atentado ao país. As estratégias podem até se combinar num segundo momento, mas não têm as mesmas origens contra as mesmas causas ideológicas. Em primeiro lugar, a verdade.
 
Falar em “estratégia realista” soa infantilmente redundante. Toda estratégia de estado antes mesmo de Maquiavel é isto mesmo. Raras exceções, como a influência neocon na política externa, não deram resultados. Vide a substituição de Rumsfeld por Gates... Idealismo neste caso não vem desacompanhado de externalidades para lá de negativas. Apesar de acreditar na necessidade (e ação) de defesa americana, isto não significa insinuar ingenuidade de Bush e Rice. Faze-lo é como se tivéssemos, arrogantemente, mais conhecimento do que eles do que se passa nos corredores do Pentágono. No Entre-Guerras, Nicholas Spykman já definira para décadas adiante o que seria a realpolitik americana ao influenciar o país e colocar uma pá de cal no “isolacionismo” que previa a defesa do Hemisfério Ocidental e a concretização da “fortaleza americana” com suas garras retraídas.
 
Quem acredita que o poder americano se mantém em uma perspectiva de unilateralismo, bem como através de uma visão paroquial da política externa está equivocado. Faz-se necessária uma visão multidimensional para entender seu papel na conjuntura global onde nem tudo na chamada geopolítica almeja a eliminação total do oponente. Este pode servir melhor estando vivo. O alcance de objetivos de estado não pode ser concluído apenas com a visão de curto prazo.
 
Nesta linha de raciocínio, a Rússia sempre será um parceiro conveniente quando se tratar de apertar o ferrão no Islã, mas uma opositora em se tratando de Europa, por exemplo. Parece óbvio que a Rússia sempre colocará seus interesses nacionais (de mercado bélico, inclusive) em primeiro lugar. O mesmo se dá com os próprios EUA no tocante à questão energética (e eles têm sua razão) que são sua força e fraqueza concomitantes. Para a Rússia, a escassez mundial de petróleo é benfazeja, tornando-a uma fornecedora privilegiada. Quando as relações internacionais se acalmam e a oferta da commodity, temporariamente, aumenta, um Putin da vida assina protocolos como o de Kyoto que, em passado recente, ele mesmo rejeitara. Súbita conscientização ecológica do ex-agente da KGB? Não engulo essa. Tudo conveniência de acordo com as circunstâncias.
 
Enfraquecer a economia americana se torna um expediente momentâneo para ampliar as reservas externas russas. O objetivo é político-econômico, não um sonho ideológico contra o “mundo livre” querendo enterrar o capitalismo. A combinação de suas enormes jazidas petrolíferas, ainda com grande potencial de prospecção, e a instabilidade política na região do Golfo Pérsico são dádivas circunstanciais para a Rússia passar de provedor alternativo a preferencial. Por isto mesmo, o avanço da OTAN no Leste Europeu tem que ser comemorado e incentivado. Tu me alimentas, mas tenho uma faca na tua garganta...
 
Querer entender um conflito no Oriente Médio envolvendo EUA e Irã vai além de uma satanização russa. É jogo. E como todo jogo, não há espaço para a moral. Aliás, o que tem a ver geopolítica com moral?... Sem entrar em considerações éticas sobre uma guerra e operações militares, não tenho idéia de como seria um conflito entre EUA e Irã. A começar pela população iraniana, muito maior que a iraquiana e, até onde sei, não tão dividida internamente na maior parte do território. Talvez, no curto prazo, um prolongado ataque aéreo a partir do Golfo seria uma alternativa viável e, no médio prazo incentivar, de alguma forma (e não sei como se daria isto) os árabes contra os persas explorando, maquiavelicamente, as diferenças entre sunitas e xiitas. Ou seja, mesmo que se obtenha algum resultado positivo disto tudo teremos efeitos indesejáveis, porém previsíveis bem como o fomento a uma seqüência decorrente de guerras menores. No geral, uma grande droga.
 
Mesmo que os EUA tenham capacidade para um ataque massivo, a questão é outra. Vale a pena? Valeu ter invadido o Iraque? Quanto a este último há analistas que rejeitavam a guerra, mas admitem que uma desocupação, eufemismo para fuga, só pioraria tudo. E, de mais a mais, capacidade tecnológica não é tudo, quanto custaria uma "brincadeira" dessas?
 
Por isto sou levado a crer que se ocorresse um conflito de maior envergadura, ele não seria uma ocupação terrestre tal como o Iraque, mas um ataque aéreo intenso com apoio de aliados em terra como o foi no Afeganistão. A questão, no entanto, é saber quem faria o papel de "Aliança do Norte", como ocorreu no Afeganistão contra o Talebã? O dividido Paquistão? Russos? Se a Rússia entrasse em tal conflito, qual seria o papel da China? Esta, com certeza vai chiar... Se a guerra interessaria à Europa, ou melhor, França e Alemanha, estas não costumam ter culhões para arcar com os custos da mesma. Esta tarefa eles deixam aos americanos para depois, como é de seu caráter, criticá-los também.
 
Se a guerra for inevitável, eu fico com a opção mais pragmática: atacar instalações militares, com especial destaque para a força aérea iraniana que tem algum peso regional. Mas, cá com meus botões eu tenho vontade de dizer “chega desse negócio de se aliar com o fulano que é ‘menos pior’ do que o inimigo conjuntural. Que mostrem as cartas, logo!” Mas, isto não é fato nem norma, trata-se apenas de um sonho de virgem.
Quando do impasse envolvendo 15 militares britânicos capturados pelo Irã chegou ao fim, nossa bem informada mídia não titubeou em assinalar uma vitória política de Ahmadinejad. Ainda considerou o desfecho como uma “surpreendente libertação” pelo presidente iraniano e focalizou a saída da crise como uma suposta negociação entre Londres e Teerã.
E se o líder iraniano não desse o perdão?
Ninguém fica tão bonzinho da noite para o dia, ainda mais quando vocifera com beligerância contra aliados regionais do Ocidente, como é o caso de Israel e, na surdina usa o potencial atômico como arma de dissuasão. Exceto se tiver a suas margens porta-aviões inimigos armados até os dentes, como é o caso da fantástica embarcação USS Nimitz com poder de fogo suficiente para obliterar todo o Irã.
Segundo matéria do NewsMax.com, as forças americanas já estariam a postos para um possível ataque ao Irã. De acordo com Wayne White, ex-analista do Deptº de Estado americano para o Oriente Médio, não seria um “ataque cirúrgico”, mas uma guerra de anos. Uma operação com potencial suficiente para aniquilar submarinos, força aérea e, especialmente, os mísseis balísticos iranianos capazes de alvejar embarcações comerciais americanas no Golfo. Já, o envolvimento israelense neste possível conflito traria uma maior instabilidade regional permitindo uma retaliação vigorosa do Irã a um alvo mais fácil e maior. Tal cenário seria muito pior do que uma guerra civil iraquiana que se ocorresse, estaria confinada ao próprio país.
 
Embora o presidente Bush tenha se esforçado em torno de uma saída diplomática com o Irã, o cálculo estratégico através de uma guerra toma corpo. Esta não é uma preocupação exclusiva da administração Bush, seus aliados no Golfo também têm demonstrado preocupações crescentes com o aumento do poderio bélico iraniano, especialmente no quesito nuclear. Segundo o perito em Oriente Médio, Kenneth Katzman, a República Islâmica do Irã apresenta muitas vulnerabilidades capazes de ser exploradas o que torna sua posição reversível.
 
A visão que Teerã projeta sobre seu país é de uma “superpotência”, mas os vínculos que mantêm o país unido são fracos. Sua economia, por exemplo, é bastante “primitiva” e, exceto pelo petróleo, exporta praticamente nada. Mesmo o petróleo deve ter sua importância relativizada, pois sua capacidade de produção de hidrocarbonetos vem declinando rapidamente. Apesar de não poder prejudicar diretamente os EUA, isto é, em seu próprio território, o Irã se utiliza da capacidade de embargo econômico como blefe. Portanto, no curto prazo é mais promissor aos EUA aproveitar seu poder de barganha tanto quanto possível, do que enveredar para um confronto direto. As negociações devem ter prosseguimento.
 
Muito da vontade e força iraniana reflete a conjuntura do vizinho Iraque onde há muitos movimentos separatistas. Embora os motivos dos que entram para grupos dissidentes estejam calcados na religião, a força de suas cúpulas dirigentes vincula-se, como não poderia deixar de ser, ao petróleo. Os curdos, ao norte, estão se preparando para desenvolver a extração de modo independente a Bagdá. No artigo The Kurdish Oil Realitypublicado em Stratfor.com temos uma vaga noção, do complicado xadrez regional. O ministro do petróleo iraquiano afirmou ser inconstitucional a estratégia do Governo Regional Curdo (KRG) que já assinou acordos com companhias canadenses e americanas. Seu investimento nos campos setentrionais dará autonomia e capacidade de resistir à pressão da capital iraquiana, apesar de toda retórica de Washington em prol de um Iraque federado e unido. Enquanto a questão envolvendo a partilha do petróleo não estiver resolvida, o país não disporá de força nem capacidade de unificação real. Por outro lado é difícil para Washington pender claramente para um dos lados dentro do Iraque. Graças à aliança entre curdos e governo americano desde os anos 90 quando de sua união contra Saddam Hussein, uma relação favorável tem sido cultivada. Portanto, não é que os EUA não possam boicotar o plano autonomista dos curdos, apenas se torna inconveniente assumir algo sem um benefício visível e superior a seu custo político. O melhor é deixar rolar, lavando as mãos...
 
A posição curda parece ir contra os interesses sunitas, mas não porque estes controlem o petróleo iraquiano, pois, na verdade, a administração da produção do óleo iraquiano sequer é centralizada por eles. Localizada em região predominantemente sunita, fatores complicadores não faltam à Bagdá. Mais ao sul, os xiitas também almejam o controle sobre os campos de hidrocarbonetos meridionais. Se os curdos atingirem seu intento no norte do país, se abrirá um precedente perigoso ao poder central iraquiano em que poderá se perder, analogamente, o controle do sul. Provavelmente, os xiitas também irão querer sua independência administrativa e “autonomia federativa” aí não passará de um pobre eufemismo para um separatismo de fato.
 

Pode se tentar argumentar que a autonomia federativa é o melhor caminho... Sempre é, mas ao adotar este modelo antes de uma partilha regional do petróleo, o custo político pode ser muito maior do que se pretende como benefício. Dividindo o Iraque em três secções, o norte sob controle curdo, o centro com os sunitas e o sul sob o tacão xiita teremos mais “externalidades” que poderia compensar a empreitada. Além da perda do apoio sunita com a dispersão e autonomia das regiões petrolíferas ao sul e norte há o fator Turquia que incorpora parte do que se convencionou chamar “Curdistão” e, não há compensação alguma em agradar curdos se indispondo com uma velha aliada da OTAN. É neste contexto que se tem que avaliar o pedido de Bush e Rice contra o projeto do congresso americano pelo reconhecimento do massacre de 1,5 milhão de armênios pela Turquia entre 1915 e 1923. Com o mundo muçulmano em sua cola, os EUA não vão querer criar outro foco de antiamericanismo naquele país de suma importância estratégica com seus mais de 70 milhões de habitantes.

 

Entre os interesses turcos, sunitas, xiitas, iranianos e americanos está o Curdistão, uma pedra no sapato da estabilidade política regional.
 

 
Neste rearranjo geopolítico pró-separatista, Bagdá sairá perdedora, deixando de lucrar com o projeto autonomista e mais grave ainda, os xiitas tenderão a se aproximar do vizinho Irã, também xiita. Convém lembrar ainda que esta região faz fronteira com a Arábia Saudita, a principal fornecedora de petróleo aos EUA. Este cenário de um Iraque dividido, com uma federação capenga beneficiaria mais ao Irã do que o domínio sobre um Iraque unido. A aliança com uma região simpática, o sul xiita, lhe imporia menos sacrifícios (e gastos) do que um domínio ou ocupação extensiva. E, com o bônus, de conseguir uma “estrada” de livre acesso a possíveis e futuras incursões à Península Arábica.
 
O melhor para a política americana é não se meter em acrobacias diplomáticas para formatar uma outra arquitetura política regional “politicamente correta”. Quanto ao petróleo, o melhor também é deixar que os negócios sigam seu curso natural dando o tom para futuras estratégias, sem dirigismo nem obstrução por Washington.
 
Estratégia e logística têm a ver com uma forte dose de Realismo Político para não se cair no jogo argumentativo ideológico. Ou temos consciência disso ou passamos a vender desejos com o título de “análise”. Isto é muito mais freqüente do que se imagina... Não há mal nenhum em torcer por um dos lados desde que a torcida seja claramente discriminada como o que é, uma mera vontade. No entanto, quando não se tem consciência disto, a primeira conseqüência é ignorar como os inimigos de ontem podem se tornar os aliados de hoje (e vice-versa). Um exemplo do que digo está em Russian Roulette on Iran de Michael Rubin onde o autor sugere uma aliança de propósitos russo-iraniana em derrubar os EUA, ao mesmo tempo em que considera a “venalidade” russa. Ora! Ou é um ou é outro... “Aliança” para combater os EUA não é o objetivo, mas um meio necessário na atual estratégia russa. Se amanhã ou depois, o mercado guinar para outra região, Moscou abandonará Teerã e Damasco com a mesma desfaçatez que hoje adota sua flexibilidade para tratar os inimigos de Washington. Os russos (assim como quaisquer outros) querem a farinha para o seu pirão primeiro. Claro que nem se importam se os EUA foram atacados e fizeram acordos com Teerã menos de um mês após o 11 de Setembro. Sugerir o contrário não passa de um argumento sentimental... O que tem a ver os aiatolás com a al Qaeda e os talebãs? Para estes, o verdadeiro islamismo é o da facção waabita de bin Laden que trata o xiismo dos aiatolás como falso. Querer colocar tudo no mesmo saco é o primeiro passo para não saber contra quem se luta. Se os EUA têm oposição ao Irã (e por certo que têm) deve ser diferenciado de quem perpetrou o atentado ao país. As estratégias podem até se combinar num segundo momento, mas não têm as mesmas origens contra as mesmas causas ideológicas. Em primeiro lugar, a verdade.
 
Falar em “estratégia realista” soa infantilmente redundante. Toda estratégia de estado antes mesmo de Maquiavel é isto mesmo. Raras exceções, como a influência neocon na política externa, não deram resultados. Vide a substituição de Rumsfeld por Gates... Idealismo neste caso não vem desacompanhado de externalidades para lá de negativas. Apesar de acreditar na necessidade (e ação) de defesa americana, isto não significa insinuar ingenuidade de Bush e Rice. Faze-lo é como se tivéssemos, arrogantemente, mais conhecimento do que eles do que se passa nos corredores do Pentágono. No Entre-Guerras, Nicholas Spykman já definira para décadas adiante o que seria a realpolitik americana ao influenciar o país e colocar uma pá de cal no “isolacionismo” que previa a defesa do Hemisfério Ocidental e a concretização da “fortaleza americana” com suas garras retraídas.
 
Quem acredita que o poder americano se mantém em uma perspectiva de unilateralismo, bem como através de uma visão paroquial da política externa está equivocado. Faz-se necessária uma visão multidimensional para entender seu papel na conjuntura global onde nem tudo na chamada geopolítica almeja a eliminação total do oponente. Este pode servir melhor estando vivo. O alcance de objetivos de estado não pode ser concluído apenas com a visão de curto prazo.
 
Nesta linha de raciocínio, a Rússia sempre será um parceiro conveniente quando se tratar de apertar o ferrão no Islã, mas uma opositora em se tratando de Europa, por exemplo. Parece óbvio que a Rússia sempre colocará seus interesses nacionais (de mercado bélico, inclusive) em primeiro lugar. O mesmo se dá com os próprios EUA no tocante à questão energética (e eles têm sua razão) que são sua força e fraqueza concomitantes. Para a Rússia, a escassez mundial de petróleo é benfazeja, tornando-a uma fornecedora privilegiada. Quando as relações internacionais se acalmam e a oferta da commodity, temporariamente, aumenta, um Putin da vida assina protocolos como o de Kyoto que, em passado recente, ele mesmo rejeitara. Súbita conscientização ecológica do ex-agente da KGB? Não engulo essa. Tudo conveniência de acordo com as circunstâncias.
 
Enfraquecer a economia americana se torna um expediente momentâneo para ampliar as reservas externas russas. O objetivo é político-econômico, não um sonho ideológico contra o “mundo livre” querendo enterrar o capitalismo. A combinação de suas enormes jazidas petrolíferas, ainda com grande potencial de prospecção, e a instabilidade política na região do Golfo Pérsico são dádivas circunstanciais para a Rússia passar de provedor alternativo a preferencial. Por isto mesmo, o avanço da OTAN no Leste Europeu tem que ser comemorado e incentivado. Tu me alimentas, mas tenho uma faca na tua garganta...
 
Querer entender um conflito no Oriente Médio envolvendo EUA e Irã vai além de uma satanização russa. É jogo. E como todo jogo, não há espaço para a moral. Aliás, o que tem a ver geopolítica com moral?... Sem entrar em considerações éticas sobre uma guerra e operações militares, não tenho idéia de como seria um conflito entre EUA e Irã. A começar pela população iraniana, muito maior que a iraquiana e, até onde sei, não tão dividida internamente na maior parte do território. Talvez, no curto prazo, um prolongado ataque aéreo a partir do Golfo seria uma alternativa viável e, no médio prazo incentivar, de alguma forma (e não sei como se daria isto) os árabes contra os persas explorando, maquiavelicamente, as diferenças entre sunitas e xiitas. Ou seja, mesmo que se obtenha algum resultado positivo disto tudo teremos efeitos indesejáveis, porém previsíveis bem como o fomento a uma seqüência decorrente de guerras menores. No geral, uma grande droga.
 
Mesmo que os EUA tenham capacidade para um ataque massivo, a questão é outra. Vale a pena? Valeu ter invadido o Iraque? Quanto a este último há analistas que rejeitavam a guerra, mas admitem que uma desocupação, eufemismo para fuga, só pioraria tudo. E, de mais a mais, capacidade tecnológica não é tudo, quanto custaria uma "brincadeira" dessas?
 
Por isto sou levado a crer que se ocorresse um conflito de maior envergadura, ele não seria uma ocupação terrestre tal como o Iraque, mas um ataque aéreo intenso com apoio de aliados em terra como o foi no Afeganistão. A questão, no entanto, é saber quem faria o papel de "Aliança do Norte", como ocorreu no Afeganistão contra o Talebã? O dividido Paquistão? Russos? Se a Rússia entrasse em tal conflito, qual seria o papel da China? Esta, com certeza vai chiar... Se a guerra interessaria à Europa, ou melhor, França e Alemanha, estas não costumam ter culhões para arcar com os custos da mesma. Esta tarefa eles deixam aos americanos para depois, como é de seu caráter, criticá-los também.
 
Se a guerra for inevitável, eu fico com a opção mais pragmática: atacar instalações militares, com especial destaque para a força aérea iraniana que tem algum peso regional. Mas, cá com meus botões eu tenho vontade de dizer “chega desse negócio de se aliar com o fulano que é ‘menos pior’ do que o inimigo conjuntural. Que mostrem as cartas, logo!” Mas, isto não é fato nem norma, trata-se apenas de um sonho de virgem.
Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

Deixe um comentário

Informações marcadas com (*) são obrigatórias. Código HTML básico é permitido.

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.