Sex12062019

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

25 Set 2007

Stalin Vive

Escrito por 
Temos dezenas de filmes sobre os campos de concentração nazistas, sobre as matanças de Hitler. Não tenho lembrança de filme algum sobre os gulags soviéticos ou demais massacres stanilistas.

Em abril de 1940, na floresta de Katyn, perto de Smolensk, 22 500 oficiais poloneses foram executados pela NKVD russa, por ordem de Beria - avalizada por Stalin - com uma bala na nuca, e enterrados em vala comum. A carnificina foi descoberta pelas tropas alemãs, por ocasião de sua incursão em território russo, após a ruptura do pacto Stalin-Von Ribbentrop, em 1941. Durante quarenta anos, o massacre de Katyn foi atribuído pela propaganda comunista às tropas alemãs. O Ocidente conhecia muito bem a autoria do massacre, mas se manteve silente para não envenenar suas relações com a União soviética.

Foi preciso esperar abril de 1990, meio ano após a queda do muro de Berlim, para que o presidente Mikhaïl Gorbatchev reconhecesse a responsabilidade da URSS. Mesmo assim, até hoje a Rússia não aceita esta responsabilidade. Em 2004, após 14 anos de investigações, os tribunais militares russos arquivaram o dossiê de Katyn, alegando que se tratava de um crime comum, e portanto prescrito.

Temos dezenas de filmes sobre os campos de concentração nazistas, sobre as matanças de Hitler. Não tenho lembrança de filme algum sobre os gulags soviéticos ou demais massacres stanilistas. Isso que roteiro é o que não falta. Já está inclusive escrito, é o Arquipélago Gulag, de Soljenítsin. E de 1940 para cá, nenhum Spielberg da vida pensou, por exemplo, em narrar o massacre de Katyn.

Esta missão coube ao cineasta polonês Andrzej Wajda, que já nos deu filmes como Cinzas e Diamantes e O Homem de Ferro, et pour cause: seu pai era capitão do Exército polonês e foi assassinado na mesma época pelos soviéticos, na floresta de Miednoïé, crime que foi associado ao massacre de Katyn. É o que leio no Libération. O filme foi exibido em pré-estréia na segunda-feira passada na Ópera de Varsóvia.

Curiosamente, o filme não deixa de trazer embutida uma acusação ao próprio Wajda. Segundo o jornal francês, adivinha-se o jovem Wajda no personagem do jovem resistente que, no final da Guerra, vem a Cracóvia para estudar Belas Artes. Como o pai de Wajda, o pai do jovem resistente foi morto em Katyn. Mas ele recusa-se a renegá-lo em seu currículo, como muitos outros fizeram para evitar aborrecimentos sob a ocupação soviética. O jovem morre.

Na estréia do filme, um espectador perguntou ao cineasta:

- Com Katyn, você deixa entender que se você não tivesse mentido sobre a morte de seu pai, você não teria podido cursar Belas Artes nem o curso de cinema e que a escola polonesa de cinema não teria surgido.

Wajda, que tem 82 anos, se defende:

- Eu confessarei meus próprios pecados diante de um outro auditório e certamente muito em breve. Cada um milita à sua maneira.

Os críticos brasileiros, que acorrem céleres aos Estados Unidos para promover abacaxis americanos, pelo jeito até agora não tomaram conhecimento do filme de Wajda.

Já que falei em Katyn...

Estou lendo a edição da revista francesa L’Express desta semana, que tem Joseph Vissarionovitch Djugatchivili como chamada de capa. Ocorre que a Rússia de Putin está ressuscitando Stalin, como era mais conhecido o ex-seminarista. Entendo que alguns velhotes caquéticos como Niemeyer e Ariano Suassuna ainda cultuem no Brasil o Paisinho dos Povos. São homens que fizeram suas carreiras montados no stalinismo e não podemos esperar que tais pessoas, ao final da vida, reneguem suas próprias biografias. Entende-se também que uma juventude desinformada – que nada conhece de História e é bombardeada por bibliografias marxistas – possa ter algum apreço pelo grande assassino. Afinal os gulags de Stalin não afetaram brasileiros, nem vivemos sob o tacão de suas botas.

Mais difícil é entender que os russos voltem a cultuar o tirano. O Livro Negro do Comunismo, de Stéphane Courtois et allia, credita a Stalin a morte de 20 milhões de pessoas, e a maioria destas vítimas eram russos. Só Mao conseguiu matar mais que Stalin: 65 milhões, segundo os autores. Os dois maiores matadores de comunistas da História foram... os líderes comunistas Mao e Stalin. Nem Hitler conseguiu matar tantos.

Vamos aos relatos de L’Express. Por encomenda do Kremlin, isto é, de Vladimir Putin, foi publicada em Moscou uma História Contemporânea da Rússia, 1945-2006, onde se pode ler afirmações das mais significativas. Diz o breviário que a União Soviética era “não uma democracia, mas um exemplo de sociedade justa”. Que Stalin foi o dirigente soviético cuja obra foi “a mais bem-sucedida”, por ter transformado a URSS em uma potência industrial e tê-la conduzido à vitória de 1945. Quanto à repressão política que fez milhares de vítimas, ela teria sido utilizada com o único objetivo de “mobilizar não só somente a base, mas a elite dirigente”.

Ano passado, um museu Stalin, financiado por um homem de negócios, abriu suas portas em meio ao complexo oficial que comemora a batalha de Stalingrado. Sem que o Kremlin dissesse qualquer coisa contra. Tampouco disse nada contra a reaparição de bustos e estátuas de Stalin em diversas regiões do país. A rede televisão NTV difundiu este ano uma série em 40 episódios, intitulada Stalin Live, mostrando o tirano em vias de arrepender-se nos últimos meses de sua vida. “Há uma demanda que vem de baixo, endereçada ao poder em favor de uma revisão da História” – diz Alexandr Daniel, filho do antigo dissidente Youli Daniel -. “O poder responde na medida em que isto serve seus próprios propósitos. Não sei onde isto vai parar”.

Nessa altura dos acontecimentos, já há ensaístas que se sentem à vontade para negar o que não pode mais ser negado. Um certo Youri Moukhine, por exemplo, afirma que o massacre de Katyn foi cometido pelos nazistas, e não pela União Soviética. Apesar de Boris Yeltsin ter confirmado, em 1992, ao presidente polonês Lech Walesa, que a ordem viera de Stalin.

L’Express entrevista o escritor e ex-diplomata Vladimir Fédorovski, autor de Le Fantôme de Staline. Fédorovski dá um novo enfoque às denúncias do stalinismo feitas por Kruschev em 1956:

- O objetivo do XX Congresso do PCUS, apresentado como o que desestalinou a União Soviética, em 1956, não era uma verdadeira desestalinização. Seus instigadores visavam desculpar Lênin e fazer perdurar o sistema, culpabilizando Stalin e sua sua alma danada, Beria. A astúcia de Kruschev consistiu em organizar um branqeamento do sistema, a instituir um novo culto, uma religião pagã onde os papéis eram distribuídos por antecipação. Lênin se tornava um deus eterno, Stalin o deus decaído, mas tudo permanecia no lugar: o KGB representava a Inquisição, o Partido era a ordem religiosa portadora das espadas, às quais se ajuntavam os ícones, as peregrinações ao mausoléu, etc.

Interrogado sobre o porquê da reabilitação de Stalin, diz Fédorovski:

- O personagem de Stalin é a chave do funcionamento da Rússia atual. Mais de 30 museus lhe foram consagrados, na Rússia, nos últimos três anos. Vladimir Putin o cita em seus discursos e mesmo os jovens são atraídos por sua imagem. Putin toma emprestado de Stalin o tema da Rússia, “citadela sitiada”, o governo pelo medo, a nomenklatura renovada e sobretudo o recurso a um passado inventado. A diferença entre eles é que Stalin evocava um personagem de Shakespeare, enquanto que Putin faz faz pensar no Spectre, dos filmes de James Bond.

Regozijem-se as esquerdas brasileiras, os PTs e PSOLs da vida, os Zés Dirceus e Tarsos Genros, os Niemeyers e Suassunas. Nem tudo está perdido. O Mestre ressuscita de entre os mortos. Hosanas a Putin, o anunciador da Boa Nova. Voltem-se os olhos dos crentes à antiga Nova Jerusalém. O Paisinho dos Povos vive. Aleluia! Aleluia! Aleluia!

Em abril de 1940, na floresta de Katyn, perto de Smolensk, 22 500 oficiais poloneses foram executados pela NKVD russa, por ordem de Beria - avalizada por Stalin - com uma bala na nuca, e enterrados em vala comum. A carnificina foi descoberta pelas tropas alemãs, por ocasião de sua incursão em território russo, após a ruptura do pacto Stalin-Von Ribbentrop, em 1941. Durante quarenta anos, o massacre de Katyn foi atribuído pela propaganda comunista às tropas alemãs. O Ocidente conhecia muito bem a autoria do massacre, mas se manteve silente para não envenenar suas relações com a União soviética.

Foi preciso esperar abril de 1990, meio ano após a queda do muro de Berlim, para que o presidente Mikhaïl Gorbatchev reconhecesse a responsabilidade da URSS. Mesmo assim, até hoje a Rússia não aceita esta responsabilidade. Em 2004, após 14 anos de investigações, os tribunais militares russos arquivaram o dossiê de Katyn, alegando que se tratava de um crime comum, e portanto prescrito.

Temos dezenas de filmes sobre os campos de concentração nazistas, sobre as matanças de Hitler. Não tenho lembrança de filme algum sobre os gulags soviéticos ou demais massacres stanilistas. Isso que roteiro é o que não falta. Já está inclusive escrito, é o Arquipélago Gulag, de Soljenítsin. E de 1940 para cá, nenhum Spielberg da vida pensou, por exemplo, em narrar o massacre de Katyn.

Esta missão coube ao cineasta polonês Andrzej Wajda, que já nos deu filmes como Cinzas e Diamantes e O Homem de Ferro, et pour cause: seu pai era capitão do Exército polonês e foi assassinado na mesma época pelos soviéticos, na floresta de Miednoïé, crime que foi associado ao massacre de Katyn. É o que leio no Libération. O filme foi exibido em pré-estréia na segunda-feira passada na Ópera de Varsóvia.

Curiosamente, o filme não deixa de trazer embutida uma acusação ao próprio Wajda. Segundo o jornal francês, adivinha-se o jovem Wajda no personagem do jovem resistente que, no final da Guerra, vem a Cracóvia para estudar Belas Artes. Como o pai de Wajda, o pai do jovem resistente foi morto em Katyn. Mas ele recusa-se a renegá-lo em seu currículo, como muitos outros fizeram para evitar aborrecimentos sob a ocupação soviética. O jovem morre.

Na estréia do filme, um espectador perguntou ao cineasta:

- Com Katyn, você deixa entender que se você não tivesse mentido sobre a morte de seu pai, você não teria podido cursar Belas Artes nem o curso de cinema e que a escola polonesa de cinema não teria surgido.

Wajda, que tem 82 anos, se defende:

- Eu confessarei meus próprios pecados diante de um outro auditório e certamente muito em breve. Cada um milita à sua maneira.

Os críticos brasileiros, que acorrem céleres aos Estados Unidos para promover abacaxis americanos, pelo jeito até agora não tomaram conhecimento do filme de Wajda.

Já que falei em Katyn...

Estou lendo a edição da revista francesa L’Express desta semana, que tem Joseph Vissarionovitch Djugatchivili como chamada de capa. Ocorre que a Rússia de Putin está ressuscitando Stalin, como era mais conhecido o ex-seminarista. Entendo que alguns velhotes caquéticos como Niemeyer e Ariano Suassuna ainda cultuem no Brasil o Paisinho dos Povos. São homens que fizeram suas carreiras montados no stalinismo e não podemos esperar que tais pessoas, ao final da vida, reneguem suas próprias biografias. Entende-se também que uma juventude desinformada – que nada conhece de História e é bombardeada por bibliografias marxistas – possa ter algum apreço pelo grande assassino. Afinal os gulags de Stalin não afetaram brasileiros, nem vivemos sob o tacão de suas botas.

Mais difícil é entender que os russos voltem a cultuar o tirano. O Livro Negro do Comunismo, de Stéphane Courtois et allia, credita a Stalin a morte de 20 milhões de pessoas, e a maioria destas vítimas eram russos. Só Mao conseguiu matar mais que Stalin: 65 milhões, segundo os autores. Os dois maiores matadores de comunistas da História foram... os líderes comunistas Mao e Stalin. Nem Hitler conseguiu matar tantos.

Vamos aos relatos de L’Express. Por encomenda do Kremlin, isto é, de Vladimir Putin, foi publicada em Moscou uma História Contemporânea da Rússia, 1945-2006, onde se pode ler afirmações das mais significativas. Diz o breviário que a União Soviética era “não uma democracia, mas um exemplo de sociedade justa”. Que Stalin foi o dirigente soviético cuja obra foi “a mais bem-sucedida”, por ter transformado a URSS em uma potência industrial e tê-la conduzido à vitória de 1945. Quanto à repressão política que fez milhares de vítimas, ela teria sido utilizada com o único objetivo de “mobilizar não só somente a base, mas a elite dirigente”.

Ano passado, um museu Stalin, financiado por um homem de negócios, abriu suas portas em meio ao complexo oficial que comemora a batalha de Stalingrado. Sem que o Kremlin dissesse qualquer coisa contra. Tampouco disse nada contra a reaparição de bustos e estátuas de Stalin em diversas regiões do país. A rede televisão NTV difundiu este ano uma série em 40 episódios, intitulada Stalin Live, mostrando o tirano em vias de arrepender-se nos últimos meses de sua vida. “Há uma demanda que vem de baixo, endereçada ao poder em favor de uma revisão da História” – diz Alexandr Daniel, filho do antigo dissidente Youli Daniel -. “O poder responde na medida em que isto serve seus próprios propósitos. Não sei onde isto vai parar”.

Nessa altura dos acontecimentos, já há ensaístas que se sentem à vontade para negar o que não pode mais ser negado. Um certo Youri Moukhine, por exemplo, afirma que o massacre de Katyn foi cometido pelos nazistas, e não pela União Soviética. Apesar de Boris Yeltsin ter confirmado, em 1992, ao presidente polonês Lech Walesa, que a ordem viera de Stalin.

L’Express entrevista o escritor e ex-diplomata Vladimir Fédorovski, autor de Le Fantôme de Staline. Fédorovski dá um novo enfoque às denúncias do stalinismo feitas por Kruschev em 1956:

- O objetivo do XX Congresso do PCUS, apresentado como o que desestalinou a União Soviética, em 1956, não era uma verdadeira desestalinização. Seus instigadores visavam desculpar Lênin e fazer perdurar o sistema, culpabilizando Stalin e sua sua alma danada, Beria. A astúcia de Kruschev consistiu em organizar um branqeamento do sistema, a instituir um novo culto, uma religião pagã onde os papéis eram distribuídos por antecipação. Lênin se tornava um deus eterno, Stalin o deus decaído, mas tudo permanecia no lugar: o KGB representava a Inquisição, o Partido era a ordem religiosa portadora das espadas, às quais se ajuntavam os ícones, as peregrinações ao mausoléu, etc.

Interrogado sobre o porquê da reabilitação de Stalin, diz Fédorovski:

- O personagem de Stalin é a chave do funcionamento da Rússia atual. Mais de 30 museus lhe foram consagrados, na Rússia, nos últimos três anos. Vladimir Putin o cita em seus discursos e mesmo os jovens são atraídos por sua imagem. Putin toma emprestado de Stalin o tema da Rússia, “citadela sitiada”, o governo pelo medo, a nomenklatura renovada e sobretudo o recurso a um passado inventado. A diferença entre eles é que Stalin evocava um personagem de Shakespeare, enquanto que Putin faz faz pensar no Spectre, dos filmes de James Bond.

Regozijem-se as esquerdas brasileiras, os PTs e PSOLs da vida, os Zés Dirceus e Tarsos Genros, os Niemeyers e Suassunas. Nem tudo está perdido. O Mestre ressuscita de entre os mortos. Hosanas a Putin, o anunciador da Boa Nova. Voltem-se os olhos dos crentes à antiga Nova Jerusalém. O Paisinho dos Povos vive. Aleluia! Aleluia! Aleluia!

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

Deixe um comentário

Informações marcadas com (*) são obrigatórias. Código HTML básico é permitido.

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.