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18 Out 2007

O Antropólogo e os Sinos

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Trocando os queijos de bolso, quando leio o antropólogo Roberto da Matta, sinto um certo cheiro de falsa erudição.

Nos sinos antigos - escreveu Pitigrilli - liam-se inscrições deste gênero: "Funera plango, fulgura frango, sabbata pango, excito lentos, dissipo ventos, placo cruentos". Traduzindo: choro os mortos, disperso as tormentas, anuncio as solenidades, estimulo os vagarosos, dissipo os ventos, aplaco os violentos. Ou ainda, em fórmula mais sintética: "Vivos voco, mortuos plango, fulgura frango". Convoco os vivos, choro os mortos, amaino os temporais.

Pitigrilli - não sei se alguém lembra dele - foi coqueluche em meus dias de jovem. Segundo o autor, acreditava-se outrora que, tocando os sinos, as ondas sonoras dispersariam as tempestades. Firmou-se entre as aldeias da Europa a convenção de não tocar os sinos durante os temporais e quando houvesse granizos. Era uma política de boa vizinhança. Quem tiver nuvens sobre seu vinhedo, guarde-as e não as empurre para a povoação vizinha.

Os sinos surgem com os grandes edifícios para o culto, a partir do século V. A primeira referência que temos a sinos ocorre em torno do ano 515, em carta de um diácono de Cartago. Três séculos mais tarde, o papa Estevão II fez edificar, na basílica de São Pedro, um campanário.

Trocando os queijos de bolso, quando leio o antropólogo Roberto da Matta, sinto um certo cheiro de falsa erudição. Em artigo para o Estadão, ela se torna evidente, na crônica intitulada "A cura por Schopenhauer". Escreve o cronista: "O amor é ponte porque, num sentido preciso, ele liga virtudes longínquas, como a esperança; com as próximas, como a caridade. Foi por isso que São Paulo apóstolo falou que de nada vale o sino do melhor metal, se no seu som não há amor. Do mesmo modo, de nada valem leis formalmente perfeitas e que resolvem tudo, se não há juízes, delegados, policiais, advogados e cidadãos para segui-las e honrá-las".

Se da Matta quer justificar a existência do aparelho de Estado, melhor não apelar a metáforas com sinos, pois na Bíblia toda não há referência alguma a sinos. Nem no Velho nem no Novo Testamento. A metalurgia da época não havia chegado a tanto. O mais parecido que encontramos a sinos na Bíblia, são campainhas de ouro, em Êxodo 28,33-35.

Quanto a metal, há apenas duas referências, mas não nas circunstâncias em que o antropólogo cita. A primeira está em Êxodo, 35,24: "Todo aquele que tinha prata ou metal para oferecer, o trazia por oferta alçada ao Senhor; e todo aquele que possuía madeira de acácia, a trazia para qualquer obra do serviço".

A segunda está no Primeiro Coríntios, 13,1: "Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o címbalo que retine". Nada a ver portanto com sinos do melhor metal, nem de sons com ou sem amor".

O ilustre antropólogo deve andar lendo bíblias espúrias.

Nos sinos antigos - escreveu Pitigrilli - liam-se inscrições deste gênero: "Funera plango, fulgura frango, sabbata pango, excito lentos, dissipo ventos, placo cruentos". Traduzindo: choro os mortos, disperso as tormentas, anuncio as solenidades, estimulo os vagarosos, dissipo os ventos, aplaco os violentos. Ou ainda, em fórmula mais sintética: "Vivos voco, mortuos plango, fulgura frango". Convoco os vivos, choro os mortos, amaino os temporais.

Pitigrilli - não sei se alguém lembra dele - foi coqueluche em meus dias de jovem. Segundo o autor, acreditava-se outrora que, tocando os sinos, as ondas sonoras dispersariam as tempestades. Firmou-se entre as aldeias da Europa a convenção de não tocar os sinos durante os temporais e quando houvesse granizos. Era uma política de boa vizinhança. Quem tiver nuvens sobre seu vinhedo, guarde-as e não as empurre para a povoação vizinha.

Os sinos surgem com os grandes edifícios para o culto, a partir do século V. A primeira referência que temos a sinos ocorre em torno do ano 515, em carta de um diácono de Cartago. Três séculos mais tarde, o papa Estevão II fez edificar, na basílica de São Pedro, um campanário.

Trocando os queijos de bolso, quando leio o antropólogo Roberto da Matta, sinto um certo cheiro de falsa erudição. Em artigo para o Estadão, ela se torna evidente, na crônica intitulada "A cura por Schopenhauer". Escreve o cronista: "O amor é ponte porque, num sentido preciso, ele liga virtudes longínquas, como a esperança; com as próximas, como a caridade. Foi por isso que São Paulo apóstolo falou que de nada vale o sino do melhor metal, se no seu som não há amor. Do mesmo modo, de nada valem leis formalmente perfeitas e que resolvem tudo, se não há juízes, delegados, policiais, advogados e cidadãos para segui-las e honrá-las".

Se da Matta quer justificar a existência do aparelho de Estado, melhor não apelar a metáforas com sinos, pois na Bíblia toda não há referência alguma a sinos. Nem no Velho nem no Novo Testamento. A metalurgia da época não havia chegado a tanto. O mais parecido que encontramos a sinos na Bíblia, são campainhas de ouro, em Êxodo 28,33-35.

Quanto a metal, há apenas duas referências, mas não nas circunstâncias em que o antropólogo cita. A primeira está em Êxodo, 35,24: "Todo aquele que tinha prata ou metal para oferecer, o trazia por oferta alçada ao Senhor; e todo aquele que possuía madeira de acácia, a trazia para qualquer obra do serviço".

A segunda está no Primeiro Coríntios, 13,1: "Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o címbalo que retine". Nada a ver portanto com sinos do melhor metal, nem de sons com ou sem amor".

O ilustre antropólogo deve andar lendo bíblias espúrias.

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

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