Seg12102018

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

16 Set 2007

O Troco

Escrito por 
Eu não duvido que senadores, premidos pelo espírito corporativista, dêem uma de malandro para bancar bons moços protegendo colegas de alguma retaliação popular, mesmo que meramente moral.

Um dia normal da vida de um brasileiro. João vai ao banco sacar dois valores em separado para prestação de contas a terceiros. Explica o porquê à operadora e pede que seja o valor exato. Como se trata de uma associação de moradores, uma entidade pública sem fins lucrativos, mas que pode receber incentivo municipal há muitos inimigos. Sempre os há, quando se envolve com dinheiro. A funcionária do banco estadual pergunta se são necessários os centavos restantes (embora, o cliente já tivesse avisado que sim). Como a resposta foi afirmativa, lá vai a funcionária mal humorada recolher dois centavos que faltavam. Não encontrando, lhe forneceu dez centavos. Ao agradecer pelo gesto de boa vontade num país onde obrigação é interpretada como "favor", o rapaz guarda seus centavos e o rosto em desaprovação da funcionária.

Ao sair devagar, algum funcionário interpela a moça do caixa com dinheiro trocado ao que ela responde para ser bem ouvida "já dei dez centavos para ele!".

O que temos aqui, um erro repetido: a indisposição ao dar o valor exato e a entrega de valor excedente como se não fosse importante, como se a contabilidade de centavos inexata fosse supérflua ou incongruente. "Como eu não dou valor para o que dou a mais, como tu podes me exigir dois centavos?" É o que faltava ser dito para coroar a situação.

Mas, não termina aí. Ao sair da agência, um outro cliente ironiza a situação perante o detector de metais: "não tem revólver aqui na bolsa, não!" Se sofrem assaltos é incompetência da segurança. Pouco importa se para obter segurança, todos tenham que tomar medidas de… segurança! Isto é lógica, mas o que é a lógica senão um detalhe neste país?

A comparação com outro país é inevitável. Certa vez quando estive na Austrália fiquei admirado no supermercado. Como recém chegado tinha dinheiro grosso nos bolsos para qualquer eventualidade no outback e, ao trocá-lo no caixa, a atendente ergueu um saco cheio de moedas para me dar o valor exato do troco. Sem reclamações.

Claro que isto não deveria ser comum. A maioria das pessoas deveria sair com dinheiro picado para facilitar as compras, mas um dia na vida teve que trocar pela primeira vez. A situação normal, embora de baixa freqüência é respeitada como uma casualidade.

Não sei se eu que entendo tudo errado ou este país é que não tem lógica. E esta maneira de pensar faz com que se interprete errado, pequenos atos cotidianos ou até mesmo outros, com reflexos de maior envergadura na política nacional:

O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) disse nesta quinta-feira que encomendou a confecção 78 broches com a inscrição: "eu sou 35″. A frase é uma referência ao placar da votação secreta de ontem, que absolveu o presidente do Senado, Renan Calheiros, no processo por quebra de decoro. Renan teve 40 votos pela absolvição, 35 pela cassação e seis senadores se abstiveram.

"Mandei fazer 78 bottons [broches] porque sei que o Renan, o Wellington Salgado [PMDB-MG] e o Almeida Lima [PMDB-SE] não vão mudar de opinião até o final da terceira representação. Já os outros que votaram contra e ou se abstiveram, quem sabe [mudem de opinião]", afirmou Cristovam.

"Cristovam encomenda broches 'eu sou 35′ para senadores que votaram pela cassação." Folha Online, 13/09/2007.

Ainda aturdido pelo que ouvira no rádio, minha mulher logo sacou a malandragem. Se tratasse de distinguir realmente quem votou pela cassação deveriam ser confeccionados apenas 35 broches! Se fosse para mudar a opinião dos que importam, excetuando os três mencionados pelo senador do PDT, deveriam ser 75 broches, no máximo. E, por fim, se fosse para angariar apoio de todos que votaram contra ou se abstiveram, deveriam ser 81, pois foram seis senadores petistas que optaram pela abstenção.

Eu não duvido que senadores, premidos pelo espírito corporativista, dêem uma de malandro para bancar bons moços protegendo colegas de alguma retaliação popular, mesmo que meramente moral. Mas, o jornalista que relatou esta notícia o fez pensando por vias totalmente tortas.

Diferente do que poderiam pensar, não vejo nisto uma conspiração, mas um sintoma. Como disse o Janer Cristaldo, "Renan fez ameaças explícitas (…) e explicam em parte o veredito do Congresso". Só a lei do silêncio explica o comportamento da elite política brasileira. Por outro lado, querer algo mais de um Congresso que já teve chances de incriminar nosso presidente e não o fez é ingenuidade.

Bem, com este exemplo, muitos diriam, o povo age da mesma forma… Não penso assim. O que se apresenta regularmente para nós e que, proporcionalmente, negamos como se fosse uma ilusão óptica é que o Congresso nada mais é do que um reflexo do cotidiano do brasileiro em sociedade.

Este é nosso troco pela falta de moedas, que vêm com juros altos.

Solução? Só com choque cultural, "globalização de gente"… Ou se muda a cultura, ao menos parcialmente, já que "pacote completo" não se compra nestes casos ou estamos fadados a uma dívida sem consciência.

Um dia normal da vida de um brasileiro. João vai ao banco sacar dois valores em separado para prestação de contas a terceiros. Explica o porquê à operadora e pede que seja o valor exato. Como se trata de uma associação de moradores, uma entidade pública sem fins lucrativos, mas que pode receber incentivo municipal há muitos inimigos. Sempre os há, quando se envolve com dinheiro. A funcionária do banco estadual pergunta se são necessários os centavos restantes (embora, o cliente já tivesse avisado que sim). Como a resposta foi afirmativa, lá vai a funcionária mal humorada recolher dois centavos que faltavam. Não encontrando, lhe forneceu dez centavos. Ao agradecer pelo gesto de boa vontade num país onde obrigação é interpretada como "favor", o rapaz guarda seus centavos e o rosto em desaprovação da funcionária.

Ao sair devagar, algum funcionário interpela a moça do caixa com dinheiro trocado ao que ela responde para ser bem ouvida "já dei dez centavos para ele!".

O que temos aqui, um erro repetido: a indisposição ao dar o valor exato e a entrega de valor excedente como se não fosse importante, como se a contabilidade de centavos inexata fosse supérflua ou incongruente. "Como eu não dou valor para o que dou a mais, como tu podes me exigir dois centavos?" É o que faltava ser dito para coroar a situação.

Mas, não termina aí. Ao sair da agência, um outro cliente ironiza a situação perante o detector de metais: "não tem revólver aqui na bolsa, não!" Se sofrem assaltos é incompetência da segurança. Pouco importa se para obter segurança, todos tenham que tomar medidas de… segurança! Isto é lógica, mas o que é a lógica senão um detalhe neste país?

A comparação com outro país é inevitável. Certa vez quando estive na Austrália fiquei admirado no supermercado. Como recém chegado tinha dinheiro grosso nos bolsos para qualquer eventualidade no outback e, ao trocá-lo no caixa, a atendente ergueu um saco cheio de moedas para me dar o valor exato do troco. Sem reclamações.

Claro que isto não deveria ser comum. A maioria das pessoas deveria sair com dinheiro picado para facilitar as compras, mas um dia na vida teve que trocar pela primeira vez. A situação normal, embora de baixa freqüência é respeitada como uma casualidade.

Não sei se eu que entendo tudo errado ou este país é que não tem lógica. E esta maneira de pensar faz com que se interprete errado, pequenos atos cotidianos ou até mesmo outros, com reflexos de maior envergadura na política nacional:

O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) disse nesta quinta-feira que encomendou a confecção 78 broches com a inscrição: "eu sou 35″. A frase é uma referência ao placar da votação secreta de ontem, que absolveu o presidente do Senado, Renan Calheiros, no processo por quebra de decoro. Renan teve 40 votos pela absolvição, 35 pela cassação e seis senadores se abstiveram.

"Mandei fazer 78 bottons [broches] porque sei que o Renan, o Wellington Salgado [PMDB-MG] e o Almeida Lima [PMDB-SE] não vão mudar de opinião até o final da terceira representação. Já os outros que votaram contra e ou se abstiveram, quem sabe [mudem de opinião]", afirmou Cristovam.

"Cristovam encomenda broches 'eu sou 35′ para senadores que votaram pela cassação." Folha Online, 13/09/2007.

Ainda aturdido pelo que ouvira no rádio, minha mulher logo sacou a malandragem. Se tratasse de distinguir realmente quem votou pela cassação deveriam ser confeccionados apenas 35 broches! Se fosse para mudar a opinião dos que importam, excetuando os três mencionados pelo senador do PDT, deveriam ser 75 broches, no máximo. E, por fim, se fosse para angariar apoio de todos que votaram contra ou se abstiveram, deveriam ser 81, pois foram seis senadores petistas que optaram pela abstenção.

Eu não duvido que senadores, premidos pelo espírito corporativista, dêem uma de malandro para bancar bons moços protegendo colegas de alguma retaliação popular, mesmo que meramente moral. Mas, o jornalista que relatou esta notícia o fez pensando por vias totalmente tortas.

Diferente do que poderiam pensar, não vejo nisto uma conspiração, mas um sintoma. Como disse o Janer Cristaldo, "Renan fez ameaças explícitas (…) e explicam em parte o veredito do Congresso". Só a lei do silêncio explica o comportamento da elite política brasileira. Por outro lado, querer algo mais de um Congresso que já teve chances de incriminar nosso presidente e não o fez é ingenuidade.

Bem, com este exemplo, muitos diriam, o povo age da mesma forma… Não penso assim. O que se apresenta regularmente para nós e que, proporcionalmente, negamos como se fosse uma ilusão óptica é que o Congresso nada mais é do que um reflexo do cotidiano do brasileiro em sociedade.

Este é nosso troco pela falta de moedas, que vêm com juros altos.

Solução? Só com choque cultural, "globalização de gente"… Ou se muda a cultura, ao menos parcialmente, já que "pacote completo" não se compra nestes casos ou estamos fadados a uma dívida sem consciência.

Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

Deixe um comentário

Informações marcadas com (*) são obrigatórias. Código HTML básico é permitido.

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.