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19 Set 2007

Voi Che Entrate

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Ao que tudo indica, a decisão do STF de indiciar 40 quadrilheiros ligados ao PT andou insuflando esperanças em certos setores ingênuos do país, que acharam que agora sim era chegada a hora de moralizar o Brasil.

Ao que tudo indica, a decisão do STF de indiciar 40 quadrilheiros ligados ao PT andou insuflando esperanças em certos setores ingênuos do país, que acharam que agora sim era chegada a hora de moralizar o Brasil. Ora, a decisão do STF é inócua. Apenas indicia. Os insignes magistrados fizeram pose de machos, sabendo muito bem que todos os indiciados serão absolvidos. Alguns por prescrição dos crimes, outros por manobras protelatórias de direito adjetivo. Talvez recebam penas mínimas alguns bagrinhos, tipo gerentes de bancos, que poderão ser cumpridas com o pagamento de cestas básicas ou coisa parecida. Ninguém acredita, em sã consciência, que o mentor da quadrilha toda, José Dirceu, vá ver um dia o sol quadrado. Muito menos il capo di tutti capi.

Com a absolvição do presidente do Congresso Nacional, Renan Calheiros, houve um surto de mensagens na Web, falando da vergonha de ser brasileiro. Ora, tinha alguém alguma esperança na condenação do calhorda Calheiros? Se fosse condenado, o efeito seria pior: o Senado posaria de virtuoso enquanto continuaria abrigando uma outra boa metade de calhordas. Em meio a esse desalento de certas almas virtuosas, me sinto contente com o resultado do conclave. Sim, pois foi um conclave, no melhor estilo vaticano, com todo o sigilo e intrigas típicas das velhas raposas romanas. Só faltou a fumacinha branca. Me sinto contente porque assim o Senado mostra ao que vem. Não passa de uma máfia de corruptos, sempre disposta a absolver o capo flagrado com a boca na botija.

O que vigiu, nesta votação, foi a lei da omertà, típica da Máfia, da 'Ndrangheta e da Camorra. Em outras palavras, nunca colaborar com a lei, o voto de silêncio entre mafiosos. Caso a omertà seja violada, a punição, em geral, é a morte. No caso, a morte política. Renan fez ameaças explícitas às vestais Pedro Simon, Jefferson Peres e Heloísa Helena, tidas como de oposição. Suas ameaças não serão desprovidas de fundamentos e explicam em parte o veredito do Congresso. A outra parte deve ser atribuída aos covardes senadores do PT, que mesmo com voto secreto se abstiveram de votar, como se esta abstenção os redimisse da conivência com a corrupção.

Vergonha de ser brasileiro, não tenho e nunca tive. Brasil não é só esse bordel chamado Congresso Nacional. Deixei de votar há mais de vinte anos e não posso dizer que me sinto traído por meus representantes porque desde há muito não os tenho. Mas também não tenho orgulho algum de ser brasileiro. Não vejo maiores razões para orgulhar-me deste país. Assim sendo, não estou em nada decepcionado pela absolvição de Calheiros. Era bastante previsível.

É curioso observar que esta gente que hoje diz ter vergonha de ser brasileira, nunca manifestou sentir vergonha quando elegeu – e reelegeu – um analfabeto conivente com a corrupção para a Presidência do país.

Agora é tarde! Nas próximas semanas, será votada a prorrogação da CPMF. Se a absolvição do calhorda Calheiros tivesse o efeito de extinguir esta extorsão, bem-vinda seria. Mas não terá. As ditas oposições votarão de novo bonitinho com o governo. José Serra e Aécio Neves, potenciais candidatos da oposição ao governo, já se manifestaram a favor do imposto infame. Também, pudera! Quem criou a CPMF foi o PSDB. PSDB e PT, mesmo combate.

Você ainda tem esperanças com o Brasil? Eu as perdi desde há muito e há muito não me escandalizo. Remember Dante: lasciate ogni speranza, voi che entrate!

Ao que tudo indica, a decisão do STF de indiciar 40 quadrilheiros ligados ao PT andou insuflando esperanças em certos setores ingênuos do país, que acharam que agora sim era chegada a hora de moralizar o Brasil. Ora, a decisão do STF é inócua. Apenas indicia. Os insignes magistrados fizeram pose de machos, sabendo muito bem que todos os indiciados serão absolvidos. Alguns por prescrição dos crimes, outros por manobras protelatórias de direito adjetivo. Talvez recebam penas mínimas alguns bagrinhos, tipo gerentes de bancos, que poderão ser cumpridas com o pagamento de cestas básicas ou coisa parecida. Ninguém acredita, em sã consciência, que o mentor da quadrilha toda, José Dirceu, vá ver um dia o sol quadrado. Muito menos il capo di tutti capi.

Com a absolvição do presidente do Congresso Nacional, Renan Calheiros, houve um surto de mensagens na Web, falando da vergonha de ser brasileiro. Ora, tinha alguém alguma esperança na condenação do calhorda Calheiros? Se fosse condenado, o efeito seria pior: o Senado posaria de virtuoso enquanto continuaria abrigando uma outra boa metade de calhordas. Em meio a esse desalento de certas almas virtuosas, me sinto contente com o resultado do conclave. Sim, pois foi um conclave, no melhor estilo vaticano, com todo o sigilo e intrigas típicas das velhas raposas romanas. Só faltou a fumacinha branca. Me sinto contente porque assim o Senado mostra ao que vem. Não passa de uma máfia de corruptos, sempre disposta a absolver o capo flagrado com a boca na botija.

O que vigiu, nesta votação, foi a lei da omertà, típica da Máfia, da 'Ndrangheta e da Camorra. Em outras palavras, nunca colaborar com a lei, o voto de silêncio entre mafiosos. Caso a omertà seja violada, a punição, em geral, é a morte. No caso, a morte política. Renan fez ameaças explícitas às vestais Pedro Simon, Jefferson Peres e Heloísa Helena, tidas como de oposição. Suas ameaças não serão desprovidas de fundamentos e explicam em parte o veredito do Congresso. A outra parte deve ser atribuída aos covardes senadores do PT, que mesmo com voto secreto se abstiveram de votar, como se esta abstenção os redimisse da conivência com a corrupção.

Vergonha de ser brasileiro, não tenho e nunca tive. Brasil não é só esse bordel chamado Congresso Nacional. Deixei de votar há mais de vinte anos e não posso dizer que me sinto traído por meus representantes porque desde há muito não os tenho. Mas também não tenho orgulho algum de ser brasileiro. Não vejo maiores razões para orgulhar-me deste país. Assim sendo, não estou em nada decepcionado pela absolvição de Calheiros. Era bastante previsível.

É curioso observar que esta gente que hoje diz ter vergonha de ser brasileira, nunca manifestou sentir vergonha quando elegeu – e reelegeu – um analfabeto conivente com a corrupção para a Presidência do país.

Agora é tarde! Nas próximas semanas, será votada a prorrogação da CPMF. Se a absolvição do calhorda Calheiros tivesse o efeito de extinguir esta extorsão, bem-vinda seria. Mas não terá. As ditas oposições votarão de novo bonitinho com o governo. José Serra e Aécio Neves, potenciais candidatos da oposição ao governo, já se manifestaram a favor do imposto infame. Também, pudera! Quem criou a CPMF foi o PSDB. PSDB e PT, mesmo combate.

Você ainda tem esperanças com o Brasil? Eu as perdi desde há muito e há muito não me escandalizo. Remember Dante: lasciate ogni speranza, voi che entrate!

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

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